Ayahuasca, a Reconciliação

Matéria NY-Times

Sem ir tão longe quanto Oscar Wilde, ao afirmar, “Patriotism is the virtue of the vicious”, eu diria que este é a virtude dos convencionais. Naturalmente, sempre considerei não só eu mesma, como cada indivíduo, um cidadão da humanidade.   Claro que esse ponto de vista é extremamente individualista, ao considerar rótulos, tudo que não seja a própria pessoa. Ser francês e falar francês, por exemplo, são rótulos que podem ser trocados, se a pessoa quiser mudar para o Canadá, para, virar “canadense” e falar “inglês”, e por aí afora.

Mas alem dessa indiferença a limites geográficos e culturais, eu ressentia o Brasil, na maioria das lembranças do que vivi la, como a adolescência alcoólatra, a anorexia quase fatal, segundo um medico, a neurose doméstica, enfim, tudo que começou com a juventude. Esse ressentimento obviamente me ajudou a vir morar aqui e continuar a viver como árvore transplantada. Mesmo assim,  lembrava meu lugar de origem com um espinho no coração, entre saudade e revolta. Até que pouco a pouco, em instantes de plenitude, Ayahuasca resgatou, pra mim, o tempo da relação primordial que se tem com o mundo antes da palavra; da “tradução” de outrem; do conhecimento do dever, e de toda essa mediação que enfraquece, distancia e finalmente quebra a comunhão original que temos com o que nos rodeia, na pureza da sensação e no imediatismo do sentimento , antes do imperdoável surgir da  racionalidade.

Ayahuasca retornou o tempo em que eu e o que me rodeava vivíamos num mesmo ser, como a praia de Copacabana, na época em que, diante dela, tive minha primeira morada neste mundo, quando   o mar, em frente a nosso apartamento, estava também dentro de nos. Numa cozinha que era imensa, pra mim, eu tinha meu lugar a uma pequena mesa, junto a meu irmão, na sua cadeirinha de bebê. Tudo era muito alto, numa constante mutação de branco, para azul, para a cor do vento, porque o vento soprou o mar pra nos, inundando tudo com o seu sussurro, misturado `a musica das ondas e ao o azul omnipresente do oceano. Texturas se interpenetravam, num movimento de cores que era ar marinho e elemento liquido ao mesmo tempo, frescura que vinha pra cozinha e exultar em nosso coração… Objetos e emoções, além de superfícies fixas e  rótulos de palavras, criavam a mesma intensidade alegre, que anulava os limites de cada coisa, transformando tudo na manifestação de algo maior. A cozinha era o mar dentro da cozinha, o mar la fora era nossa cozinha misturando-se nele, a brisa do mar era respiração do corpo e do céu, o azul das ondas e o branco da parede eram diálogos entre fora e dentro, dentro e fora.   Nosso lanche estava em cima da mesa, e a voz grossa do mar nos dizia pra comer, através da nossa mãe, que virava o rosto em outra direção pra poder fingir ser ele, voltando então a nos encarar e dizer, na sua própria voz, que o mar queria que ficássemos fortes, devíamos comer, o mar mandou…

Saber que era mamãe falando como o mar, não me impedia acreditar que era o mar que falava com a gente. Tudo podia ser tudo, na unidade que as criancinhas sentem em  sua ignorância da rigidez dos conceitos e seus limites. Cada vez que mamãe repetia o pedido do mar, era ele que eu ouvia, e era ela que eu amava tornando-se ele,   de novo e de novo. Esse entrelaçar de cores, seres, brisa e voz, na cozinha do meu primeiro lar, retornando a unicidade daquele momento, na experiência de uma essência comum ao som,  tato,  vista, ao fora e ao dentro, `a  mãe e o mar, ao coração e a vida.

Naquelas manhãs douradas, mamãe nos levava `a praia, nos banhava no mar, Edgar pequenino gritando e esperneando, e nos levava de volta `a nossa toalha naquela areia infinita, para voltar e mergulhar sozinha. Afastava-se, na direção de uma onda maior que tudo, e que distante parecia tão perto, no seu verde que não parava de crescer, aumentando dentro do nosso coração, espelhando o sol como  estrela liquida e viva, atraindo e assustando, esticando e encolhendo com o pique e curva da massa fluida no seio da qual brilhava,  coração pulsante e aniquilador; divindade pronta `a explodir e abençoar. Determinada, mamãe se aproximava do luminoso e imperativo coração de sal e luz, ficando mais e mais longe de nos, tão pequeninos na toalha rectangular, cuja precariedade, sob o comando materno que ali  esperássemos , se transformava, como uma bandeira, na afirmação de nosso território, sob o sol quente de Copacabana. O mar, o céu, a areia, a onda e seu coração, os passos de mamãe na sua direção… Tudo era imenso. Não em tamanho, algo relativo, que não podia fazer parte de um universo em que as coisas só são vistas com o coração, mas em significado. Aquela imensidão era o calor gostoso que arrepiava a minha pele, os pingos de agua salgada escorrendo do meu rosto e desaparecendo na toalha em que meu irmão ainda bebe estava deitado, em submissão e maravilhamento, tão redondo e macio perto de mim… Nos dois, um amontoado quase amorfo de curvas e formas molhadas no tecido quente que, naquele gigantesco espaço, continuava a ser nossa ancora na autoridade de nossa mãe; na entrega da inocência. A onda podia engolir ou retorna-la pra nós, mas ainda assim nossa confiança tudo abrangia. Agua salgada tinha gosto de ameaça e beleza, em minha boca. Aquele momento reproduziu-se em outra onda, invisível porém gigante, de alivio e felicidade.

Ayahuasca permitiu que minhas raizes se revelassem dentro de mim, na imensidão de praias atemporais de um mar sem fim, reconciliando-me, paradoxalmente  com o solo mais orgânico e particular de onde nasci. Embora sem patriotismo, senti orgulho de vir de um chão nacionalmente comum com a floresta do chá, e com as culturas nativas que o descobriram.   E também, do Brazil ainda ter índios, e dessa floresta conter cerca de 50% da biodiversidade mundial, tendo sido mostrado, em pesquisas recentes, que ela retira mais gás carbônico da atmosfera do que emite.

Contrastando com todos os escândalos de corrupção nacional, o país é literalmente fonte da maior pureza, no ar e no verde da sua floresta, e metaforicamente, na sabedoria shamanica dos índios.   Ayahuasca é reconciliação na esfera da vida pessoal, universal e cósmica, trazendo a consciência da conexão de cada um com a criação. A rede que tudo liga e irmana, muitas vezes me apareceu como sentido prateado e transparente entre todos os coraçōes. Enquanto reconciliação, Ayahuasca é Perdão.

Pensei que um dia esse Perdão se ramificaria através do mundo, remendando a cisão feia e pretenciosa entre os homens e o planeta; a divisão que dá, aos primeiros, a posição de exploradores, transformando o segundo em campo de depredação. Mas, enquanto nossos índios corajosamente levam a mensagem do sacramento da floresta a outros países, na paciência infinitamente humilde de mostrar a luz aos civilizados, quer dizer, ensinar aqueles que se consideram seus superiores, ha quem os mate por interesse material, em seu próprio território.

Com muita tristeza e revolta, venho vendo, mais e mais frequentes, noticias da “vista grossa” ao genocídio de índios, e do desmatamento  da floresta, com a sanção do governo brasileiro. O aumento da concentração de gás carbônico, contribuindo para o efeito estufa, resulta também da substituição de áreas florestais por pastos de agropecuária e construção de barragens, dando ao Brasil quarto lugar entre os maiores emissores de gases que causam esse problema.

Parece que não contentes em ser noticia internacional pelos roubos e escândalos políticos, brasileiros ainda correm para dar, em seu próprio país, o golpe de misericórdia: a destruição da própria inocência. Pois o Brasil tem, nas culturas indígenas, a inocência em estado “puro”: a vida, independente de direitos burocráticos de posse, a vida “sem lenço e sem documento”, pois que nascida da espontânea interação dos nativos com a terra e a agua, ao invés da conquista e  opressão, sempre presentes na origem das naçōes formadas pela civilização. Mas despreza-se, entretanto, os nativos, a sua sabedoria  shamanica imemorial, e o potencial poder de cura da própria floresta, tripudiando suas mais genuínas raizes, para igualar-se, no pretexto de busca pelo progresso, ao lado negro da civilização: `a ganância pelo dinheiro.

Acorda, Brasil! Será que mesmo diante das calamidades ecológicas resultantes do reverenciado “progresso”, não da pra tentar rumos diferentes? Quando se poderá ver que, mesmo sem dinheiro, é mais rico o território que contem metade da biodiversidade do mundo, e a possibilidade mágica , para não dizer, transcendente, de salvação?

Pois, Ayahuasca transcende. Já ouvi céticos dizer, depois de experimentar o chá, `a maneira da expressão, “Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay”, “Não acredito no sobre natural, mas que ele existe, existe!”

O Brasil será campeão se, ao invés de participar da corrida apocalíptica, construindo represas, ou de se afirmar com  futibol e  carnaval, promover e proteger a unicidade milagrosa do seu próprio solo.

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