Depois de nove meses, Marcel Proust vem `a Luz


Como todos, ou quase todos os seres humanos,  a escultura que Edgar fez de Marcel Proust levou nove meses de gestação, a partir da concepção da idéia, `a sua inauguração. Nove meses de comunicação vaga e demorada com as autoridades locais causavam ansiedade; nove meses de suspense.  E se os franceses na verdade não apreciassem esse tipo de escultura mais casual, com que as pessoas podem interagir? E se só gostassem da maneira tradicional de tornar o modelo esculpido um monumento sobre pedestal,  para ser olhado de baixo pra cima, fora do alcance direto dos espectadores? Eu repartia o questionamento de Edgar, pois, como falei, as perguntas que este fazia, levavam semanas e semanas para serem respondidas.

Devia se estar preparado pra qualquer tipo de recepção, mas, quem diria, o ressurgir de Proust em Cabourg/ Balbec, foi abençoado. Depois do caloroso discurso de Tristan Duval, prefeito atual de Cabourg, Gonzague Saint Bris, autoridade proustiana e escritor francês célebre, referiu-se `a  estátua como “magnifico trabalho”, confessando ja te-la visto e achado que  esta mostra  o caráter intimo, ao mesmo tempo que comunicativo, de Proust. Questionando como fora possível um dandy, que passara a maior parte da vida doente e acamado, despertar paixão no mundo inteiro, Gonzague  concluiu brilhantemente, que não foi por ter ele discorrido sobre assuntos gerais, mas sim por se reaproximar de si mesmo ilimitadamente (`a la folie) ressonando, então, tanto com os japoneses, quanto com os americanos, e outros tantos através do mundo; falando `as mais diversas pessoas. (Afinal, este proustiano reaproximar  de si mesmo busca o eu profundo, o que, ignorado pela maioria,  concerne a essência de cada um, prometida e procurada por meditações de todo tipo, psicologia transpessoal,  Junguiana, e New Age).

Com a típica ousadia da inteligência francesa, que tão bem harmoniza intimismo e objetividade, paixão e intelecto, M. Saint Bris passou da dimensão histórica, psicológica, e factual, para a do espírito:  Declarando ser a inauguração da estátua um momento de comunhão mundial, concluiu que Edgar, com seu antigo sobrenome francês, de uma família estabelecida no Brasil depois de várias gerações, havia sido escolhido “lá de cima” pelo próprio Proust, para fazer sua escultura e traze-la a Cabourg.

A  estátua, com efeito, tem vida,  não só pela sua elegante semelhança com Marcel Proust, mas por sua natureza interativa, com que os franceses imediatamente se familiarizaram, na maravilhosa e dinâmica possibilidade de se tornar íntimo, com ela.  A vida, na interação,  consiste na solicitação não somente da observação do espectador,  mas também da sua imersão no clima da obra, quer dizer, sua participação pessoal. Como na Contemplação Interativa,  estilo  contemporâneo na arte de instalação, o espectador contempla, ao mesmo tempo que a imersão de sua presença na obra se faz necessária para que esta se revele, tornando-o, também, sujeito.

Mais  adiante do que pura imersão na obra, a escultura de Proust dá ao espectador a chance de interagir com ela de modo pessoal: a possibilidade de recria-la.  Cada um tira um selfie na posição que quiser, ao seu lado, cada um se torna único, na particularidade de sua participação,  tornando a estátua igualmente única, no que dá de si.  Esta, na sua generosidade de tornar cada espectador também criador,  ressurge eternamente. Sendo criada e   recriando, ela expressa a essência dinâmica da vida. 


Acho que M. Saint Bris está certo, ao pensar que Proust escolheu Edgar Duvivier para ressuscitar sua imagem e expressão. Depois de vermos diversos tipos de selfies sendo tirados com a estátua, regressamos ao hotel já tarde da noite, e percebemos um casal se beijando apaixonadamente, ao lado dela. Efeito de Proust? Inspiração de sua paixão, e da que ele próprio desperta?… Certamente!