Yawa, Trovão, Verdade


Yawa Bane, by Chris Dodds

Não é atoa, que o apelidaram Trovão.Vim a saber disso, depois da nossa primeira experiencia com ele, naquela noite de verão fora do Rio, sob céu infinitamente estrelado.

Recostado  ao meu lado, Steve, de repente, me diz estar vendo uma  exorcizão.  Abri os olhos imediatamente, e bem ali, diante de nós, vi  aquela  mulher paralisada, trancada dentro de si mesma, gemendo de mêdo, e como uma múmia,  sem parecer respirar.  Os guardiōes- um time de ajuda formado e treinadopor Txana- ja haviam tentado traze-la de volta, entoando cantos, sacudindo penas sobre sua cabeça, exaurindo, enfim,  toda a pajelança que haviam aprendido, sem conseguir libertar aquela criatura, da prisão do seu próprio terror que,  contagiante, ja se refletia no rosto da  maioria dos participantes. A luz da fogueira próxima dourava todas as formas visíveis, ao mesmo tempo que projetava,  atrás delas, sombras gigantescas, por toda a tenda cerimonial.  Os tambores soavam alto, as flamas cresciam, auto-consumindo-se, e delineando a figura de Yawa dizendo palavras indígenas, sobre a vítima, enquanto agitava vigorosamente, grandes penas de águia, ao seu redor. Rezava, rezava, e nada parecia mudar. Algum desavisado que pudesse entrar ali, pensaria que tudo aquilo, no mínimo, fazia parte de algum cenário fictício, cinematográfico. Fumaça, palavras desconhecidas, penas coloridas, cocares sobre figuras que a luz do fogo tornava imensas, tudo pulsava, com energia de outra dimensão. Txana  passara a conduzir a cerimonia, para que Yawa, seu irmão, pudesse se ocupar da mulher. Ela e alguns outros, haviam tomado Ayahuasca pela primeira vez. Eu, sob a graça de ter visto o espírito que mais queria ver, estava incrivelmente tranquila, como que sabendo que tudo acabaria bem.

Tratava-se do segundo encontro Shamanico  internacional, no sitio S. José, e da nossa primeira experiencia com Yawa. Antes de começar o ritual, ele havia aconselhado a todos que não tivessem mêdo, pois Ayahuasca, sacramento da floresta, é a sabedoria mestra, e maior remédio. Mostra a cada um o que cada um precisa ver, e, sendo suas revelaçōes belas e boas, ou, ao contrário, aterrorizantes, poderia se aprender, com tudo que se viu,  e tudo passaria, dentro de quatro horas. “Confia na medicina”, ele me disse uma vez sabiamente, referindo-se ao chá, que me oferecia.

Yawa é confiança, assim como é confiante. É o único pajé que conheço, que viaja para qualquer lugar no estrangeiro, totalmente sozinho. Sem o apoio de acompanhantes, sem o conhecimento das línguas de outros países, (aliás, ja está começando a falar inglês) ele realmente se expōe, de peito aberto. Essa coragem é o que lhe permite aceitar, quando no estrangeiro, a participação dos hábitos, música, e criatividade do povo onde se encontra, honrando a verdade de que todo ser humano, pobre ou rico, velho ou moço, dessa ou daquela nacionalidade, tem algo a acrescentar. A verdade da própria criatividade, que,   além de regras, costumes, e tradiçōes, é tão imprevisível quanto a individualidade;  aquilo que, em cada ser, é a constante novidade da diferença.   A diferença, fruto da espontaneidade, algo que deveria ser fonte de renovação, assusta a maioria das pessoas, que prefere viver na falsa segurança da repetição, e assim o mundo vira uma competição entre diferenças, cada qual querendo se impor, e destruir o que não é seu reflexo.

Mathew de Grado, artista local, inteligentemente  observou, no começo de um ritual, aqui em Boulder, que o futuro, num planeta que se torna cada vez menor, está na fusão de culturas,  na conexão entre todos os homens, como indicava aquele círculo, formado por brasileiros e americanos, conduzido por um pajé da Amazonia. A  abertura de Yawa, o seu ser confiante, dando-lhe a coragem de dispensar a rigidez de regras de comportamento, (muletas que os civilizados que acompanham os índios tanto precisam, e tanto gostam de impingir, apossando-se da sua pretensa autoridade, e tornando-se, eles mesmos, autoritários por procuração) e permitir que o imprevisível -que é, por sinal, uma característica fundamental do próprio sacramento vegetal- se revele naturalmente, em cada um, e da parte de cada um.

Voltando `a exorcizão do encontro Shamanico, Yawa em dado momento, passa a falar em portugues, dizendo à mulher paralisada, “jogue tudo isso fora, irmã…”, enquanto continua a sacudir as penas. Ainda sem ter conseguido a liberação da vitima, ele finalmente a incorpora e vomita por ela, dentro de um balde que alcança. Logo em seguida, ela se meche um pouco, e finalmente bota “tudo pra fora”, vomitando, também. Devo aqui dizer, que esse “tudo” nao se refere ao chá ingerido, mas sim aos problemas e mêdo, que este trouxe `a consciência, ao “lixo”, que deve ser limpo. Limpo foi. A recuperação da mulher permitiu que Yawa, exausto, deixasse o circulo por um momento, e se abandonasse, por alguns momentos, de bruços, na terra la fora.

“Tem padres…”, sussurou Steve, que desmaiam quando exorcizam, tem uns que até morrem…, mas ele conseguiu, e deve mesmo, descansar”.

Para quem não acredita em exorcizao, por não acreditar em diabo, considere que este  é o mêdo, o que nos distancia de nós mesmos, e de Deus. Por isso, ja foi dito, que o contrario do amor não é o ódio, e sim o mêdo.   De peito aberto, Yawa o enfrenta, e o expulsa. E assim, permite que se renasça.

Amén.