Oona Chaplin: Fada, ou Anjo?

Eleonora Duvivier

Ja disse Marcel Proust que os verdadeiros paraísos são os que perdemos (e reencontramos).


Assim me senti quando ouvi Oona Chaplin cantar, numa festa a que fui recentemente com minha família, em Beverly Hills. A voz daquela moça encantada tem gradações tao etéreas que parecem estar entre dois mundos. Ao mesmo tempo em que se pode escuta-la, ha momentos em que parece estar prestes a se desvanescer, atraves dos varios niveis de tom, de som e de emoção que se sucedem na delicadeza crescente da intensidade do coração, como que quase voltando à dimensão do além , que lhe dá origem. A dimensão das fadas, dos anjos, e das ninfas que os gregos acreditavam habitar dentro das árvores; daqueles que inspiram em nós uma reminiscencia immemorial de bem-estar; numa vontade de “partir” para o Paraiso que nos faz redescobrir.


Eu ja havia sido apresentada `a Oona por meus filhos, que ja a conheciam. Sabendo da tradição de amor que minha familia tem por Charles Chaplin, (minha mãe ganhou premios imitando Carlitos, em varias ocasiões) Chris me disse para ser discreta, com Oona. Eu estava curiosissima, porque ele e Olivia afirmaram que ela se parece com o avô Chaplin. De fato. Não é uma questao de traço por traço, mas uma expressão de maravilhamento que vem la do fundo. A alma, talvez.


Quando Olivia me levou ate Oona e me apresentou como sendo mãe dela, Olivia, e de Chris, Oona me saudou com carinho,

“Hi Mom…”

“My whole family loves your Grandfather, and I can see him in your face!”tive que dizer. Ela sorriu.


Isso foi há mais de um ano, e naquela epoca não cheguei a ouvi-la cantar. Mas senti minha mãe ali comigo, diante de uma manifestação tao direta de Carlitos, e me emocionei. Nunca pensaria entretanto, que o canto e interpretação de Oona ainda mais pudessem expressar para mim a dimensão sobre humana que Chaplin atingiu com seu genio, numa linguagem totalmente diferente, bem entendido, mas da qual ele se orgulharia.


Varias pessoas cantaram nessa festa. Embora profissionais, eram somente deste mundo, e, se animavam a dança, por um lado, por outro, puxavam todo mundo de volta pra terra.


Oona canta em espanhol, português e inglês, mas seja qual for o idioma escolhido, o que ela realmente fala é a linguagem dos anjos.


Para quem não sabe, ou não lembra, Oona tem o mesmo nome de sua avó paterna, Oona O’Neill, que encontrou Charles Chaplin aos 18 anos, estando ele ja com 52. Ela era filha do dramaturgo americano O’Neill, o qual, um pouco mais moço do que Chaplin, desaprovou o casamento. Oona e Charlie tiveram oito filhos, sendo Geraldine, que é a mae da cantora que conheci, a mais velha dos oito. Atuou em muitos filmes, incluindo “Hable con Ela” de Almodovar. Seu primeiro grande sucesso foi em Doutro Jivago. Mais importante do que ser linda, ela tinha uma natureza de discrição aristocratica, e uma delicadeza que, como na filha, é pura fôrça spiritual, assim como a do Beija-Flor, cujas asas velozes, no seu movimento quase invisivel, tocam o outro mundo, e, como que libertando-o da gravidade, lhe dê acesso ao mel das flores.


Como testemunha da beleza etérea, so posso concluir este texto citando aquele que tanto convivia com ela.


Nas palavras de Proust sobre uma frase musical da sonata de Vinteuil, (identificado por muitos a Cesar Frank) ele diz que tal frase é revestida em som, mas vem do mundo do invisivel, e se nao nos prova a existencia desse mundo e da vida eterna, nos rende praticamente indiferentes à morte, questionando até mesmo a possibilidade desta não existir. Falando sobre a frase, Proust diz: “ Seu destino estava ligado ao da alma humana, da qual ela era um dos ornamentos mais distintos e especiais. Talvez seja o nada o estado verdadeiro, e a vida eterna é apenas um sonho; mas se assim for, sentimos que essas frases musicais, essas concepçoões que existem em relação ao nosso sonho, também não devem ser nada. Nós morreremos, mas teremos como reféns essas cativas divinas que seguirão e repartirão nosso destino conosco. E a morte na sua companhia é de algum modo menos amarga, menos ingloriosa, talvez até menos provável.”


E nessa sensação inspirada pelo canto de Oona, as seguintes palavras se aplicam, ainda referentes, no caso, `a frase musical:

“… Humana, desse ponto de vista, ela ainda assim pertencia a uma ordem de seres sobrenaturais que nunca vimos, mas os quais, a despeito disso, reconhecemos e aclamamos arrebatados quando um explorador do invisível ( um artista) consegue trazer um deles do divino mundo a que ele tem acesso, para brilhar por um breve momento no firmamento do nosso. Isso foi o que Vinteuil fez com a pequena frase.”


Isso é o que Oona faz com seu canto.