Eu e Drummond / Drummond e Eu


Sempre tive enorme vontade, necessidade de me comunicar. Num tempo onde só haviam cartas e telegramas, já pré-adolescente eu queria falar às pessoas de um mundo que não era o meu. Geralmente, escritores. Eles traziam vida à minha vida. Vida desconhecida, que me fazia despertar para outros mundos, experiências, vivências. Foi assim com a poesia, com best sellers, com Agatha Christie, com Bruna Lombardi e Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

Quando eu ainda tinha doze ou treze anos, descobri Leir Moraes. Ele escreveu um livro que me tocou muito_ Bola de Gude_ e eu, rápida no gatilho, mandei uma carta pra editora dele, dizendo-lhe o que seu livro me proporcionou, a emoção que eu senti. Sempre fui muito intensa e acho que isto era visível, principalmente através de papel e caneta. Se fosse digitalmente, eu teria de usar emoticons e emojis, que perda terrível foi essa…



Pois bem, escrevi pro Leir, que me respondeu !! Iniciamos uma correspondência literária e ele sempre me incentivava muito. Já devia ter seus 40 anos, casado, pai, e quando fiz 15 anos, muita gente foi à missa, realizada no colégio de padres onde estudava.  Meu pai estava desenganado, muito mal do coração e não fizemos festa. Na longa fila de cumprimentos, vejo um homem sorrir e brincar com o meu pai, que respondeu: “eu acho que vai sim!”. Era o Leir, com uma antologia organizada por ele chamada Escritores do Brasil, autografada, de presente pra mim. Nunca vou me esquecer disso e do livro, azul e verde que guardo até hoje. Abracei-o emocionadíssima, chorando, claro, e meu pai tinha razão: sim, eu o reconheci.

Depois, aos 16, ainda me correspondendo com ele e já amiga de sua família, recebo um jornal junto com a carta habitual. A página estava marcada. Sim, ele havia publicado uma crônica minha, que mandei pra ele cheia de pudores. A emoção de ver meu nome no jornal junto a algo que escrevi no escuro do meu quarto, foi algo indescritível !! Tanto, que até hoje não me aventuro a isso.

O tempo passou e no ano de 1985, minha avó materna estava internada num hospital e sabíamos que ela não sairia dali. Passei a dormir com ela quando voltava da PUC. Numa noite, li de uma vez “Amar se Aprende Amando”, de Carlos Drummond de Andrade. Gostei muito daquela leitura que me ajudou naquele momento. Escrevi uma carta. Esqueci.

Minha avó faleceu e mesmo assim a tradição dos almoços em família aos domingos na casa de meu avô italiano continuaram sagradas. A gente tinha de chegar às duas e meia da tarde. Nesse dia eu atrasei. Cheguei da praia e fui direto pro escaninho pegar a Folha de São Paulo, jornal que eu assinava na época, que não era deixada na porta, só lá em baixo. Quando puxei o jornal dobrado, veio o envelope, rígido, banco, virei pra ver o remetente: C.D.A., Rua Conselheiro Lafayette, Copacabana. C.D.A. ?!

Entrei no elevador, fui direto pra casa do meu avô, onde toda a família já estava sentada almoçando. Dei um oi do living e disse que precisava abrir uma carta. Quando abri, meu coração deu um pulo, acho que mais de incredulidade do que de carinho, naquele momento.

No cartão, grafado apenas como Carlos Drummond, havia a resposta do maior poeta brasileiro vivo !! Escrevendo isto, neste momento, volto a tremer ao reviver o momento. Aí eu dei um grito !! “Gente, o Drummond me escreveu !”, e ninguém entendeu absolutamente nada, afinal eu não contava pra ninguém desse meu hábito. Como o Drummond escreveu ?!

E além de responder, brindou-me com uma das mais belas mensagens que eu poderia receber de alguém.




“Querida Paola Bonelli

   sua linda carta, espontânea e cheia de generosidade intelectual, foi uma alegria pra mim, que acabo de voltar de uma casa de saúde. Ela me reconfortou, e me confirmou na mensagem de que há criaturas especiais, com o dom de vencer a distância física para criar a identificação espiritual.

    Muito obrigado pelas boas palavras. E o abraço comovido de 

                                                                               Carlos Drummond”


Depois disso, a correspondência se fez presente e até livros dele, eu recebi autografados. Alguns, eu até já tinha, como A Rosa do Povo. Outros, não. Mas o carinho daquele velhinho tão querido quanto frágil era o que importava. Eu sempre digo isto: o que importa é o gesto, não o presente. Não só na hora de presentear, mas em tudo na vida, o que fica é o gesto.



Além disso, ele também me deu uma entrevista por carta pro Jornal da PUC, trabalho que valia nota para a prova. Tive de mostrar a carta pra professora, claro. Quem iria acreditar ? Ele não recebia mais ninguém para entrevistas, assim como declinou quando pedi para encontrá-lo. Eu sabia que estava sendo demais, mas tinha de tentar. Analogia da carreira que havia abraçado e só começaria a excercer depois.

Drummond me rendeu muita alegria antes, durante e depois da carta que lhe enviei.

No dia de sua morte, estava vendo o Jornal Nacional tristíssima. Era 17 de agosto de 1987, e assim que Cid Moreira deu boa noite e os créditos subiram sem som, meu telefone tocou. Atendi. Era uma cara com quem eu saía eventualmente e que há muito eu não via. Ele ligou dizendo que viu, como todos, que o Drummond havia falecido e me chamou pra sair. Fiquei em dúvida. Depois, coloquei minhas lentes de contato azuis, e saí pra namorar !