Primeiro Mundo?

Um dos três anos em que morei na Inglaterra foi passado em Cambridge, cidade linda, pequena, poética , cheia de igrejas góticas que, no desvario da sua delicadeza vertical, nos tornam parte da sua ascensão. Com suas faculdades maravilhosas, ruas calmas, verde, e silencio, nada parecia faltar em Cambridge, para quem gosta de livros, reflexão, e cultura.  Por causa de Cambridge,  quando me mudei para uma cidade pequena nos Estados Unidos, que tinha também, universidades, eu estava longe de imaginar a mentalidade retrógrada que lá prevalecia. `As vezes me perguntava como podia existir tamanha caretice, no “primeiro mundo”.

Pouco a pouco, fui percebendo que, talvez por influência européia, para mim, primeiro mundo significava antes de tudo cultura, arte, e tudo que promove o desenvolvimento da mente, tanto no sentido psicológico e emocional, quanto intellectual. “Que droga de primeiro mundo é este?” minha mãe perguntava no telefone, quando eu lhe falava do puritanismo do lugar. Mas, puritano ou não, acidade, que era em Iowa, dispunha da “maravilhosa” tecnologia americana, desde computadores, todo tipo de maquinária doméstica, automóveis massudos e auto importantes, até a imensa gama de objetos utilitários, prosaicos e triviais, que a proposta da sua servidão é responder necessidades que eles mesmos criam, passando de “servos”, a patrões.

Quantas vezes se vai ao Target so pensando em comprar, por exemplo, algum shampoo, e se sai de lá com uma parafernália nova de banheiro, que a gente nem sabia que “precisava”. Prateleiras que cabem em volta da privada, para dar mais lugar (um lugar até então desperdiçado) `a toalhas, ou cosméticos, tapetes de banheiro  contendo uma camada tempurpedic (melhor para os pés) lixeiras mais fáceis de abrir, enfim, tudo que, se não comprarmos, nos faz sentir “roubados”.  Vai-se ao Target como patrão, e rapidinho se vira escravo. Indústria e tecnologia se desenvolvem de mãos dadas, para servir o imediatismo mecânico do tipo de mente que elas próprios criam, uma mente que não precisa saber nada de arte, ou tampouco refletir sobre os valores humanos pois, enquanto ciência aplicada, a tecnologia tem  objetivos que só visam resultados  materiais. Cultura, por outro lado, nutre o espirito e por causa disso, passa, no domínio da matéria,  de necessidade a luxo. Puritanos, ignorantes, caretas e racistas,  sabendo apertar os botōes certos, ou tocar nos devidos ícones , se irmanam no pragmatismo que, cada vez mais, abafa a espiritualidade. Quem tem tempo de se ocupar com ela, se o computador organiza nosso pensamento, e se os diferentes controles remotos que se proliferam ad infinitum  nos deixam permanecer sentados, enquanto um abre a cortina do quarto, o outro faz aparecer filmes na televisão, o terceiro  muda a temperatura da casa, e por aí afora?

`As vezes, acho que o símbolo dos Estados Unidos devia ser um controle remoto!

Quando contei `a mamãe que as amigas de minha filha não podiam entrar em nossa casa, por causa da escultura em mármore feita por papai, de um casal nu, que coloco sempre em lugar de honra, e ela me perguntou, pela milésima vez, “que droga de primeiro mundo é esse?”, eu respondi , “ Não é primeiro mundo, e sim idade media… So que uma idade média sem espiritualidade, uma idade média materialista.”

Aguentei o paradoxo de uma idade media materialista por muitos anos, e quando achava que ia enlouquecer, botava algum youtube do Elvis a todo volume, na sua fúria transcendental, e na absoluta liberdade dos seus movimentos imprevisíveis: “You are nothing but a hound dog!…”, imaginando que ele estava gritando contra toda aquela gente, e assim, Elvis me vingava um pouco. Embora eu tenha me ligado muito mais ao Rock n Roll ingles, concordo que Elvis é o rei. Ao invés de simplesmente dançar, ele é “possuído” quando se movimenta. Quando passa por exemplo, de uma flexibilidade “liquida”, parecendo não ter juntas, ao  vigor  do seu sentimento extremo, na motilidade única do seu rosto, e nas suas palavras, cuja convicção forma decretos, ele incorpora uma liberdade que não é deste mundo. Thank you Elvis!

Depois de muito me revoltar com o fato da cultura, enquanto caracteristica do primeiro mundo, ter dado lugar `a tecnologia; depois de constatar que todo mundo, antes de pensar comprar uma obra de arte, faz questão de adquirir o ultimo lançamento da Apple, depois, enfim, de  lamentar a constante diminuição do lado subjetivo da mente, pelo domínio eletrônico dos processos exatos, constatando  a verdade Junguiana que o homem moderno esta perdendo sua alma, eu, em Boulder, descobri o que pra mim, caracteriza o primeiro mundo.

Boulder, com a melhor maconha que existe, transformou o que era crime, em cura. Liberou o consumo da planta, nao so com objetivos médicos ( é impressionante os beneficios curadores que nos oferece) como para fins recreacionais. Com isso, resgatou a necessidade de contemplação, diminuiu a agressividade (ao contrário do alcool) e, Eureka, preparou o terreno para a devolução da alma do homem “moderno”. A devolução da capacidade de ver a beleza, e não só a utilidade. O respeito pelo que “é”, e não só a ganancia  pelo que nos serve: o poder da humildade, ao invés da vontade de poder.  Pois é nessa capacidade de ver cada ser em si, independente dele poder ser “usado”, que reencontramos o respeito geral pela criação, da qual somos um, e na qual somos todos. Sim, falo da conexão entre tudo e todos, que o Ayahuasca finalmente vem resgatar.

Embora legalizado aqui para o Daime e União do Vegetal, os artistas e os livres preferem buscar o  genuíno ritual de sua origem, e encontram seus Indios e Shamans para conduzi-lo. Quando o Ayahuasca, resgatando o sentido do sagrado, salvar o planeta,  o Brasil, com seus índios conhecedores da floresta e das plantas, terá passado de país do futuro a país do presente!

Voltando a Boulder, se a liberação da maconha, com as inúmeras formas de ser consumida,  não significa evolução , considerando-se principalmente o impasse ecológico que o capitalismo, encalhado na fase egoista e desconectada do individualismo, nos colocou, nada mais é evolução.

Então descubro que para mim, o que caracteriza o primeiro mundo são as condiçoes que nos permitem ultrapassar essa fase, e atingir o nosso verdadeiro indivíduo. Por isso, muitos aqui  ja consideram as plantas  espíritos, enviados de Deus.