Volta, Regina

A velha senhora começou a ser assediada pelo Alemāo. Ela vinha de uma família muito  bem remediada e tinha o talão de cheques liberado. Mas os exageros avançavam,  assim como a doença. E a filha da velha senhora, uma jovem senhora, nāo suportava mais ver sacolas de roupas novas intactas no quarto da māe.

Aos poucos, os cheques foram sumindo e os talōes emagrecendo. Os apelos da velha nāo mais eram atendidos pela jovem, que  apertava as rédeas da conta bancária da māe. Lentamente, a velha senhora foi perdendo a capacidade de locomoçāo, graças ao Alemão e a outros males associados. A filha descobriu que uma tal Regina telefonava  com frequência para a mãe, propondo entregar em domicílio os últimos lançamentos da loja em que trabalhava. Maomé ia à montanha. E sacolas de roupa continuavam aparecendo no quarto.

A jovem senhora, desesperada com o sumidouro contínuo na conta bancária, resolveu interferir naquela amizade e mudou o número dos telefones da casa e do celular da mãe. A velha, de memória enfraquecida, só nāo se esquecia de pedir à filha  que na volta do trabalho passasse na loja e deixasse um recado para que Regina telefonasse. A jovem fingia esquecer. Um dia, chegou em casa com a notícia de que Regina fora demitida, sem deixar paradeiro.

A velha  senhora lamuriava-se pelo sumiço de Regina e de seu pouco caso em ter partido sem deixar qualquer pista. E foi ficando cada dia mais triste, sem novas sacolas de roupas novas. Numa tarde de outono, a velha e a jovem senhoras passeavam pelo calçadão, uma sentada na cadeira de rodas que a outra empurrava.

A mãe pediu que parassem para apreciar um aviāo que cruzava o céu puxando um banner. Em casa, com olhos lubrificados de esperança, disse para filha que queria contratar aquele avião para que voasse pela praia puxando uma faixa com os dizeres  “Volta Regina”.

A jovem senhora foi enrolando, enrolando e enrolando. E protelou tanto a ideia que a velha senhora parou de pedir até que esqueceu de viver.

A história foi ouvida num salão de beleza, quando a  jovem senhora se preparava para fazer as unhas. A manicure, Regina Célia, se apresentara a ela  dizendo o nome enquanto abria o vidro de removedor.

A propósito… –  começou a mulher, estendendo as mãos.