Rodrigo Pedrosa leva suas "Humanidades Cerzidas" ao Museu do Ingá

Pintura, escultura e instalação. Três linguagens artísticas em três atos que, em conjunto, reiteram uma só narrativa, a da história de uma humanidade desumanizada – ou, parodiando o psicanalista Sigmund Freud, retratam a persistência de um "mal-estar na civilização" que se arrasta e se agrava por meio de disputas geopolíticas, culturais e econômicas em escala global.

A exposição "Humanidades Cerzidas", do artista visual Rodrigo Pedrosa - com vernissage no próximo dia 17, às 18h, no Museu do Ingá - conduz o espectador a um percurso etnológico comparável aos encontrados nas pinturas históricas dos artistas viajantes, tais como Albert Eckhout. A mostra reúne pinturas de três séries que representam fases distintas da psique do artista: "Deslocamentos", "Humanidades" e "Uno".

As pinturas da série "Deslocamentos" revelam um discreto confronto estruturado espacialmente por meio de dípticos que simultaneamente unem e separam temporalidades e tecnologias, tensionam objetos da cultura material e de ethos diversos. Em seguida, a crítica social pungente se aprofunda em meio à composição e ao uso de uma paleta dramática cujas expressões faciais e corporais remetem a um estilo neo-expressionista.

Assim podemos interpretar a violência estética em tom de carne tatuada, pele e sangue na série "Humanidades". Há um sentimento de culpa e uma agonia que rondam as figuras do artista, um peso psicológico, além de uma carga emocional que não se pode evitar. O embate espacial dos dípticos, juntamente com a denúncia temática, parece encontrar uma superação ou síntese na justaposição das contradições ideológicas e culturais. Ademais, das imagens das telas únicas emerge a utopia: a comunhão das raças, das etnias, das polaridades políticas e das humanidades finalmente cerzidas na série "Uno".

"As esculturas de Pedrosa dão vida tridimensional as suas pinturas. A carne, a pele e o sangue, antes apenas simulacros aprisionados nas telas, tornam-se palpáveis na argila queimada com a força e a pulsão das altas temperaturas, como se saídas da boca de um vulcão em erupção. Fenomenologicamente, os corpos representados em cerâmica revelam toda a dramaticidade de posições excruciantes que, por sua vez, repercutem poeticamente o resumo do que significa ser humano: "memento mori".

Paira a lembrança do sofrimento humano e também de seu fim imortalizado pela terracota. Longe da palidez das esculturas tradicionais, nas esculturas de Rodrigo Pedrosa os corpos são originalmente pintados como "tatuagens". Feitas com o uso de estêncil, frases coloridas e demais interferências simbólicas, essas "tatuagens" poderiam ser encontradas nos outdoors ou na rebeldia dos pixos nos muros da cidade. No trabalho de Pedrosa, tais sinais frequentam os corpos escultóricos que reiteram os conflitos, as guerras por território, as divisas e os limites que deveriam ser cerzidos.

A esperança de uma visão utópica de mundo, como sugere o percurso narrativo da exposição, encerra-se misteriosamente no constructo de uma imagem dúbia encontrada na instalação composta por um conjunto de mãos erguidas para o alto, em que não se pode afirmar ao certo se estão a emergir ou a naufragar.


Profª.Drª. Renata Gesomino. IART-UERJ

Crítica de arte e curadora independente

O Museu do Ingá fica na Rua Presidente Pedreira 78, no Ingá, em Niterói. A exposição poderá ser visitada até 18 de novembro.


Fotos: divulgação