“Bossa 60, passo a compasso” promove bate-papo com designers, no Espaço Cultural do BNDES

Para enriquecer ainda mais a exposição “Bossa 60, passo a compasso”, na galeria do Espaço Cultural do BNDES, o projeto traz para um bate-papo nesta sexta-feira, dia 24, às 18h, os designers Cesar G. Villela (capista da gravadora Elenco), Marcello Montore (professor da ESPM/SP) e Ruth Freihof (designer da exposição).

Cesar Villela e A Bossa Caligráfica, por Tárik de Souza

Pintor, cartunista, jornalista, programador visual e diretor de arte, o carioca Cesar Gomes Villela revolucionou as capas de disco no País. O primeiro reconhecimento oficial de seu trabalho autodidata, com passagens pela Rio Gráfica Editora, jornal O Globo e Standard Propaganda, foi um prêmio no I Salão Nacional de Capas de LPs, na ABI, no Rio, em 1958, pelo disco Bola 7 e 4 trombones, na gravadora Odeon.

Trabalhando na empresa com o produtor Aloysio de Oliveira e o futuro executivo do disco, André Midani, a trajetória de Villela ocorre em sincronia com a bossa nova, de cujo parto participou. Não por acaso, é seu o layout do disco inaugural do movimento, o LP Chega de Saudade, de João Gilberto, de 1959. E também de seus outros discos fundadores, O amor, o sorriso e a flor (1960) e João Gilberto (1961). Além de cruciais lançamentos de Sylvia Telles (Amor de gente moça, 1959), Sérgio Ricardo (Não gosto mais de mim, 1960; Depois do amor, 1961) e a estreia vocal da vedete Norma Bengell, Oooooh! Norma (1959), em que o “h” ergue-se sobre o ponto de exclamação e a artista está nua na foto.

Quando Aloysio de Oliveira deixou a Odeon e resolveu fundar o próprio selo, Elenco, em 1963, levou Villela. A concepção gráfica da nova etiqueta – com fotos em alto-contraste, amplos espaços em branco e quatro bolinhas em vermelho dispostas em equilíbrio, no design – afinava-se com a limpeza estética da bossa, que passava a régua em excessos orquestrais anteriores. No logotipo da Elenco, um spot de luz, incrustado na letra “n” do título, parecia aceso, por conta da cor contrastante empregada por Villela.

“Na cabala, li que o quatro simbolizava a harmonia, por isso incorporei as quatro bolinhas vermelhas”, rebobinou em entrevistas. Também foi importante uma lição do futurista canadense da comunicação Marshall McLuhan, que escreveu:O excesso de detalhes em uma imagem chama-se ruídos visuais.”

Nasceria um padrão gráfico, que na disputa das vitrines das lojas de discos chamava imediatamente a atenção para os suplementos do pequeno selo independente e atrevido. Antes de mudar-se para os Estados Unidos, em 1964, Cesar Villela imprimiu sua caligrafia cromática em álbuns indeléveis. Da estreia do poeta e letrista em dupla com a atriz, em Vinicius & Odette Lara, o desembarque incendiário da musa, Nara Leão, o tríptico de Sylvia Telles (Bossa, balanço e balada), também em dueto com Lucio Alves (Bossa session) e o conjunto de Roberto Menescal; este entronizado em outra capa (A nova bossa nova), onde o hobby de mergulhador do líder do grupo é ressaltado nas imagens emolduradas por peixes desenhados.

Ele também realçou os olhos tempestuosos da diva em Maysa, a densidade engajada de Sérgio Ricardo (Um sr. talento), o violão superlativo de Baden Powell (À vontade) e um estreante Tom Jobim (a edição brasileira de The composer of Desafinado plays), contracenando com partituras de sua maestria autoral. Bossa-novista do design, Cesar Villela transformou capas de discos em amplificadores da estética envelopada nos discos.

Foto: Cristina Granato