O silêncio é de ouro

Num mundo cada vez mais barulhento, estamos entrando numa onda de decibéis enlouquecidos e não estamos nos dando conta. A verdade é que de vinte anos para cá tivemos nossa vida mudada com a chegada da Internet e os desdobramentos que esta nos proporcionou através dos vários gadgets. Foi enorme.

A Internet Comercial chegou ao Brasil de fato em 1996, pouco depois do telefone celular, nesta época já acessível para grande parte da classe média, que não precisava mais pagar pelas ligações recebidas e já começava a ter acesso à caixa postal ! Com o barateamento desses custos, tecnologia caminhando a passos largos, logo a maioria mais absoluta da população começou a desfrutar de tudo que tocava, apitava, cantava, assustava.

Mas isso foi um plus _ grande, é verdade_ ao mundo que vivemos, já tão barulhento e sem legislação.

O que dizer das buzinas, e pior, as buzinas dos moto boys, que passam direto exigindo passagem, e não pedindo, aos que tiram o “miolo” do cano de descarga da moto e rodam livremente, pouco se importando com as outras pessoas.

Falta de educação é palavra chave, mas displicência e pouco caso também são protagonistas desta história, vindo da parte das autoridades.

Tenho um amigo de infância que outro dia me ligou porque estava escrevendo uma carta para a prefeitura e o motivo era exatamente este. Há 25 anos trabalhando numa empresa aérea internacional, ele tem horários irregulares, ou seja, escalas. Ele nunca sabe como será a semana dele com grande antecedência. Com tanto tempo de casa e dedicação, hoje ele é o chefe no Aeroporto Tom Jobim. Muita responsabilidade recai sobre suas costas e o mínimo que este profissional precisa pra manter a saúde, o discernimento e a sanidade é dormir.



Seu telefonema veio do incômodo desta impossibilidade quando trabalha de madrugada. Ele me contou que escurece o quarto, liga o ar, desliga o telefone e usa máscara para dormir e plugs de ouvido. O que, abrindo um parênteses, já é uma temeridade, porque se gritarem Fogo !, ele jamais escutará. Com todo este aparato ele passa por aquela tortura de estar quase pegando no sono e ser despertado pelo alarme de garagem, que foi criado para avisar ao PEDESTRE, que algum carro está saindo e por isto o mesmo deve parar ou olhar e ter cuidado. Hoje em dia, este alarme é disparado quando um carro vai entrar também. Então, o dia inteiro, aquele bi-bi-bi insuportável é acionado, cada vez mais alto, sem nenhum tipo de controle.

Por que apitar quando o carro vai entrar ? Para avisar ao porteiro, que se está cumprindo sua função, está acordado, alerta e vendo o carro chegar?

Esta é apenas uma das discrepâncias que vivemos, com absoluto descaso das autoridades. Elas têm ingerência sobre este tipo de irregularidade e têm de se responsabilizar. Fazendo um exercício de suposições, neste mesmo prédio pode ter uma mãe penando com seu recem-mascido que não consegue dormir, uma pessoa de idade presa a uma cama, ou não, pode estar sofrendo com isso.


Sounds of Silence

Tantas campanhas são propostas atualmente e através das redes sociais, onde chegam mais rápido; algo deveria ser pensado neste sentido.



Ouvir o som do silêncio, por opção, a partir das 22h deveria ser uma opção do cidadão dentro de casa. Se os locais públicos estão com decibéis lá em cima, é terrível, mas temos o poder de escolha de não entrar ali.

Será que precisamos viajar para ouvir o tal silêncio? Acho que cabe uma reflexão do macro.

Cada vez mais voltados para o externo, desde o bar, a moto, o alarme de garagem até o forno de microondas, o aspirador, o whatsapp, o messenger, o email, que apitam com sons diferenciados e já nos colocam em estado de alerta do “precisar olhar” , checar do que se trata, cada vez mais estressados, fazendo-nos inclusive priorizar a chamada externa, deixando de lado quem está ao nosso lado, muitas vezes com uma conversa adorável.