Um dia, na padaria

Há mais de 15 anos não nos falamos, mas de vez em quando nos esbarramos, trocando olhares de soslaio. Nós somos eu e meu  pai, que assume cores, formas, estaturas e texturas várias. Quando esses corpos cruzam o meu caminho, deixam uma sensação difícil de explicar: mistura de culpa e desculpa, porque fiz pouco por ele ou fiz muito. Fiz o que podia.

Hoje, pela primeira vez, meu pai me apareceu em negro, entrando na padaria aqui perto. Usava um boné daqueles  brindes de empresa, que ele colecionava com orgulho. As vaidades de meu pai: camisetas preto e brancas, as cores do Vascão; bonés de aba; sapatos confortáveis; bermudas; uma bola para bater na areia ou num campinho qualquer. Rapidamente ele escalava um timão.

Um violão para cantar “No Rancho Fundo”. Rapidamente ele formava uma regional. Nada de chitões e chororós. Puro Silvio Caldas.  Meu pai adulava um grande saco de lona  bege cheio de sons e batuques. Cabaça,chocalho, pandeiro, cavaquinho, agogô, flauta. Ele emprestava os instrumentos para quem quisesse integrar a banda. Foi “ meu maestro soberano”, que me incentivava a ser cantora. Ele pegava o pinho quase na vertical, cruzava as pernas e com a cabeça dava o sinal para eu soltar a voz. E lá eu ia fora do tom, “…bem pra lá do fim do mundo, onde a dor a saudade, contam coisas da cidade.” Nos apresentávamos sob a mangueira, a única flor  a brotar do cimento que cercava nossa casa.

O  homem negro de boné passou sem deixar perfume algum e foi tomar seu café sossegado num canto do balcão. Nunca saberia de mim. Lágrimas malcriadas escorregaram e a moça do balcão, minha amiga, empunhando um pão na chapa crispado, me perguntou. Ela disse que passava pelos mesmos sustos de vez em quando com alguém, não lembro quem. Somos todos iguais, eu, meu pai em  negro, a balconista, o café, a manteiga derretida.

Sempre temi ter a alma despachada para o limbo sem, pelo menos, levar comigo a garantia de um visto temporário naquela coluna do meio. No entanto, como a nova Igreja reza que agora só existe Céu e Inferno, talvez eu vá encontrar meu pai no Paraíso, se este se confirmar. Quero essa data distante, embora cada aniversário a torne mais próxima. Por enquanto, pai, vamos nos vendo por aqui.

Vista as comendas de um general, a calça arriada de um marceneiro, porteiro, aposentado, músico, apontador de bicho, motorista de ônibus, ativista de esquerda ou o terno impecável de um chairman que eu sempre o descobrirei vindo a mim. Eu o seguirei pelas ruas; parada num sinal de pedestres, olharei sua nuca cortada por rugas simétricas, como um jogo da velha;e perseguirei,feito uma sem-carteira,seu automóvel sabendo que não é você quem o guia.

E ser eu chorar, é porque  não consigo esconder o espanto de te ver visitando a vida.

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