A Transgressão da Inocência


Quando ele entra correndo no meu quarto, na euforia esfuziante da  confiança plena, deixo tudo que estou fazendo- seja escrever um texto introspectivo, seja passar mecanicamente o aspirador no tapete- como que diante de uma revelação.

Passei momentos difíceis em Barcelona, com saudades dele. Embora meu marido, que bem me conhece, confessou me achar maluca o suficiente pra chegar ao ponto de cancelar a viagem por causa “dele”, ficou chocado quando sugeri voltarmos mais cedo pra casa, para que eu pudesse reencontra-lo logo. A cidade da religiosidade encantada de Gaudi, das obras mágicas de Picasso, e de tanto mais a oferecer, não me aliviava a sensação de ter me traído, por me afastar do “nosso” cachorrinho. Na verdade, ele pertence `a Olivia, nossa filha, que mora numa ala auto-suficiente da casa, contígua a nossa. Quando, de manhã, ela abre sua porta de comunicação, e logo o animalzinho, a quem deu o nome de Bowie, a precede galopando no corredor, suas patinhas macias se sucedendo, no ritmo do impulso delicado, como o do som de uma cascata aveludada, sinto ouvir a anunciação da alegria; o próprio renascer do que até então fôra um mundo sério, auto-importante, e destruidor.

Bowie é da mesma raça da cachorrinha do filme A Dama e o Vagabundo. Tem orelhas compridas de pelo longo, que ao se extender, forma cachinhos, como se ele tivesse ido ao cabelereiro. Tem também, os mesmos olhos sonhadores da Dama, o mesmo perfil e forma da boca, cuja linha cai, antes de subir nas extremidades, de modo que, olhado de frente, ele parece triste, enquanto que de perfil, é eterno sorriso. Assisti o filme de novo por causa dele, e percebi que outra característica irresistível de sua raça é o jeito como, ao encontrar algum de nós, eles pedem carinho, antes de qualquer coisa, e da maneira mais confiante. Ao invés de pular em cima da gente, logo se deitam de costas no chão, e apresentam a barriguinha.

Antes de viajar, andava pensando como sou sortuda de poder curtir um cachorrinho, sem precisar ser a responsável pelo seu treino, idas ao veterinário (embora ja o tenha levado a um deles) ou attender suas necessidades básicas, a não ser quando Olivia esta na faculdade. Ele cresce e muda, bem mais rápido do que um filhote de gente. Como que eu, sabendo disso, pude me afastar, nessa fase tão adorável da sua infância?

Mesmo que so fossemos ficar duas semanas longe, doía pensar que quando voltássemos, Bowie poderia estar irreconhecível. Maravilhada com o fato de tanta inteligência, amor, e até ironia, caber dentro de uma cabecinha tão pequena como a dele, assim como a diversidade de sentimentos, que também expressam o que ele quer de nós, se manifestar com tanta intensidade nos seus olhinhos redondos, eu não queria perder nenhuma etapa desse desenvolvimento.

Posso curtir o amor borbulhante que ele tem, a comunicação incrível que essa “criancinha” animal desenvolve com a gente a cada dia, e corresponder, sentindo, na união do mistério da sua inteligência, com o milagre do seu amor, a resposta do universo a todas as perguntas. Pois, se muitos pensam que a boa relação dos cachorros com os humanos resulta do puro instinto de sobrevivência, quer dizer, do fato de eles serem dependents de nós, deveriam notar que a alegria de um cachorrinho, na sua inocência, e independência de causa específica, expressa a entrega da confiança incondicional: A realidade é o que é, mas ele ainda brinca no paraíso. Por isso, participando dessa inocência que, tornando-o tão desarmado, é transgressão ao mundo em que se deve lutar, a gente experimenta a absoluta liberdade, que começa por nos tornar livres de nós mesmos.