“Histórias que nosso cinema (não) contava” estreia nesta quinta-feira

Filme realiza uma releitura histórica da ditadura militar no Brasil por meio de recortes de produções consideradas “pornochanchadas”


Dirigido por Fernanda Pessoa, “Histórias que nosso cinema (não) contava” entra em circuito comercial nesta quinta-feira, dia 23, após ter tido sua estreia no 20º Festival de Cinema de Tiradentes e ter sido exibido em festivais nacionais e internacionais, como DocLisboa, CinéLatino Toulouse, Festival du Nouveau e Cinema Brasilia. O filme, que também passou por países como Grécia, França, Índia, Canadá, Sérvia e Portugal, tem distribuição da Boulevard Filmes.


O longa realiza uma releitura histórica da ditadura militar no Brasil, com foco nos anos 70, a partir apenas de imagens oriundas de 27 filmes produzidos no período e que foram considerados “pornochanchadas”, o gênero mais visto e mais produzido durante aquela década.


“Histórias que nosso cinema (não) contava” é um documentário de montagem, ou de remploi, feito inteiramente com imagens e sons das pornochanchadas, sem entrevistas ou off. Temas como a luta armada, a violência do Estado, o milagre econômico, a “era de aquarius” e a modernização do País são abordados de forma divertida e inusitada, por meio de uma montagem criativa e associação inesperada de imagens.


A produção relembra e analisa um período histórico brasileiro pela produção cinematográfica hegemônica, provocando uma reflexão não somente sobre o período histórico retratado, mas também sobre o próprio cinema enquanto construtor da história e da memória coletiva.

“Sem ter vivido o período da ditadura militar, já que nasci um ano após a abertura democrática, encontrei nos filmes nacionais do período um grande material histórico, ainda pouco analisado dentro desta perspectiva. Aprendi muito sobre o período assistindo a esses filmes e é essa visão que pretendo mostrar ao espectador, partindo de um conhecimento empírico vindo do próprio cinema. Do chamado “milagre econômico” à repressão e às torturas, tudo foi retratado pelo cinema popular da época, implícita ou explicitamente.

De uma pesquisa inicial de mais de 150 filmes, foram selecionados 27 títulos. Foi realizada uma pesquisa intensa com diversas instituições e pessoas para conseguir encontrar o maior número de filmes produzidos nessa época. Essa difícil busca revelou o quanto a memória do cinema nacional não está sendo preservada. Filmes de importância histórica e estética não estão disponíveis ao público. Por isso, um grande objetivo é trazer à luz a filmografia da chamada pornochanchada – muitas vezes esquecida ou rejeitada.

Durante um ano e meio, viajei com o filme para festivais no Brasil e em países tão diversos como Grécia, Índia, França e Sérvia, tendo reações surpreendentes: na Grécia, o público de identificou muito e percebi que somos mais parecidos do que imaginamos, na Índia o filme causou grande polêmica e debates sobre censura e mudanças de costume, etc. Estou muito feliz que o filme finalmente chegue ao público em geral, o que sempre foi um grande objetivo durante a realização, já que a “pornochanchada” sempre teve um diálogo muito grande com o público “não especializado”.”

Fernanda Pessoa

Fotos: divulgação