MORTE DE UMA MÚMIA

O fogo lambendo  sem pudor a forma e o conteúdo do Museu Nacional deixou os brasileiros absolutamente consternados. Logo os brasileiros, um povo que, dizem, não gosta  de cultura, não  quer saber de aprender e que não conhece ou respeita a sua história . Não foi isso  o que vimos.



Lágrimas, impotência, raiva foram alguns dos sentimentos que escorriam por onde se procurava notícia da tragédia sem salvação. Se não pela compreensão da perda inestimável de um acervo, ja há anos condenado ao fim que teve, mas por ver virarem cinzas as emoções que o museu evocava em de cada um. E não é para isso que servem os museus?

O museu, abandonado por décadas e que resistia ao desprezo dos responsáveis por ele, era uma lembrança também memorável para as gentes não só da minha geração. No rescaldo desta segunda-feira enlutada, descubro que pessoas mais novas estão sofrendo. E que o museu foi o passeio marcante dos filhos dos empregados de meu prédio. O mesmo para o vizinho que encontrei no elevador e para o desconhecido que ao meu lado esperou o sinal abrir.

Todos sabiam que um dia a casa poderia cair de velha e abandonada, apesar do esforço de seus funcionários. Mas um acervo datilografado em velha máquina, em papel qualquer, não teria futuro, passados 200 anos, no século 21.

Lembro que foi com quase pavor que me aproximei da múmia que era a vedete do museu (a Luzia, a mulher mais velha de que se tem notícia nas Américas ainda não existia lá e nem tinha sido descoberta). Não me pergunte qual múmia me impressionou mais. O fato de haver  uma ali era suficiente para eu nunca mais ter esquecido aquela aventura no palácio do Rei.

Lembro  de ter descoberto que aquele quase embrulho envolto em  faixas, que pouco lembrava alguém que ja existira, não era então capaz de me assustar como eu temia. Mas, de uma forma ou de outra, a  múmia e seus panos bolorentos solenizou o meu entendimento de história. Voltei para casa daquele  passeio sabendo para que servia um museu.

A imagem que mais me impressionou no incêndio de ontem foi a das 30 estátuas, representando as divindades gregas, apostas sobre o teto do palácio ancião. Com que divina coragem olhavam as chamas e suportavam o indizível calor.

Achei que aos poucos os deuses derreteriam em cimento e musgo sumindo para sempre como tudo o mais. Mas resistiram. Deuses não morrem. E lá ficarão para contar no futuro que foi mais difícil resistir ao descaso e a indiferença do que ao fogo.

Ao lembrar da minha múmia falecida ontem, um conhecido fez pouco do meu luto particular. Depois desculpou-se. Eu aceitei suas palavras como quem aceita de bom grado os pêsames. Por mim e pelo meu país. 

Fim