Ayahuasca; a Essencia


Em instantes de plenitude, Ayahuasca desenterrou, para mim, memórias do mundo antes da palavra, quando eu ainda vivia na pureza da sensação e no imediatismo do sentimento; quando, em mim, a capacidade de julgar ainda não tinha espichado a sua cabeça imperdoável. Me trouxe de volta a inocência de um paraíso, cujos horizontes se misturam com os da imaginação, e cujo céu vai tão longe quanto a profundidade de nosso coração. Como todo aquele azul, sobre meus olhos, quando aprendi a boiar, nos braços de meu pai; a deixar a água da piscina se tornar berço sob meu pequeno corpo.

Papai tinha um jeito especial com a natureza, uma admiração quase religiosa pela vida espontânea e irracional. Parecia capaz de sentir nela a existência de uma sabedoria redentora, bem além da necessidade de sobreviver. Eu era pouco mais que um bebe, quando ele me ensinou a “deixar rolar”, quer dizer, a me botar humilde e por inteiro, diante do que está alem de mim, como a mágica de flutuar perto da cachoeira que abastecia aquela superfície em forma de meia-lua, líquida e acolhedora, descanso das folhas que caiam do bosque ao redor, que era a piscina de nossa casa nas montanhas. O céu ensolarado brilhava através da brancura da água que descia no meio da rocha a meu lado, como, `a sua direita e esquerda, o verde fosforescente dos pinheiros que subiam até o pico.

A imagem da água que jorrava, e que ao mesmo tempo eu, da piscina, via ascender com as árvores rumo ao céu,  recorre para mim com uma onda de alivio, é um dos templos que a vida construiu em meu coração e que, quando menos espero, me inunda com a sensação de retorno e redescoberta,  como uma oração.   Deitada na água fria, com as pernas e braços submersos pela metade, eu contava com o apoio das mãos de papai sob minhas costas, e ele me aconselhou relaxar, para que a água me suportasse. Acreditei nele mais do que no apoio de suas mãos, que devagar se retiraram, deixando que a água, e minha confiança, fizessem seu trabalho, transformando a maciez do elemento liquido em chão firme para o meu corpo, reflexo do meu abandono.

A natureza, para papai, não era somente um chamado físico, mas a inspiração de uma confiança irracional, que lhe permitiu  saber quando retirar as mãos que me apoiavam; quando sair de cena, para que eu pudesse deixá-lo, e me deixar. A despeito do determinismo biológico em que acreditava, papai transmitia, a despeito de si mesmo, a existência de algo mais na criação natural; um sussurro da transparência das águas, uma silenciosa canção de ninar nos elementos e no fluir da vida, para aqueles capazes de ouvir a voz do silencio; reunir-se com a inocência que nenhum convencionalismo pode manchar, nenhuma lei domar, e nenhum verbo limitar.

Entre muitas revelaçōes, o chá sagrado da Amazonia acordou em mim o laço primordial que temos com o mundo antes da palavra; do juízo de outrem; do conhecimento do dever, e de toda a carapaça mental que enfraquece, distancia, e finalmente quebra a comunhão original com o que nos rodeia.

Ayahuasca trouxe de volta o tempo em que eu vivia um mesmo ser com o que me rodeava, como a praia de Copacabana, em frente da qual ficava o meu primeiro lar, e com a beleza das terras que vovô tinha por toda parte. Aqueles dias eram permeados pelo cheiro das folhas de laranjeiras de um pomar, pela grandeza da cachoeira ao lado da qual aprendi a boiar, e pela presença do mar, em frente `a nossa janela.

Sentir-se rico tinha muito menos a ver com o poder de comprar objetos  novos, ou com acesso ao conforto – minha família chegava a ser frugal- do que com a sensação do ilimitado no chão que pisávamos, ou nas distancias que contemplávamos. Era uma sensação de pertencer, ao invés de possuir, ser acolhido, ao invés de poder controlar. Infinitude, ao invés de opulência, dava forma ao nosso universo. Nada era medido, contado, ou delimitado por linhas e números.

Ayahuasca me tornou consciente de que eu não só vivi essa realidade, mas me identifiquei, em essência, com ela. Me fez realizar ter vivido uma comunhão, cujo selo ficou impresso pra sempre em minha alma, da distância de um tempo vedado ao pensamento que relativiza, compara, delimita, e que vem, eventualmente, moldar a nossa visão da realidade.

Quando ainda em meu primeiro lar neste mundo, o mar diante de nosso apartamento estava também dentro de mim. Comia com meu irmão, pouco mais que um bebê, numa cozinha que me parecia gigante, e tudo era muito alto, em constante mutação do branco, para o azul, para a cor do vento, pois o vento soprava o mar pra dentro, inundando tudo com o seu sussurro, misturando-se `a musica das ondas e a um azul omnipresente. Texturas se entremeavam, num movimento de cores que era ar marítimo e elemento líquido; frescura entrando na cozinha, e enlevo no coração. Coisas e emoçōes, além de superfícies fixas e rótulos de palavras, formavam uma única intensidade de luz, obliterando os limites de cada ser particular, transformando tudo na manifestação de algo maior. A cozinha era o mar dentro da cozinha, o mar la fora era a cozinha misturando-se com ele, a brisa salgada era o ar que tudo respirava, o azul das ondas e o branco das paredes formavam diálogos entre o dentro e o fora, transformando-se um no outro.

Nosso lanche, ignorado por nós, fez a voz profunda do mar nos dizer para comer, através de mamãe, que virava o rosto para que não a víssemos falar, e voltava a nos olhar para dizer, em sua voz normal, que o mar queria que ficássemos fortes, que devíamos comer o que estava na mesa, o mar queria, e mesmo eu sabendo ser ela que falava por ele,  acreditava que ele nos havia  falado.

Sem a opressão de limites, qualquer coisa podia ser outra coisa, porque qualquer coisa era tudo; a completude que só as criancinhas sentem, ainda poupadas da rigidez de conceitos; da própria compreensão racional. Cada vez que mamãe repetia o pedido do mar, era ele quem eu realmente ouvia, e era ela que eu amava sendo ele, de novo e de novo…

A lembrança viva daquele momento, do irmanar de cores, brisa,  e voz, na cozinha do meu primeiro lar, é outro retorno a mim mesma; `a vivência  de uma essência comum entre som, tato, vista,  o dentro e o fora, a mãe e o mar, o coração e a vida.

Tudo que fôra origem tinha sido esquecido, e só o período doloroso, que começou com o acordar da racionalidade, ficara em mim; o tempo de um sofrimento  intenso o suficiente para me dar a força necessária de eventualmente sobreviver, como árvore transplantada, em outro país.