Comida plact-plact

Mais uma vez resistirei falar do que todo mundo está falando. Não porque queira ser  diferente. Apenas porque as coisas estão muito confusas – ou tão claras – que é impossível dizer alguma coisa; daqui a pouco, essa coisa já  pode ser outra coisa. Na verdade, quem hoje  pensa que sabe alguma coisa, sabe de coisa nenhuma. Li essa verdade  simplória  e complexa no Facebook.

Por falar em coisas simplórias, lembrei  de uma história a partir das novas e sofisticadas marmitas que invadiram o mercado, dando um chega pra lá nas antigas, de alumínio.  Aquelas que faziam um barulho inconfundível.

Eu era recepcionista numa agência de empregos, no tempo em que havia empregos. Universitária e dura, o melhor mesmo era levar comida de casa e almoçar de marmita, embora  odiasse  comida esquentada na lata. Quer dizer, eu odiava mesmo era o misto de cheiros impregnados das salas reservadas para o almoço dos empregados nos escritórios. Cheiro de ovo cozido, de feijão com macarrão, frango ensopado, couve-flor à milanesa e…banana, tangerina ou laranja. E tinha um  detalhe: eu sempre pedia à minha mãe que não amarrasse minha, hum, digamos, marmita com um pano de prato. Mas ela teimava.

Arrumei um namoradinho apenas para fazer ciúme àquele que me dera um pé. O que isso tem a ver com a marmita? Calma. Ele ia me buscar na porta do prédio em que eu trabalhava para que voltássemos juntos para casa, na zona Sul. De carro? Não. De ônibus. Além de pouco ajambrado, era  um duro. Mas, metido que só. Eu recusava sua oferta cavalheiresca de carregar a sacola de uma boutique da moda que eu, religiosamente, levava. Na terceira tentativa, perguntou se ali eu carregava a minha marmita. Claro que não, respondi ríspida para  ele, que devia, quando muito, comer sanduíche no almoço.

Na verdade, aquele namoro, sem nenhuma intimidade, assinale-se, durou nem bem um mês, porque vi que o rapaz não tinha nenhum verniz intelectual que me atraísse. Mas antes que eu desistisse, entramos no ônibus, como sempre, cheio. Enquanto eu me esforçava para manter minha bolsa em segurança, a sacola da butique a salvo e me segurava num banco, o motorista deu uma freada brusca. Refeitos do susto, viagem  que seguia, o namorado, aproveitando da proximidade física, sussurrou, irônico. – Por que você mente? Ouvi um barulho de marmita quando sua sacola bateu no encosto do banco.

A tola aqui não respondeu. Desci do ônibus um ponto antes, alegando a visita a uma tia. E nunca mais vi o tal namorado, que também não mais me procurou. Era uma relação realmente desapaixonada.

Morro de rir hoje com essa história repleta de preconceitos meus, quando leio e reconheço o quão saudável é levar comida de casa para o trabalho. E é o que fazem as celebridades e os pobres. Cada um por uma razão. Sorrio ao constatar como somos tolos quando somos jovens. E me lembro do conselho de Nelson Rodrigues aos teens; “Envelheçam”.  Hoje, descubro também porque minha mãe amarrava minha comida com um pano de prato. Naquele dia em que a lata me traiu, ela se esquecera de amortecer a marmita com um de seus panos bordados. Segui meu conselho e me revelou.

Fui e voltei no tempo. Que tempo esse…O que foi que aconteceu? Já se fabricam marmitas surdas e mudas.

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