UMBIGOS TRISTES

Já ouvi falar de depressão na face, na alma; de corno no menisco (dói tanto quanto aquele mais tradicional, que costuma acometer, simbolicamente, a fronte); de banho de lua para dourar por algum tempo os pelos do corpo; de cara de buldogue, quando as bochechas, irremediavelmente, começam a cair com lei da gravidade; rosto de lua, as inchadinhos por retenção de líquido e cortisona. Mas de umbigo triste foi a primeira vez.

Li num desses anúncios de clínicas e institutos de beleza que oferecem todo o tipo de esperança às mulheres, que têm sempre uma coisinha fora do lugar. Ou então, segundo elas próprias, um detalhe mal ajambrado por natureza, uma cochilada da linha de montagem, sei lá.

A autocrítica mordaz é nossa, das mulheres. E,  sejamos razoáveis, raramente a desqualificação estética parte dos homens. Estamos falando de homens e não dos que sofrem do complexo de Peter Pan, que não são poucos. Esses meninos-velhos se interessam pelo macro e não pelo micro. Aliás, eles não têm olhos para o micro porque os espelhos de homens e de mulheres refletem imagens diferentes. Os olhares não enxergam a mesma coisa. Por isso, é preciso saber olhar.

Uma vez, presenciei uma assessora diante de uma foto sua tirada em um fim de semana na serra amaldiçoando sua barriguinha (era mesmo só uma barriguinha) diante de um colega de trabalho de alto escalão. Hirta, ela já estava se precavendo de uma eventual observação que ele pudesse fazer. Mesmo que, por elegância, silenciosamente. Mas, diante da foto, o homem pareceu tão embevecido com outras coisas descobertas e à descoberto que foi taxativo quanto à ressalva da moça. “Não olhem a minha barriguinha”. O executivérrimo tranquilizou a moça: “Isso a gente nem repara”. Ninguém sabe que agradáveis surpresas se escondem num terninho e num tailleur.

No entanto, as mulheres, contumazes competidoras entre si, e quase obcecadas pela a perfeição, não acreditam muito no diagnóstico masculino. A não ser quando o homem, finalmente, diz o que ela quer ouvir: “É, querida, uma turbinada com silicone ia bem.” Aí bate o desespero do “Então você  acha que eu embagulhei?”

Mas o tal do umbigo triste faz parte de um tratamento para abdomen caído, flácido, embabadado. Daí, se a barriguinha levar um trato e ficar mais lisa ou sequinha o umbigo ficará feliz e ele e sua dona, na certa, voltarão a sorrir. Haverá psicanálise para manter o umbigo feliz? Ou essa tal felicidade é proporcional às calorias ingeridas?

Outro anúncio numa revista feminina semanal falava de um tratamento para a estética genital. O que será isso? Massagem, lifting, banho de lua, tintura, luzes, depilação temática ou genitália triste (há tantas) contaminada pela proximidade de um umbigo idem? Tudo pode ser uma questão de mood.

Me deu na cabeça: como se treina mão de obra para esses serviços e uma vontade louca de perguntar o que faz uma mulher procurar embelezamentos tão especiais, se ela não é dançarina do ventre ou de gafieira, daquelas que abusam da umbigada de maneira folgazã.

Uma cabeleireira que conheci nos camarins de tevê entrava em depressão quando uma cliente particular a convocava para retocar a tintura das partes pudendas. Lurdinha, que precisava desesperadamente de dinheiro para pagar até o almoço do dia cobrava alto para que a madame desistisse. Mas a madame pagava o que fosse. E Lurdinha conseguia juntar três meses de aluguel de seu mínimo apê na Gávea com aquele servicinho abaixo da linha da cintura.

Ler classificados é descobrir coisas do arco. A febre de crédito consignado e de dinheiro fácil, na hora, um perigo para os incautos desapercebidos, transformou a redação dos anúncios arregimentando acompanhantes de “ nível” para gringos e executivos exigentes.

Os textos dizem coisas do tipo “Ganhe dinheiro rápido e pague já as suas dívidas”. Ou “Em uma tarde apenas, você terá altos ganhos, pagos à vista, em agradável companhia”.

Pra gente ver que o mundo vai muito mais além do que o perímetro de nosso umbigo – forte ou fraco, alegre ou triste de cara. Eh, Madalenaaaaaaaaaaaaaaaaaa,  canto eu, lembrando do bom Ivan Lins.