A MASCARADA DO ZÉ QUIETINHO


(Escrevo na quarta-feira, dia 2 de agosto, vendo na TV a votação da denúncia contra Michel Temer. Estou cansada, nauseada com tantas desculpas e mentiras dos políticos brasileiros. Pobre país. Aprenda a votar, Brasil. Preciso urgentemente fugir para um território de amor. Descobri esse pedaço de terra em meu baú.)

Uma das mais belas canções da parceria Zé Kéti-Elton Medeiros é  também uma bela história de amor na vida real. “Mascarada” foi gravada, além de outros intérpretes, pelo próprio Zé Kéti, o autor da letra, e por Jair Rodrigues. Na voz desses dois, fica perfeita. Em dúvida, procurar na internet, nos sebos ou, quem sabe, em seus próprios alfarrábios.

A letra de “Mascarada” é um relato poético, mas quase jornalístico devido ao seu traço documental, de um encontro em alguns Carnavais de um homem e uma mulher que insistia em se esconder atrás de uma máscara.

Parece invenção de poeta, não é?  Não, não é. É que se coisas geniais acontecem com poetas, viram poesia e se a poesia encontra uma bela música, vira “Mascarada” dos cariocas e portelenses Zé e Elton. É um daqueles casos em que a gente se pergunta, torcendo para que seja verdade: será que isso tudo aconteceu mesmo?

A história da mascarada não é lá uma novidade, mas vale a pena ser recontada. Nessa história de amor, o homem e a mulher só se encontravam nos Carnavais. Mas a misteriosa nunca tirava a sua máscara nem quando a coisa esquentava entre os dois. E esquentava mesmo. Até que ao final do terceiro Carnaval consecutivo, o homem finalmente conheceu o “lindo olhar” da mascarada.

A história é real. O homem era Zé Keti e a mascarada, mesmo tendo, enfim, mostrado os olhos permaneceu uma incógnita. Dizem que a mulher misteriosa foi quem inspirou também a marcha-rancho “Máscara Negra”, do mesmo Zé Keti, que fez um megasucesso no Carnaval de 1967 e virou clássico. Dalva de Oliveira também gravou.

Consta que  depois daquele Carnaval, o compositor e a mulher tiveram um rápido affair , às claras, e que ele chegou a apresentá-la, a Elton Medeiros como sendo a musa,  “ a mascarada”. Mas o namoro, a olhos nus, não vingou.  Foi tão rápido que foi impossível trocar palavra com a inspiradora do parceiro.

Quem revelou os detalhes de como nasceram os versos da canção, classificando-a como “um samba que não é samba nem é bossa-nova”, foi  o próprio Elton Medeiros em entrevista. Elton contou que entregou a música pronta para Zé Keti que a devolveu letrada.  Segundo Elton Medeiros, Zé Kéti garantiu que a história aconteceu e que o romance estava ali, todo contado na letra.

O compositor e cantor, que morreu em 1999, aos 78 anos, nasceu José Flores de Jesus no subúrbio de Inhaúma, no Rio.  Por sua timidez, era chamado quando menino de Zé Quieto ou de Zé Quietinho. Talvez por isso, o autor de clássicos que falavam do samba, dos malandros, das favelas – como A Voz do Morro, Opinião, Acender as Velas, Diz que Fui por Aí, Nega Dina  e outros – não resistisse ao fetiche de uma máscara.

Ainda sobre essa história, consta que Zé Kéti conheceu esse amor de Carnaval no famoso ‘Bloco das Piranhas’, em que homens desfilavam vestidos de mulheres. E que, apesar da timidez, Zé Quietinho, o poeta, era um sedutor que conseguiu conquistar uma das poucas mulheres de verdade que se misturavam à turba.

Mascarada, música de Zé Kéti e Elton Medeiros

“Vejo agora este teu lindo olhar/Olhar que eu sonhei/E sonhei conquistar/E que um dia afinal conquistei/Enfim, findou-se o Carnaval/E só nos Carnavais, encontrava-te sem encontrar esse seu lindo olhar/Por que o poeta era eu/Cujas rimas eram compostas na esperança de que/ Tirasses essa máscara que tanto me fez mal/Mal que findou só depois do Carnaval.”

Foto:Pinterest