FOLHA GRANDE, FOLHA PEQUENA


Não sou Anitta (nem queria ser), Neymar (talvez quisesse), Gisele (quem dera) nem Bonnie Tyler, a intérprete de Total Eclipse of the Heart (confesso que desconhecia a cantora), a  mais nova recordista planetária da internet por causa do eclipse do sol na última terça-feira. Mas quebrei a rede semana passada, ao escrever sobre a simplíssima festa de  91 anos de minha mãe. É bom explicar que esse meu “arrombar a festa” na internet refere-se ao meu humilde padrão. Creio que nunca antes passei de uma centena de likes. Muito menos superei a casa dos quarenta comentários. Dessa vez, sim.

Esse meu discreto fã-clube digital deve-se, talvez, à minha discreta fome de fazer amigos na rede. Quase sempre, quando aceito gente  sem referência de outros amigos,e que não conheçi pessoalmente por achar que esses forasteiros podem me admirar por algum ângulo ou ter algum ângulo admirável, descubro que não têm nada a ver comigo.

São esquerdopatas, mais parecidos com  raivosos robôs partidários, ou direitistas desesperados pedindo a volta dos militares. Ou, ainda, gente desinteressante, que passa a mandar posts com laços de fitas e bichinhos desejando bom dia, boa tarde, bom semana, bom mês, bom ano. Ou convidando para jogos e correntes. Nunca respondo, e os algorítimos vão-se encarregando de esquecê-los e  fazê-los com que se esqueçam de mim.

Mas semana passada muita, muita gente apareceu na minha linha do tempo para se manifestar por Dona Lourdinha e por mim. Obrigada a todos. Afinal, todos têm mãe, tiveram e terão. Cada um com sua história. É uma sorte e uma felicidade ainda tê-la comigo. Meu tios Edson e Belinha não foram. Ele não estava se sentindo muito bem.

Mas a  festa foi um sucesso para o que poderia ser. Hoje foi dia de troca de presentes. Roupas apertadas ou roupas folgadas. Roupas frescas demais ou quentes demais No shopping, uma trabalheira. Para mim, que não tenho experiência em sair com o ‘carrinho’, a cadeira de rodas de minha mãe para longas caminhadas, não é fácil.

Mas para Márcia, a fiel escudeira, nada é problema. Ela mostra ao motorista do táxi como desmontar a cadeira para que caiba em qualquer mala de carro tirando-lhe as rodinhas com uma simples pressão dos dedos. Eu, plá, fico pasma com a facilidade que ela tem de não criar dificuldades e de se esgueirar em qualquer corredor de lojas cheias de cabides e elevadores, dirigindo o carrinho com minha mãe a bordo.

Não quis, não pude e não vou escrever palavras muito sentimentais sobre os anos de minha mãe por pura incompetência e temor de mergulhar nesse mundo, num mundo futuro, distante ou próximo, sei lá, sem mãe. Mesmo que ela não cuide mais de mim ou de meus irmãos, ela está lá, na casa dela, dia após dia, esperando sempre por nossa visita. E vida que seguirá assim até quando der. Um dia de cada vez.

Hoje não acordei muito bem. Tive um pesadelo que me deu a sensação de ter durado a noite inteira. E, ao contrário dos sonhos bons, aqueles que a gente não quer que acabem, acordava. E quando voltava a dormir, o pesadelo seguia de onde tinha parado, como uma novela bem amarrada, em capítulos. Os sonhos que mais me agoniam são aqueles em que me vejo sem conseguir retornar para o lugar confortável e seguro e que deixei com a intenção de ir ali e voltar já.

Eu não sei se sonhar com o rei dá leão, mas interpretar meus sonhos é uma habilidade que desenvolvi, tão claros e bandeirosos que são. Pior, é não saber como consertar o que o inconsciente aponta.

O único remédio para quando tenho pesadelos que me fazem mal por todo o dia seguinte é fingir que o dia não houve e inaugurar outro dia. Da festa de 91 anos de minha mãe trouxe uma boa ideia, caso algum sonho mal venha a me azucrinar esta noite, a de copiar Stella, minha sobrinha neta, prestes a fazer dois anos.

Ela tem tanta energia que parece possuir um motor de popa na popinha. Minha sobrinha, a mãe Stella, contou que no play ela corre, corre, corre. Cansada, joga-se na grama do jardim e põe-se a fitar uma árvore cantando alto: “folha grande, folha pequena, folha grande, folha pequena”. Para não ter pesadelo, é assim que vou dormir hoje. Imaginando-me sob uma árvore, olhando o teto.

Acabo de saber por minha mãe ao telefone que Tio Edson, aquele irmão caçula dela (que não foi à festa porque não estava se sentindo bem) faleceu dormindo esta noite. Na noite do meu pesadelo. Ele era o meu último tio, o predileto. Folha grande, folha pequena.

Ilustração: Pinterest

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