Proust no Aeroporto

Viro mais uma página da Recherche, maravilhada com a coragem de Proust encarar a dor; com a coragem de Proust, ponto. No seu texto, coragem, inteligencia, e amor, se identificam.

Ainda estou no aeroporto. Mas dessa vez, a segurança não me parou. Eu nao tinha,  na mala de mão, o volume único de  “A la Recherche du Temps Perdu”,  e sim um iPad, o qual, ridiculamente mais fino do que este ultimo, carrega, dentro de si, não somente a obra prima de Proust, como alguns outros livros. Com todo esse conteúdo, o tablete Apple, ridiculamente mais fino do que o volume impresso de qualquer um desses livros, não é impenetrável ao raio x, como havia sido o único tomo da Recherche, que eu geralmente carregava, como uma bíblia.  Soube isso do agente de segurança que pessoalmente examinou a minha mala de mão, na terceira vez em que não me deixaram prosseguir. Achei engraçado, e  metaforicamente adequado, que o gigante texto de Proust fosse “impenetrável” `a tecnologia de segurança, assim como o é a tantas pessoas, e ironico que, dentro de um iPad, se lhe tornasse acessível.

Na verdade, Proust originalmente queria toda a Recherche num so volume, como o que eu em geral levava na minha mala de mão, e obviamente ele tinha uma razão para isso. Ao invés de uma sequencia, com começo e fim, A la Recherche… tem a continuidade infinita de um circulo, em que qualquer parte é auto-suficiente, ao invés de simples transição, pois que no circulo,  começo e fim se encontram. Assim também,  as longas frases  Proustianas se desenvolvem numa longa sinuosidade, antes de retornar ao seu ponto original, bem ao contrário da evolução de uma linha reta que,  menor distancia entre dois pontos, não deixa de opo-los, sendo um começo, e outro, conclusão.

Com a completude e auto-suficiencia da circularidade, faz sentido poder ter o texto Proustiano por completo em nossas mãos, com todas as suas partes igualmente presentes na mesma unidade que podemos acessar e manipular, ao invés de  “sequencias” dele, em volumes que o descontinuam. Mas como lidar com a sua presença condensada e invisível, dentro de um chapado tablete eletronico?

Como Proust olharia para isso? Será que o super sensível escritor, tendo valorizado a copia individual dos livros que lia, tanto quanto o conteúdo desses proprios livros, como ele expressa ao falar daquele volume especial, em que sua mãe leu pra ele François le Champi; ao valorizar  milhōes de detalhes concretos  desse exemplar como componentes do seu significado, nas associaçōes eles lhe trazem,  com a criança que era então? Não lhe seria ofensa, ou vulgarização, enfiar a sua obra prima num tablete digital que dispensa volumes, papel, e tudo que é frio ao toque pessoal do leitor,   cada vez que reproduz alguma parte da  ficção Proustiana?

Como  Proust veria essa condensação praticamente abstrata, do seu texto, ele que era tão identificado ao coração, na sua fidelidade à concretude de cada momento  ( `a dimensao física e palpável da realidade)   a ponto de atingir a essencia, o que é imutável, através de impressōes provenientes de objetos? Através do corpo, em pouas palavras?

Proust é ambivalente, no tocante `a tecnologia. Se, por um lado, se mostra poeticamente maravilhado com ela, comparando, por exemplo, as tenefonistas,  que operavam o então recentemente descoberto telefone, `a criaturas mitológicas, ou, ainda, atribuindo também realidade mítica ao primeiro avião que  viu, sobrevoando acima do cavalo sobre o qual se encontrava, por outro lado, quando não ve dimensão poética em novas invençōes, se mostra horrorizado com elas,  como,  na vez em que, retornando, anos mais tarde, ao Bois de Boulogne, viu automóveis, ao invés das carruagens de outrora.  Nesse mesmo sentido, Proust acusa, através da sua reverenciada avó, a vulgaridade da reprodução mecanica, e a do proprio utilitarianismo, motivação sine qua non, do progresso tecnológico.

Marcel ( o narrador) e sua avó vivem no mundo da contemplação, e não no do uso; vivem na dimensão em que se respeita cada ser/objeto, em si mesmo, ao invés do que podem se prestar a nosso serviço. Desta feita, a avó prefere dar como presente, uma cadeira antiga, fragil o suficiente para nao poder ser usada, mas que, como antiguidade, estimula a imaginação; tem estórias a contar.  Nesse sentido, é justo dizer que o uso é “vulgar”, e Marcel, de fato, acusa a vulgaridade da reprodução mecanica, ao explicar que sua avó preferia lhe dar pinturas dos lugares que ele gostaria de conhecer, do que fotografias deles.

Tabletes digitais são por excelencia, objetos de reprodução mecanica. Reproduzem qualquer página de qualquer texto, no mero toque de nosso dedo, assim como, através de outro toque, a faz desaparecer, de volta `a invisibilidade, ao abandono  da sua fatia de espaço, no mundo. Nesse sentido, tal poder de reprodução corrompe, quer dizer, rouba, daquilo que reproduz, a condição mais fundamental que qualquer coisa tem  neste mundo: o direito de ocupar nele um espaço visível , enquanto existe,  e ser diretamente disponivel `a vista, e ao toque.

Quando o tablete anula  o espaço físico que um livro de tres mil páginas tomaria, reduzindo-o `a invisibilidade dentro de si, diminui, também, o tempo que se leva para ler esse livro, pois que serve ao mesmo tempo como dicionário, caderno de notas, arquivo das frases que sublinhamos, e ainda mais. Tudo isso, ainda, guardado dentro do escuro do seu “corpo”, não vem a ser acessivel `a vista, pelo toque do nosso dedo, como  páginas de papel podem ser, mas sim pela eletricidade que, igualmente invisível, serve de intermédio.

Não disponivel ao toque , a  resposta elétrica é também mais rápida do que a que se segue ao contacto físico direto, fazendo com que as páginas digitais apareçam e desapareçam num piscar de olhos, quando se menos espera, devido a algum contacto ou mero esbarro acidental da nossa pele com o video. Adeus, ritmo organico do corpo, adeus, temperatura cálida de contactos epidérmicos com o papel, adeus, associaçōes fisicas com volumes particulares.

Um monte de páginas do que leio agora se sucederam histericamente sob meus olhos, e nem bem sei onde havia parado, e o que fiz de errado… e nesses segundos, odeio meu tablete, tanto quanto a exatidão do seu mecanismo. Ainda assim, tenho que reconhecer que, graças a ele, não sou mais detida  na segurança do aeroporto, e, graças a ele também, não preciso trazer um caderno extra para minhas notas.

Em poucas palavras, tenho que reconhecer, o quanto ele é útil. Anulando o direito de cada página de um livro  ter o seu espaço visivelmente fixo, assim como diminuindo o tempo da manipulação física, e da busca de notas pessoais, ou seja la o que qualquer leitor pessoalmente requer desse livro, o tablete joga `as favas, em poucas palavras,  a concretude que forma o próprio altar da existencia, pela profana causa do puro utilitarianismo.

Acho que tenho uma ideia do que Proust pensaria disso. Entretanto, tenho que engulir a eficiencia do tablete, e a conveniencia de não mais “enguiçar” na segurança.

Desculpe-me, Marcel Proust!