AS SEREIAS DE COPACABANA


Tem dias que eu gostaria de levantar-me, ir-me embora para minha casa, a algumas quadras daqui. Lavar-me dessa maresia pegajosa e verde. Encontrar minha estante, minhas coisicas, meu elefante de pano e orelhas pensas e retomar minhas manias de velho.

Mas me condenaram a mim, em ferro e imagem, a ficar aqui, eternamente, pernas cruzadas, meio de banda, um livro no regaço, sentado sobre um verso escrito não lembro como, mas lembro o porquê. Sem me perguntarem se tenho ardência nas juntas, se me dói a cervical ou a cabeça. Sou um homem frágil e de bronze. Um homem de costas para o mar. Sozinho na cidade.

E a friagem? Mineiros adoram mar. Mas à noite, bate esse vento nas costas – e eu não tenho pulmões de aço. No inverno, nem a bruma de Itabira me fazia tremer tanto. De vez em quando, um homem do povo vem e me cobre com uma manta imunda de histórias ora assustadoras, ora de ninar e dorme encolhido ao meu lado. Diz coisas desconexas, às vezes. Estaria bêbado de vida, entre a espuma de uma onda e outra? O mar de Copacabana quebra versos dispersos na areia e não me deixa adormecer de todo. Versos meus, versos que jamais escrevi, cantos, quem sabe, de sereias. Mas não posso rodar sobre o meu eixo, se é que tive algum, para ver se são elas mesmo.

Há no ar um canto quase enlouquecedor, que me faz lembrar o tormento de Ulisses com essas criaturas raras. Não tenho mastro em que me agarrar. Estou solto e plantado neste banco. Quero ir e caminhar entre os automóveis, olhar de outro ângulo coisas e gentes, olhar a praia. Como temi esse tempo: ser condenado ao eterno. Por culpa de meus versos quebrados fiquei moderno.

E me espantam quantos flashes me cegam momentaneamente, mais que o sol, e revelam as provas de carinho que recebo ao ser mais um em tantas fotografias. Fazem fila de chamar a atenção, sentam-se em meu colo, me beijam, me babam, me olham com frieza, como convém a um desconhecido numa cidade grande. Fitam-me com amor e desconfiança, como se eu fosse retribuir suas gentilezas e espantos com versos escandidos.

Muitos só me viram no folheto de viagem. Alguns se emocionam de verdade. Reverenciam-me. Eu também choro com minha cara de estátua e retinas plúmbeas. Essa cidade-soneto também gosta de versos brancos, de rima, de prosa.

Saibam poetas, confrades, que crianças declamam diante de mim algumas de minhas estrofes. De cor. Fico envergonhado, sempre fiquei. Creditam sua prematura tagarelice literária aos pais, professores e à sua curiosidade de saber que alma habitaria essa estátua sentada. Aposto nesta. Nem gosto tanto de meus versos. Mas são minha cachaça. Sinto pudor em estar exposto assim. Mas agora é tarde para desescrever.

Por esta calçada passam, acredite, bois solitários, moças bonitas, meninas e velhos, como eu. A uma paradinha se me olham, tento retribuir, dizer palavra, como raramente eu fazia àqueles que me encontravam na Avenida Rio Branco, atravessando o sinal apressada e propositalmente, calçada à calçada, como se estivesse me salvando.

Mas os que passam não percebem sentimento algum, porque meu rosto é máscara. Não veem que estou sorrindo, que hoje, tardiamente, sou mais tolerante com este vasto mundo.

Há vantagens em estar aqui. Pelo menos, não definharei mais do que já conseguira o tempo. Em lugar da pele flácida, da boca melancólica em forma de lua minguante e olhos opacos está um corpo sem cicatriz. Muito raramente, uma pasta rosa me dá um lustro e me tira o limo encruado nas dobras da camisa, nas rugas das mãos, como brotoejas em um pequeno infante.

Aqui, imóvel, vejo os dias fluindo, fogos espoucarem no fim dos anos e uma multidão deslumbrada enviar ao céu toneladas de desejos que se morrem no mar. O último dia do ano não é o último dia do tempo, balbucio. Mas isso não sensibiliza os mais crédulos.

E na impossibilidade de pular sete ondas e fazer um pedido à rainha das águas, eu, homem incrédulo, fiz uma promessa ao mar, esse mesmo sobre o qual a cidade estava escrita. Mas nada posso contar, que quereres se guardam como segredos.

Outro ano começa e as chuvas de verão castigam o que chamam de mim. Sabiam que tenho rinite? Não que eu despreze diariamente a idéia de me botarem aqui no banco de costas para o mar. Se pelo menos pudesse olhar os navios, o infinito e as cores da aurora. No entanto, perscruto-os. Sei de amigos, estes sim talentosíssimos, na mesma situação que eu em outros cantos da cidade. Sem maresia nem derivativos. Mas ninguém, plantado talvez em um lugar tão privilegiado a despeito de meus queixumes. Sou o homem sentado na calçada mais bonita do mundo. E nem aqui nasci. Sabia de antigas fazendas e de pétreas montanhas. Reconheço a honra que me dão. Poderia esta cidade amar o perdido mais que isso?

(Algo eu posso dizer.) Meu segredo vem, sim, do mar. E me foi sussurrado pelas sereias. Lembro Bandeira nos versos de ‘O Rei e suas filhas’. Mesmo sem poder virar-me, sei que elas chegam ali por trás das pedras do Marimbás e me chamam com seus cânticos dóceis, regidos pelo sopro da noite. E sussurram: temos um plano, um plano, um plano. De costas, demonstro minha esperança como forma de aquiescer. E elas se vão barulhentas.

Preciso discernir se sonho, se as ouço de verdade, ou se está nascendo em mim apenas um poema. Nessa orgia onírica a que me entrego em entressonos, elas vêm se juntar aos elementais urbanos que falam comigo, estes a quem nada tenho a oferecer além de um ombro gelado e de um olhar fixo, mas, creiam, de inabalável solidariedade às suas naturezas sem forma. Licença, vossa família evém chegando.

O sol nascia no Leme e uma pequena multidão cercava o banco do poeta. Polícia, peritos, repórteres, aposentados mal despertos, prostitutas em sua náusea matinal, todos falando em seus telefones que filmam.

Um rapaz que corria no calçadão pouco antes do amanhecer repetia ter visto o poeta de bronze levantar-se, dar meia-volta, contemplar o infinito e após espreguiçar-se, como se alongasse os sentimentos, caminhar até a beira do mar. Na linha da espuma teria sumido junto a mulheres mal delineadas pela luz difusa da madrugada.

Ansiosas e rápidas, ininteligíveis, envolveram o seu corpo entre os seios, a cabeleira e um furta-cor de escamas e submergiram, todos, no azul-marinho das ondas para além da arrebentação. No banco de pedra do Posto Seis, a marca úmida da ausência do poeta libertado por criaturas que – juram alguns – aparecem no mar de Copacabana. A polícia não acredita em sereias. E, parece, não saberá decifrar tão claro enigma.

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