Preciosidade condenada

Para a maioria dos mortais, Jacques van de Beuque é tão somente um nome francês. Sua obra, porém, ainda que pouco conhecida, é produto do que de mais genuíno pode haver na cultura de um país: a chamada arte popular. Francês de Bavay, ele se mudou para o Brasil, em 1946 e revirou o país por mais de 40 anos para montar o maior acervo de artesanato de que se tem notícia, e reuni-lo no Museu do Pontal sob o qual, infelizmente, paira uma Irrevogável sentença de morte. A cada chuva, como a dos últimos dias, o museu é tomado pelo aguaceiro e fechado para preservar o acervo e permitir os reparos urgentes e necessários .As peças são retiradas ás pressas: mais de oito mil obras de 200 artistas de 24 estados, entre elas, bonecos de Mestre Vitalino, Zé Caboclo e Manuel Eudócio, que retratam a vida e os costumes do interior. Imagens de vaqueiros, cangaceiros, de passistas de samba, assinadas por Antônio Porteiro, Adailton Lopes e Mestre Didi também compõem o acervo. Como se não bastasse o país ter acompanhado ao vivo um de seus mais importantes museus ser consumido pelas chamas, é preocupante ver um outro importante acervo como esse ameaçado de extinção na próxima chuvarada. Há que se encontrar rapidamente um outro lugar para abrigá-lo Não só para preservar a cultura produzida por muitas gerações e ali reunidas, mas também em respeito à memória de seu criador. Arista plástico, designer e colecionador, Jacques Van de Beuque cursou Belas Artes em Lyon até o início da Segunda Guerra, foi preso e escapou em 1944 quando decidiu sair da Europa e vir para o Brasil, a convite de Portinari. Aqui se encantou pela arte popular, montou exposições e começou a reunir o acervo. Em 1976, organizou a mostra Arte Popular Brasileira no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O museu do Pontal é a obra de uma vida. Ele não media esforços para descobrir e valorizar o trabalho artístico produzido por gente simples, muitos iletrados e sem qualquer recursos materiais. Há esculturas, bonecos, entalhes, modelagens e mecanismos articulados, produzidas com o uso de barro, madeira, tecido, areia, ferro, alumínio, miolo de pão, palha e arame. Além do acervo, ele também construiu a sede do museu. É dramática a situação do local, que encanta tanto jovens estudantes, como estrangeiros em busca da melhor arte ou de um tipo de arte que expressa toda a sensibilidade, criatividade e inteligência de um povo. Não há um guia de visita importante sobre o país editado aqui ou em qualquer língua, que não relacione o acervo reunido no Pontal por Jaques van de Beuque como uma das visitas obrigatórias na cidade. Buscar uma nova sede, um novo lugar não exige milhões, nem grandes obras, talvez por isso mesmo, o acervo esteja exposto ao risco.

É essencial às pessoas que tenham sensibilidade, que sejam de alguma forma ligadas à arte, ao patrimônio cultural do país, que busquem uma solução rápida para o Museu do Pontal, sob risco de se tornar mais uma preciosidade que o país fechou os olhos e permitiu que virasse pó.

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