Sua Majestade, o Avião




Sua Majestade, O Avião


Depois de muito bate boca no aeroporto, onde o pessoal da United não queria honrar o que nos informaram no telephone, ao vender as passagens do Colorado ao Brasil, achei que ia desistir da viagem. O último “não pode” da United não tinha sido informado no check in on line, nem na compra da passagem no telephone e, ao contrário do que nos haviam assegurado, eu não poderia checar minha bagagem de lá até o Brasil. Queriam que eu a retirasse em Houston, e fizesse novo check in. Mas eu só teria uma hora e meia em Houston, o lugar de conexão, e ficaria apertado, afora o fato de que se haviam garantido o contrário, deviam ver que nós, passageiros, ainda não somos totalmente aquela “boiada”, sem direito e sem pensamento próprio, e que eles ora dirigem pra cá, ora pra lá, a seu bel prazer. Falei que não pegaria a mala em Houston, e se não houvesse outro jeito, que nos devolvessem as milhas, e veríamos isso em juízo. Eu estava mandando qualquer coisa; só sabia que não faria novo check in em Houston, com aquela mala enorme, e pouco tempo. Parecia birra, pois tanto a funcionária da UA, quanto o meu marido, me asseguravam que eu teria tempo o suficiente. Enquanto eu insistia, batendo o pé no chão, que NÃO iria mais viajar se tivesse que fazer aquilo, perguntei-me se estava sendo por demais intransigente, mas mesmo assim, não mudei de ideia. A despeito de todo auto-questionamento, havia em mim uma proibição de fazer o que eles sugeriam. Depois que 4 funcionárias vieram assistir o nosso problema, insistindo que não tinha jeito, a quinta delas resolveu refazer as passagens, a meu pedido. Cumprindo assim, uma das exigencias burocráticas da companhia, que até então nunca fora preciso, ela informou que a bagagem, afinal, seguiria dali, diretamente para o Brasil.

Aquele conflito levou bastante tempo, de modo que tive que ir às carreiras para o portão do meu avião pra Houston, onde faria a tal conexão de curto tempo para o Rio, durante a qual eles ainda esperavam que eu me esbaforisse pra pegar e novamente despachar a minha mala, tendo que passar novamente com todo o resto das minhas coisas pela segurança, que todos sabemos o quanto é desagradável . Liberada pela quinta funcionária, corri para o portão de embarque, e fui informada que o aviao não estava podendo pousar talvez por toda a hora seguinte, por causa dos ventos nas Montanhas Rochosas! Claro que eu nunca teria tempo de checar mala nenhuma em Houston- como eles haviam a princípio insistido- pois talvez nem conseguisse chegar lá a tempo de pagar o vôo para o o Brasil. Dormir em Houston, pra pegar o do dia seguinte, nem pensar. Talvez voltar pra minha casa em Boulder, dali mesmo. Mas pra isso, eu teria que ir num customer service, pra tentar recuperar a tal mala que fôra despachada com tanto custo, para que não seguisse sem mim, para o Brasil. Sem saber o que fazer, fiquei me queixando no telephone para gregos e troianos, e todos me aconselhavam ter paciência. Mas como, se diziam que o avião estaria atrasado por uma hora, ou mais? Não tinham realmente previsão… Se fosse só uma hora, eu poderia ainda ter tempo, de me lançar `as carreiras de um portão ao outro, no aeroporto de Houston, mas se fosse mais do que isso, eu iria a Houston pra passar a noite la, e preencher formas, para que minha mala, o primeiro problema naquele aeroporto, fosse retornada.  Ja estavam avisando que um dos aviōes que não pudera pousar fôra desviado para Fort Collins… Melhor mesmo começar a bater em retirada, e adiar a viagem para o mes seguinte, ou, do jeito como eu estava estressada, sabe se la pra quando. Descarregando a minha irritação naquele pensamento, quando eu menos esperava, começo a ver, daquele mesmo portão onde embarcaríamos, um monte de gente saindo. Que avião havia chegado sem ser anunciado? Ali naquele portão, so podia ser o nosso, o de Houston… E era! Havia alguma chance, pra mim… Afinal, melhor prosseguir. Só devia estar preparada para, tão logo chegasse em Houston, voar fora daquele veículo celeste o quão rápido possível, para seja lá onde fosse o portão do que iria pro Brasil, esperando ter chance de alcançá-lo.

Ouvi musica durante o vôo, e aquela parte inicial da viagem passou rápido. Eu estava na primeira fila no interior do avião, e mesmo sabendo que ainda havia pessoas dentro dele, com conexōes mais breves do que a minha, na hora em que paramos no portão de chegada, me lancei porta afora, corredor acima, puxando minha bagagem de mão, sobre as rodinhas que nessas horas fazem milagres, e logo me vejo entre outros vários passageiros desabalados, por corredores que pareciam infinitos. Digamos que se meu portão fosse, por exemplo, na letra C41, eu havia saído no A1, tendo então os super longos corredores da letra A, B, e mesmo C para transpor, até o local de embarque do meu segundo avião. Não só consegui como, fazendo parte do grupo 1, fui uma das primeiras a entrar.

O oco interior da elipse esterilizada do frio veículo alado, exato, e preciso, foi a recompensa depois de tantos conflitos, tumulto e correria, o espaço incolume além da burocracia e passaportes, como que alem do bem e do mal, quando as identidades, ja provadas, discutidas, examinadas, já não significam mais nada. Quando se entra num avião, cada pessoa nao é mais do que o voto de fé incondicional no artificio. A terra, ou o chão, que sob qualquer outro veículo representa salvação, quer dizer, possibilidade de parar e andar com nossas proprias pernas, caso haja problema com o motor que nos transporta, passa a significar, no avião, o que deve ser evitado a qualquer custo, até o momento de chegada. O que é normalmente solidez e firmeza sob nossos pés, o próprio palco do desenrolar de nossa vida, passa então a representar a morte. Dentro do veículo voador que opera, durante seu percurso, essa total inversão de horizontes, transformando o ar em chão, e o chão em “fim”, nos entregamos por inteiro, conscientes ou não, sem questionamento.

Por isso, a sensação de me jogar no meu determinado assento é sempre de imenso alivio, e absoluta liberdade. Dali pra frente, não mais responsáveis por nós mesmos, temos que ficar em nossos assentos, e, sem nada poder fazer, fora e acima do mundo, somos obrigados a “deixar rolar”, e ficar consigo próprio. A transição entre um lugar e outro, nas asas artificiais da velocidade, permitindo-nos esse momento de meditação, leitura, ou reflexão, na entrega aos desígnios de Deus e do artifício, reune novamente todas as partes do nosso eu que foram fragmentadas pelo caminho, e pela vida. Ninguém vai nos chamar ali, ninguém vai nos pedir alguma coisa, ou esperar que façamos isso ou aquilo; durante as horas que ali passamos, nada mais nos é cobrado.

O avião, alcançado depois de esforço, planejamento, gasto de dinheiro, confrontos com burocracia, tecnocracia, polícia de segurança e, como nessa vez, lutas no aeroporto, é a majestade que tem, dentro de si, nosso reencontro com nós mesmos, içando-nos sobre o mundo. Na exatidão do seu interior, podemos revisitar nossos vagos sonhos e negligenciados pensamentos. Aviōes são escravos reis, que violam distancias com submissão imperativa e precisão categorical. Acima das curvas das nuvens de cores madrepérola, onde anjos devem se esconder, o pássaro artificial perfura, imperdoável, o azul do ceu, unindo obediencia e servidão, assim como o confinamento de nosso corpo e a libertação de nossa alma. Veículo da velocidade e da contemplação. Reis, que podem dispor de nossa vida, e servos, que anulam as distancias que queremos transpor. Seres da transição, promovendo a contemplação. Confinamento obrigatorio, no vôo do coração. E assim ele começa a se mover, vagaroso, a princípio, mas determinado, até que ascendendo, fura a atmosfera com a certeza da geometria e a determinação do amor, como que num aéreo ato sexual entre a natureza e a máquina. Dentro desta, participamos, com nossas visceras e nossa mente, na comunhão da ascensão com a velocidade, no rugir do motor vibrando em nosso âmago, e na infinitude do azul.

Acho que posso me considerar feliz,  só por amar ascender com sua majestade, o avião.