Egon Schiele – Morte e Donzela

Atualizado: 12 de Out de 2018


Egon Schiele – Morte e Donzela ,do diretor Dieter Berner é o próximo lançamento da Cineart Filmes que estréia agora dia 19 de Julho e conta a vida deste pintor, contemporâneo de Klimt, e um dos grandes nomes do movimento expressionista austríaco. Aborda sua vida errante, a influência de suas inúmeras modelos e musas em sua obra, até a sua prematura e trágica morte em 1918, causada pela epidemia da gripe espanhola na Primeira Guerra Mundial que infelizmente não o permitiu vivenciar toda a glória e o esplendor de sua arte.


Ainda jovem, perde o pai que morre de sífilis e desde então passa a ter uma vida itinerante, ora em Viena, ora em pequenas cidades do interior, onde passa a morar sozinho com sua irmã mais nova Gerti, uma de suas primeiras musas. Vivem tanto da venda de seus desenhos, como das parcas economias que seu tutor o enviava.


Logo no início o filme talvez querendo mostrar o lado provocativo e controverso deste grande artista nos choca por fazer uma insinuação de uma relação quase incestuosa com sua irmã ou pelo menos algo que poderíamos dizer que seria muito fora dos padrões convencionais do amor e intimidade entre irmãos. Coisas que compreendiam desde um ciúmes doentio entre ambos até o estranho hábito de usá-la como modelo e pintá-la nua.


Sua vida libertina o faz se envolver com uma atriz negra de um prostíbulo, Moa Mandu e que por tempos passa a ser a musa da vez, o que provoca inúmeras brigas com sua irmã. Juntamente com elas e outros dois amigos artistas, passam a viver todos juntos e escandalizam a pacata cidade de Krumau. Nessa época surge o Neukunstgruppe “Grupo nova arte”, que rompia com o lado conservador da Academia de Viena.


Mais tarde essa tendência de chocar e contrariar a sociedade local e a mania de usar modelos menores de idade , o leva à prisão, acusado de ter sequestrado uma jovem de 14 anos, Tatjana von Mossig. Mesmo tendo sido inocentado , fica por um tempo detido, pois sua obra era considerada por demais erótica e pornográfica. Inclusive teve um de seus desenhos queimados pelo juiz em plena corte e centenas de obras apreendidas no período.



Talvez suas idéias revolucionárias o tenham feito se aproximar de Gustav Klimt, artista mais velho e experiente e bastante polêmico que era totalmente contra os dogmas moralistas da época e que certamente influenciou bastante sua obra. Por um tempo Klimt funcionou como uma espécie de mentor para Schiele, e o ajudava tanto comprando suas obras ou mesmo trocando pelas suas, além de financiar musas para o promissor pintor. Foi o responsável também por apresentar uma das modelos com quem depois Schiele vai viver uma tórrida relação, a musa Valerie Neuzil , ou simplesmente Wally.


“Morte e Donzela”, aliás, é o título de um dos seus quadros mais famosos e talvez mais belos , onde retrata a si mesmo e a Wally, pouco antes de abandoná-la em 1915 para servir na guerra e casar-se com Edith Harms.


Podemos dizer que o clímax do filme talvez esteja neste trecho em que pinta este famoso quadro que simboliza o próprio término e desfecho deste relacionamento e ao mesmo tempo mostra um lado egoísta, frio e contraditório de um artista preocupado em demasia consigo mesmo e com sua própria arte.


“A morte e a mulher”, 1915

Deixa em aberto o frágil envolvimento com a mulher que viria se casar, escolhida quase que aleatoriamente entre duas irmãs ricas, suas vizinhas na época.


Schiele esperando não ter que servir a pátria já que era um artista, é considerado apto e parte para os campos de guerra. Nesta época recebia visitas de sua atual esposa que não gostava de ser retratada daquela forma tão despudorada como ele sempre fez com suas musas anteriores. Em seu retorno participa de uma grande exposição em Viena que o projeta no cenário artístico, valorizando em muito suas obras. Porém não chega a usufruir deste sucesso , pois sua esposa Edith, grávida de seis meses contrai a gripe espanhola e vem a falecer e ele também morrerá em seguida desta mesma doença.


Por mais que de uma forma sutil o filme mostre a tormenta da perda do pai e até mesmo um ar por demais egocêntrico ao espelho, não aborda claramente o que isso representou e é tão marcante na obra deste pintor que foi a constante busca e entendimento da sexualidade e do sofrimento humano. Toda essa angústia que sentia e o atormentava o fazia retratar muito mais do que simplesmente corpos nus e um erotismo escrachado. Na verdade Schiele expressava em suas telas rostos amargurados, pessoas comuns , pobres, prostitutas e seus corpos distorcidos, meio disformes e até um tanto andróginos , tendo por muitas vezes também se auto retratado desta forma. Diferentemente do filme anterior produzido em 1981, “Egon Schiele – Excesso e Punição” do diretor Herbert Vesely que fez questão de mostrar um pintor constantemente aturdido em seus devaneios e alucinações, o novo longa apesar da belíssima fotografia de Carsten Thiele e a fiel representação de época, peca talvez por escolher ficar na superficialidade da narrativa histórica e não apresentar o lado mais enigmático da obra de Schiele.


Por Ula Pancetti.