Benki, Alex Grey, e a Consciência Cósmica



Depois da segunda vez em que visitei Benki, na floresta, senti mais do que nunca o “mal-estar da civilização”, não nas linhas de Freud, mas no que se refere aos limites espirituais que o mundo civilizado impõe, e que vão bem mais além do que os da simples repressão. Pra mim, a historia da civilização é a historia do medo da dor. Assim como no Admirável Mundo Novo, famosa ficção de uma sociedade super adiantada tecnologicamente, em que tudo era programado para que a dor, ou qualquer tipo de sofrimento, não pudesse existir, o próprio imprevisto saiu de cena e, com ele, as emoçōes; o que propriamente se considera “vida”.


Fora da sátira, o que acontece, em menor grau, na realidade em que vivemos, é o isolamento das pessoas dentro de zonas de segurança/conforto, “safety zones”, que a vida artificial oferece, com os limites da propriedade privada, e a programação crescente dos seus gadgets, que não somente se prestam a controlar o dia de cada um, como a espionar o do próximo. Senti-me, depois da mencionada visita a Benki, encaixotada, ou dentro de alguma embalagem protetora , aqui nos Estados Unidos. O encaixotamento resulta do confinamento aos limites das linhas retas, anti naturais e calculadas, entre calçada e rua, casa de fulano e de cicrano, pista de mão e contra mão, gramados que mesmo sem cercas são proibidos. A embalagem “protetora” é a mediação do próprio artificio, entre a pessoa e o mundo, começando pelo ar que esta respira, seja por este “ter” que ser esquentado, tão logo desponta o outono, ou refrigerado – nem bem começa qualquer verão, por mais anêmico que este seja – ou simplesmente filtrado da sua humidade, da poeira, do polen, e mil coisas que podem causar alergias. A partir da artificialização do ar, há outros milhares de engodos para amaciar a existência física. Eu os adorava, e nem vou dizer que não gosto mais deles, mas não posso deixar, agora, de me questionar sobre o que geram de medo existencial, defesa, prisão, e egoísmo, no isolamento da “proteção” que garantem.


Alex Grey, o grande artista visionário, diz, de sua experiência com entheogens, que a civilização está num estágio egocêntrico, tendo quebrado a conexão que cada ser tem com todos os outros e com a criação, e, deste estágio, as plantas visionárias e o DMT, ao expandir a consciência além dos limites do ego, recuperam não só essa conexão, como, na consciência cósmica que tudo une, o sentido do sagrado. De acordo com ele, os entheogens podem levar a cultura atual a evoluir de uma estrutura egocêntrica, na expansão da consciência que, além dos limites do ego, não deixa de ser consciência de si, ao mesmo tempo que mais centrada no mundo, para que possamos extender nosso interesse e cuidado ao todo pelo que cada um de nós é responsável. Em poucas palavras, os entheogens recuperam o sentido do sagrado, mostrando, ou devolvendo, a indentificação transpessoal que temos com a criação.


Sempre tive essa esperança, ao tomar Ayahuasca com os índios, e ouvindo Benki, acho fascinante encontrar no que ele diz, mensagem semelhante a de Alex Grey, que é filho da civilização. Pergunto-me se os que conheceram Benki, e conviveram com ele, se sentiram em cheque, diante da autenticidade que ele tem ao viver de portas abertas pra quem precisa de si, a não dar valor aos limites financeiros e materiais entre os seus semelhantes, e ao haver se dedicado ao Shamanismo, seguindo sem medo, nessa busca, depois de ameaças de madereiros e traficantes de drogas por todos os lados. Pergunto-me se esse exemplo de humildade e fé, nos faz encarar o quanto somos comprometidos, no nosso próprio egoísmo, com a direção egocêntrica que Alex Grey mencionou, e o quanto esta promove a nossa própria auto-importância. Benki nos bota em cheque, não so por não nos dedicarmos `a vida espiritual, como ele, quanto por nos sentirmos “presas” de uma serie de condicionamentos e expectativas, na defensiva causada por uma existência em grande parte programada por controles remotos, pelo imediatismo dos processos digitais, e pelas máscaras que o artifício fornece. Nos bota em cheque, em poucas palavras, por não sermos o que deveríamos ser: nus de alma, desarmados, e confiantes no próximo. A maioria de nós sabe, por experiência própria, que com nossa atitude, tanto podemos trazer `a tona o pior, quanto o melhor, do nosso semelhante. Amor gera amor, ataque gera defesa, raiva multiplica raiva, e inspiração desperta fé. A realidade é uma constante interação de tudo, e só é fixa aparentemente. Até mesmo na física quântica, se observou a influencia da presença do cientista, sobre o objeto que examina.


Conheci alguém, Lucio Costa, tão desarmado e autentico quanto Benki. A equanimidade do amor que ele transmitia fazia as pessoas, na sua companhia, sentirem um alívio como que transcendente, de serem compreendidas incondicionalmente. Uma vez, ele fora assistir blocos de rua de um carnaval, com minha mãe, que vinha a ser sua prima, e quando os dois foram assaltados por homens que, na confusão, lhes surrupiaram as carteiras, Lucio lamentou que logo naquele dia, não tinha trazido mais dinheiro, de que os ladrōes pudessem se beneficiar.


Voltando a Benki, além da importância do que ele diz sobre Ayahuasca, no que esta recupera da nossa verdade essencial e cósmica, a coexistência com ele, no seu ambiente, aponta exatamente para o que Alex Grey considerou superação da cultura egocêntrica, e desperta em nós não somente questōes éticas, em relação aos nossos semelhantes, como metafísicas, no que diz respeito ao confinamento resultante do ambiente artificial “quebrar” a conexão de cada um, com tudo e com todos.


Fiquei contente, para concluir, ao saber recentemente que Benki ganhou the Equatorial Award da UNDP!


Nem todos querem continuar cegos!