Subsolo nordestino é tema de individual de Rodrigo Braga

A Anita Schwartz Galeria inaugura na próxima quarta-feira, dia 12, às 19h, a individual “Os olhos cheios de terra", de Rodrigo Braga. A obra central, que dá nome à exposição, é uma instalação que ocupará o grande salão térreo do edifício de três andares no Baixo Gávea, com desenhos, serigrafias, objetos, vídeo e fotografias. No segundo andar estarão fotografias resultantes de uma imersão do artista na galeria, quando realizou durante uma semana ações corporais, registradas também em vídeo.



O ponto de partida para este processo tem início nas pesquisas feitas por Rodrigo Braga a partir de 2014 sobre o solo e subsolo do nordeste brasileiro, no atual sertão que outrora foi mar. Em 2015, o artista esteve na França, onde visitou pedreiras de rochas calcárias datadas de aproximadamente 55 milhões de anos, utilizadas comumente em edificações nas cidades francesas ao longo da história.


Como primeiro resultado dessa pesquisa, ele realizou, em 2016, no Palais de Tokyo, em Paris, a monumental instalação "Mar Interior", a céu aberto, composta por toneladas de pedras brutas e fósseis marinhos. De volta ao Brasil, fez viagens ao sertão do Cariri, sul do Ceará, visitando e trabalhando em pedreiras também com alta incidência de fósseis de animais e vegetais marinhos, assim como grandes jazidas de gipsita, uma espécie de “fossilização” de sal de antigas bacias marinhas, estimadas em cerca de 110 milhões de anos.


Mais recentemente, o artista tem se interessado por outras formas de registros ancestrais de vida no desenvolvimento do planeta, como o carvão mineral e a petrificação de vegetais – tanto aquáticos como florestas pré-históricas. Deslocados de seu uso, seja na geração de energia seja na construção de casas, os combustíveis fósseis e as rochas calcárias interessam ao artista por seu vasto campo simbólico.


Um elemento que Braga retoma, depois de longo tempo, é o corpo. A ação corporal está presente em toda a exposição. Desde os registros de sua performance solitária, até o uso de seu próprio sangue – extraído apropriadamente por um enfermeiro – em desenhos, o corpo é um dos elementos de ligação dos trabalhos.


A convite do compositor Ronaldo Bastos, Rodrigo Braga ouviu “Trastevere”, canção feita em parceria com Milton Nascimento, que integrou o álbum “Minas” (1975). A música, experimental, “aberta e desconstruída, como os experimentos de John Cage, se quebra e se interrompe”, destaca o artista. Ele conta que a composição tinha tudo a ver com seu trabalho atual, com a presença humana, corpórea, depois de muito tempo dedicado às paisagens e elementos naturais. “A letra fala dos sentidos – visão, audição – ou da falta deles. E, apesar de ter sido composta na década de 1970, é extremamente atual, também no âmbito político, em que o ser humano está fragmentado, perdendo as certezas, se evanescendo”.


"Os olhos cheios de terra" poderá ser visitada até 03 de novembro. A Anita Schwartz Galeria de Arte fica na rua José Roberto Macedo Soares 30, na Gávea, no Rio.


Fotos: divulgação