Romain Dumesnil expõe seu "Lapso" em projeto da Fundação Ema Klabin

"Lapso", do artista plástico francês Romain Dumesnil, é o mais novo trabalho a integrar o projeto Hóspede, da Fundação Ema Klabin, em São Paulo. Com curadoria de Gilberto Mariotti, a mostra pode ser visitada até 30 de junho.

Para o projeto, Dumesnil foi convidado a desenvolver uma instalação que dialogasse com uma obra da coleção permanente do museu. O artista escolheu uma obra anônima, representando a Torre de Babel, um mito-símbolo da transculturalidade e da hibridação, duas importantes vertentes do seu trabalho e do seu percurso pessoal.

A instalação parte de uma obra chamada Lapso, em que duas pedras vulcânicas flutuam no ar, em uma sustentação mútua pela força magnética que as une. Em torno desse conceito, Dumesnil trabalhou a construção de um perímetro ocupado por outros corpos/obras, compostos a partir de diferentes materiais, misturando elementos naturais, como pedras, galhos, cristais e elementos diversos retirados do universo da construção e da museologia (que remetem ao contexto da casa-museu que hospeda o projeto).

"O Lapso, como os outros corpos/obras presentes, tem em comum o existir aqui em equilíbrio físico e simbólico precário, como assemblagens frágeis de materiais e linguagens a priori estranhos uns aos outros. O conjunto instalativo acaba assim funcionando como mais uma alegoria/tentativa de elaborar uma Torre de Babel atualizada, incluindo as diversas expressões do humano, da arte e da natureza em um só lugar", define Dumesnil.


Lapso de linguagem


"Ao estrangeiro que habite o português, nossa realidade movediça, contraditória, embora familiar para nós em sua falta de sentido, resta a coleta de fragmentos deste mundo que o estranha. Peças soltas, se reunidas como numa colagem improvisada podem produzir, em contato com outras, novos sentidos, mas nem por isso deixam de falar de sua origem. Remetem tanto ao deslocamento quanto à identidade. 'O tema da Torre de Babel, na idade moderna […], é uma consequência da expansão europeia pelo mundo. É a expressão de um 'olhar mundo', fruto dos encontros e desencontros de povos, costumes e culturas proveniente de uma primeira leva da globalização […]. A Torre de Babel coloca a capacidade de traduzir como um fio de Ariadne. É o meio para sair do labirinto da incomunicabilidade que caracteriza a máquina do mundo em que vivemos'.


No horizonte de quem vaga por língua estranha pode despontar este edifício impossível, cuja falha de projeto se avista de tão longe. Distante, é denunciado por sua pretensão, e próximo, se traveste em cidade (tão grande é a extensão de suas fundações), indo de obstáculo sedutor à conquista inalcançável. Ao subir infinitamente por suas escadas tortuosas, atravessar seus cômodos conjugados, o estrangeiro terá habitado por anos nenhum outro lugar senão a própria língua, nenhum outro campo que não o da fronteira.


Ingrata a tarefa da representação: contrapor, mapa mundi em mãos, as bordas dos tais 'encontros e desencontros', numa movimentação conflituosa de territórios, as fronteiras da língua que definem, conceituam, dão fim à realidade: 'O eixo que une os dois polos é a linha ao longo da qual a língua se projeta a partir do calar-se autêntico, ou vice-versa, ao longo da qual a língua decai em direção do calar-se autêntico. […] A conversação que somos, e que é toda realidade, surgiu e sempre surge do indizível, o nada'. Resta sempre algo que, por sua ausência, conecta dois polos opostos. Dois mundos que, mesmo ao se ignorarem, possibilitam, um ao outro, sua existência.


Gilberto Mariotti, curador

A "Torre de Babel", de autor anônimo da escola de Bruegel, séc. XVII.

A série Hóspede, com curadoria de Mariotti, trata-se de um convite para que trabalhos de arte contemporânea sejam hospedados pela Fundação Ema Klabin por um período de um mês e possam conviver proximamente com uma das obras de seu acervo, acompanhados por um texto que propõe uma relação entre o trabalho hospedado e a obra anfitriã.


Esta edição apresenta este trabalho de Romain Dumesnil, "Lapso", de 2017, exposto em relação com a obra "Torre de Babel", de um seguidor não identificado da escola de Bruegel, séc. XVII. A produção é de Renê Foch, e a comunicação visual, de Lívia Silva.


A Fundação Ema Klabin fica na Rua Portugal 43, no Jardim Europa, São Paulo.


Fotos: divulgação