Papai, mamãe…

Os dois pensavam demais, questionavam sem parar, produziam um trilhão de teorias, tão opostas, quanto as  realidades em que viviam.   Enquanto pra ele, tudo vinha de causas físicas, pra mamãe, tudo respondia motivos transcendentais.

Quando papai soube que eu ja tinha tido tido sessenta aulas diárias de motorista, e estava longe de poder fazer o exame, enquanto a maioria das pessoas precisava somente de duas semanas para aprender, me disse para procurar um medico, e examinar a cabeça. Por causa do meu ritmo lento, excessivamente introspectivo, mamãe, por outro lado, achava que eu vivia na dimensão contemplativa do antigo Egito, chegando mesmo a ver, em mim, uma reincarnação de algum egípcio/a.

Muitas vezes, com a sua firme convicção de que qualquer um, tendo oportunidade, pode fazer as coisas direito, ela ajudou gregos e troianos, com bons resultados.  Naquela vez em que a encontrei, no meio da pequena rua em que morávamos, ouvindo as queixas de um cara pobremente vestido, que enxugava as lagrimas, e dizia que, mesmo estando ele perto de ser pai, ninguém queria lhe dar emprego, só porque tinha ficha na policia – devido claro, a um mal-entendido, tinha ele explicado- mamãe acabava então de contrata-lo para completar o meu treino no volante.

Assim, tanto eu, quando ele, ganhávamos nova chance de nos revelar. Ele ia ser pai e precisava daquele emprego, assim como eu precisava aprender a dirigir. Mas quando me lembrava da vez em que, depois  das minhas primeiras trinta lições diárias, através de uma escola de direção bem recomendada, no Rio, o instrutor que me fora designado, delicadamente me mandou desistir, cheguei a ter sonhos repetidos, em que dirigia sozinha, tão libertadores quanto esses em que a gente se vê voando, como se fosse a coisa mais natural no mundo.

Naquela manhã de calor e mormaço, enquanto o instrutor catava pela milésima vez as balizas que derrubei, naquele terreno de cimento, baldio, e estéril, eu olhava para o céu acinzentado,  pensando em tudo que não fosse os minutos que ainda teria pela frente, até poder voltar pra casa. Foi então, que o rapaz, ainda do lado de fora, chegou perto da minha janela no carro, e, com as balizas na mão, falou, “Estrelinha…” “…Como?”, perguntei, sem entender nada. “Voce é uma estrelinha, não é deste mundo… Melhor desistir de dirigir…”

Se  ele estava certo com seu conselho, pelo menos me comparou a um corpo celeste,  como que entre a posição crítica de papai, e a espiritual, de mamãe . A escola para que trabalhava também me aconselhou desistir, acho que ja estavam sem graça de me manter na sua lista, sem eu nunca conseguir marcar data pro exame.

Devo aqui informar, que desde que papai, tendo uma vez que tomar conta de mim, quando eu era pouco mais que um bebe, chegou `a  inabalável conclusão de que eu era diferente.  Eu tinha pouco mais de dois anos. Mamãe havia saído por alguns momentos, e pedido a ele que ficasse de olho em mim. Sem tirar o foco do bebe que eu era, na louca e repetida aventura de subir os degraus de uma escada de pedreiro, que, com meu peso, levemente se desprendia da parede em que estava encostada, a caminho de cair comigo no chão, ele prontamente me tirou do degrau medio, que eu conseguira atingir, avisando, ” Não faz isso, que a escada está caindo em cima de voce”. Mas sendo a mania de repetir, uma das características da primeira infância, la fui eu subir novamente, fazer a escada se despregar da parede junto comigo, e levar meu pai a me tirar novamente do meu degrau, “Não disse? a escada ia  cair no chão, bem em cima de voce, será que vc não vê?!”

Na terceira vez em que insisti, papai somente olhou, na esperança de que eu tivesse aprendido.  Não parou de observar, quando viu a escada começar a cair, achando no mínimo  que so daquele jeito eu iria aprender…Entre  as minhas lágrimas, e as manchas rochas no meu corpo, depois que caí no chão, com a escada em cima de mim, ele explicou à mamãe, que chegava, ja nervosa, “… Essa menina não tem instinto de sobrevivência!…” “Como? que houve?  como pode voce, concluir isso de uma criancinha?

Ao ouvir a estoria, ela disse  que o “anormal” era ele, em me me fazer de cobaia dos seus testes “epistemológicos”. Mas ele nunca esquecia os diagnosticos que fazia, e diante de muitas coisas em minha vida, como estudar filosofia, por exemplo, repetiu que eu não tinha instinto de sobrevivencia.

De volta ao suspeito que mamãe contratou, que usava uma camisa verde luminoso, acentuando o vermelho do inchaço  das várias espinhas  prestes a explodir no seu rosto, eu, no entanto, o vi como superior a mim, por saber dirigir, aquela coisa do arco da velha, mesmo quando ele mostrava não ter educação, nem consideração por ninguém: Dentro daquele fusca caindo aos pedaços, cuja porta do lado esquerdo se abria em todas as curvas que o carro fazia pra direita, e a qual eu conseguia segurar, enquanto o cara dava socos irritados na sua, pra compensar    a falta de buzina do veículo, gritando, para as pessoas idosas, que atravessavam  alguma rua, calmamente, ” Será que isso aqui é a passarela da velhice???” E de novo batia, “Bang, bang, bang”, continuando a gritar, “Saiam do caminho!”

Depois de mais dois anos, em que fui  diariamente `a faculdade que cursava, com aquele cara do lado, me dizendo quando acelerar, quando virar aqui ou ali,  quais os espaços em que o carro devia entrar, e que eu nunca pensaria caber, mamãe percebeu que ele, com a desculpa de levar o veículo pra concertar toda hora, desviava dinheiro dela. E eu, ainda longe de poder dirigir. Assim, eu e ele falhamos nossa nova chance, e pra mim, um outro tipo suspeito, foi contratado por mamãe. Este, depois de seis meses, repetiu o parecer dos outros, e disse que eu nunca conseguiria dirigir. Afora minha nulidade em me orientar, o carro, comigo dentro, me parecia muito maior do que na realidade era. Cheio com meus pensamentos, horizontes, e divagaçōes, qualquer carro me parece até hoje, depois que já dirijo ha trinta anos, maior do que a maioria dos espaços exteriores que lhe cabem,  e que me aparecem encolhidos, pela simples objetivação de estar do lado de fora, quer dizer, de não fazer parte de mim.

Se consegui, finalmente, dirigir, foi porque quis morar na frente do mar, num lugar que, na época, era mais inacessível. Como sempre, dei um pulo maior que a perna, e depois, botei as coisas no lugar: Um belo dia, me senti no controle do veículo. Me achei o máximo.. Consegui até me enganar que no tráfego eu via tudo que todos viam, ao mesmo tempo que eles, e que eu até entendia direções. Que exame de cabeça que nada, mamãe que estava certa….

Nem tanto, porém. Eis o motivo:

Quando eu quis aprender a dirigir, só pensava em ir do mar da Barra, onde fui morar, `a zona Sul, e ja achava isso ótimo. Sem saber que iria me mudar  pros Estados Unidos, nunca pensei que viria a ser tão absolutamente dependente do automóvel, a partir da primeira cidade em que moramos, que nem táxi, praticamente, tinha.  Onibus era raro, e poucos eram os que esperavam por algum, no frio de  20C, abaixo de zero. A cidade era pequena, e, praticamente sem calçadas, parecia um simples ponto, no entrelaçado de pistas e  mais auto-pistas . Como varias outras cidades americanas, em que nem se caminha, o meio de se movimentar é dirigir seu próprio automóvel. Moramos em vários desses lugares, quando eu então, fui motorista de meus filhos, e os levei pra todo lado. Areas rurais, antes do iPhone existir, pistas nas quais me perdia, estradas de neve em que somente uma vez, desviei da rua, tudo! Passei a me achar, se não mais, o máximo, pelo menos, normal. Até que as crianças foram crescendo, e, quem diria, se envergonhando, do meu dirigir. De repente, Chris se abaixava no banco do carro, por causa de alguma “barbeiragem”, que ele afirmava que cometi.  Quando minha filha Olivia tinha dois anos, soube apontar, lá do banco de trás, na maior nevasca, a direção certa, de nossa casa. Eu, que seguia a oposta, pensei que ela era fofa, achando , tão pequenina, que podia me guiar. E ela podia! Depois de continuar no caminho errado por algum tempo, tive que dar meia-volta!

Fui motorista de meus filhos, por uns vinte anos. Não fosse por mamãe, sua fé, e seus métodos improvisados, certamente eu não teria sobrevivido como mãe de familia, nos Estados Unidos, reino do automóvel. Entretanto, tornei-me, através das crianças e dos anos, totalmente consciente de como é maior o esforço que faço pra dirigir, e nem sempre com bons resultados, em comparação ao das pessoas que papai chamaria “normais”.

Aqui, onde tudo vira síndrome, ja descobriram qual é a minha. A explicação física da minha dificuldade me tornou mais auto-tolerante, consciente dos meus limites, e até me deu o direito, de vez em quando, de tomar algum remédio. Claro que o iPhone, ditando direçōes, assim como reajustando o caminho com um saco de ouro, quando ainda assim, encontro jeito de errar, também ajudou a me salvar.

A fé intuitiva de mamãe fez milagres, mas o julgamento racional de papai também passou a contar.

Um pouco de transcendentalismo, outro pouco de ciência médica, e ainda dirijo!