Tenho certeza de que não faço !

Há alguns meses estava na livraria Travessa do Leblon, na enorme fila da noite de autógrafos do publicitário paulista, Mentor Neto. Essas filas sempre nos dão a vantagem de poder ver livros com calma. Desde que a Internet entrou em minha casa, há exatos 20 anos, o maravilhoso hábito de folhear livros em livrarias foi se acabando. Naquele dia, eu podia !!

A fila, longa e lenta, me permitiu passar por varios assuntos diferentes, até mesmo mandar uma mensagem para minha amiga Elayne Ferreira e enviar foto do corner dos guias de viagem, numa brincadeira séria: pra onde nós vamos este ano? Rápida no gatilho quando o assunto é viagem ou festas, saídas, tudo que remete a um bom programa e de forma confortável, ela imediatamente respondeu dizendo o nome de uma cidade. Comprei o guia porque acabei dando  todos os meus, que já tinham mais de vinte anos. Vamos aos atualizados !

Resolvida esta questão, a fila andando, cheguei a um livro que me chamou atenção: “As 20 coisas que você tem de fazer antes de morrer”. Não estou bem certa se eram vinte ou outro número, mas esse título me deixou curiosa. Já pensando em comprar, abri e vi que o olhar da autora era muito diferente do meu e que, pra mim, bem entendido, o livro nao serviria para nada. Foi aí que comecei a pensar…

E num caminho inverso, pensei no que já havia feito e que não pretendo fazer jamais. Achei um exercício mental mais interessante. Aí a fila ficou mais divertida pra mim e pensei em algumas coisas, algumas delas, já esquecidas. Vamos lá !

Rock’n Rio – Fui ao 1, ao 2 e ao 3. Está de ótimo tamanho ! No primeiro eu saía de casa ao meio dia e voltava as 8 30h do dia seguinte. Esperei uma hora e quarenta minutos para ver o Queen, debaixo de chuva e valeu. Até mesmo quando um coroa, todo bebado e cheirado caiu em cima de mim, sentada num plástico grosso sobre a lama mole e puxou uma amiga, que com o susto, reagiu e começou a bater nele. Eu me lembro disso como se fosse hoje !! Perguntei: “Será que vocês poderiam continuar isto em outro lugar?”. Mas eu era jovem, não sabia que minha coluna existia e pude ver James Taylor, realizando um de meus sonhos mais ‘profundos’, digamos assim, olhando as estrelas com amigos queridos, só me levantando para dançar ao som de George Benson, que fechou a noite. Foi uma experiência singular, e como diz o nome, uma só, não acontece de novo. Já naquela época eu estranhava muito o fato de não ter um único lugar seco, com grama ou algo assim para sentar. Era grande a empreitada. No 2 eu vi George Michael, e no 3, Sting, muito bem acompanhada. Portanto, já deu. A Cidade do Rock é longe, os carros nunca chegam realmente perto, e se na ida já é chato, na volta é dramático.

Disney – Sinceramente, acho que nem se eu tiver de salvar uma vida. Pra mim, Disney é bom quando se é criança. E criança grande, pra entender aquela maravilhosa engrenagem e ainda sentir a magia. Voltei mais velha, de tanto que meus amigos iam e falavam encantados. Eu me senti prisioneira. Quando cheguei ao Epcot, vi aquele terreno enorme, caminho sem volta, calor (em fevereiro), e passando pelas peculiaridades de cada país. Achei um saco. Eu gosto de museu. Da história que cada um tem pra me contar. Ali, era uma bobagem. Comprei camisetas “na Itália” e na “Alemanha” pra dar pro meu amigo alemão, Paulo Schüler. O coitado só pode usar no sítio que tem porque a trama é tão fechada que aqui no Rio é impossível. E tome shows. Daqueles chatinhos, pompons,  musiquinha, as cores da América.

Miami – Vem meio que a reboque da Disney. Pra mim, é uma cidade sem identidade. Muito de tudo, numa cidade que não é nada. Não gosto, não me atrai. nem sei porque voltei a segunda vez.

Madrinha de Casamento – Esta é uma das grandes roubadas da vida, atualmente. E uma roubada cara ! Antigamente, a gente tinha ou comprava _ porque queria e não porque era imposta_ uma roupa legal, ia ao cabeleireiro, fazia uma maquiagem e estávamos prontas para compartilhar a felicidade de nosso casal de amigos, festejando sem ter de se desmontar usando havaianas. Éramos compostas até o final. Agora é uma indústria e vamos combinar, muito chata. Só garotas muito deslumbradas podem gostar de todas essas regras e de ainda ganhar o dia da noiva, num hotel ou algo assim. Fui madrinha de quase dez casamentos. Missão cumprida.

Passeio de Rio em cidades estrangeiras – O único que fiz e foi interessante foi o Bateau Mouche a noite, na minha primeira vez em Paris. Não sou chegada a programas de turistas, sou viajante. Mas esse era um clássico e acabou sendo muito interessante pelos americanos dentro do barco e os faróis que apontam para as laterais do Rio Sena e “flagram” jovens casais em beijos e amassos que assustam-se com os faróis rapidamente acionados. Eu me lembro do Rio Tigre, na Argentina. Eu e minhas amigas quisemos voltar, mas descobrimos que era “mão única”, e tinha-se de ir à frente. Por longas horas. E Buenos Aires fervilhando, esperando por nós ! Ai. ai…

Reveillon no meio do povo – Passei por essa experiência duas vezes, de formas muito diferentes. Na segunda eu estava protegida pela vidraça de um hotel na Orla de Copacabana. Ar condicionado, música, comida e bebida nota 10. Mas ainda assim, voltando à Elayne, o bom é passar por isso hospedada. Porque é óbvio que um esquema de segurança tem de ser montado e que você vira refém dele. Na chegada, como o Rock’n Rio, é chato, mas existe a expectativa. na volta, horas parada no trânsito, onde você está à disposição de um arrastão. Um ano antes, passei no frio novaiorquino, quis ver a maçã cair, coisa que faço até hoje, religiosamente, com a mesma companhia, ar condicionado e sorvendo uma boa bebida. Aquele ano foi uma loucura, Bin Laden estava começando a soltar bombas, era o governo de Clinton e fazia  -15C. Pra ver a bola cair, tive de pular me apoiando no ombro de um holandês, enorme, claro. A ida já foi uma loucura, porque com aquela primeira ameaça terrorista, não se entrava no bochicho pelas tranversais, precisávamos ir até o fim e voltar !! Imagina a volta ?

Show de Claudia Raia – Acho que é auto explicativo.

Permanente ou escova japonesa no cabelo – principalmente para uma pessoa como eu, que tem cabelos lisos que faz cachos nas pontas ! Eu me convenci de que tenho o melhor dos dois mundos, então agora me divirto com as cores. E só.

Marques de Sapucaí – Nunca gostei de Carnaval, apesar de grande esforço. É sério, eu me esforcei muito, principalmente na minha pré-adolescência em Friburgo. Mas a coisa era tão forte, que até pé machucado cheio de methiolate eu inventei. Não gosto, não está em mim. Naquela idade eu me perguntava o motivo de tanta alegria _ adorava festas de Reveillon e dançava até de manhã _ e um pouco mais velha, porque este evento dava a permissão para uma mudança tão grande de comportamento. Os tempos eram outros…

Itália – Devo ter deixado este item por último porque sou uma sentimental. Que consegue ser muito prática também. Quando eu era criança, meu avô estava fazendo 50 anos de Brasil e resolveu levar a família para conhecer a “sua terra”. Imagino o valor para aquele homem, vitorioso, forte, voltar por cima aquele pequeno vilarejo na Calábria, que de tão pequeno nem está no mapa, apresentando seus descendentes, a família que ele fez no Brasil. Eu adorei a viagem. Ficamos lá 32 dias, conhecendo tudo e mais um pouco, e o bom bom Baci virou memória afetiva porque ganhei de minha avó em Fiumiccino. Muitos anos depois voltei sozinha, numa viagem de mochila, iniciada em Londres. Só fui maltratada porque o italiano é tão ou mais machista que o brasileiro e quando veem uma mulher sozinha, tentam lhe cobrar tudo em dobro e coisas assim. Eu me aborreci e perdi a vontade de voltar.

Agora que escrevi tudo isso, fico pensando que tenho muitas coisas sensacionais para fazer ou conhecer, e que “as minhas ruins” não chegam a vinte. Isso é muito bom ! Sinal de que vivi, aproveitei, sorvi muitas coisas boas de culturas diversas em momentos diferentes de minha vida. E pretendo continuar assim !