A BILHETEIRA DO JOIA


Um dia de semana qualquer, à tarde. Assistir a um filme no Cine Joia, a tradicional microssala de projeção de Copacabana, é como entrar em outro filme. A primeira sensação é de fazer parte de uma tribo heterogênea, de intelectuais em busca da fita perdida, aposentadas com ar de que não sabem o que vão ver, jovens cinéfilos solitários que parecem estar na antessala da obra essencial e frequentadores raros, como eu. Essa mistura faz você sentir-se prestes a carimbar  a vesperal  como uma inesquecível experiência artística.

Na verdade, eu estava  ali  aproveitando para cumprir uma promessa feita a mim mesma de passar a frequentar mais o Joia. Não lembrava a última vez em que lá estivera, muito antes de o cinema, criado em 1969, fechar em 2005. Até sua reabertura, seis anos depois, Copacabana virou um subúrbio à beira-mar e a galeria do Joia, onde jorrava uma cascata barulhenta e com cheiro de cloro, deu adeus às lojinhas interessantes que abrigava.

O Joia renasceu em sua simplicidade, sem vergonha de ser analógico num mundo dolby com trocentas caixas de som. O preço do bilhete é franciscano e se for meia-entrada, é franciscano e meio. Com tamanha economia, vem logo à mente um combo pipoca/coca-cola a preço módico. Aí descobre-se que a bilheteira do cinema é a mesma que opera a pequena máquina de pipoca e de refrigerantes. Ou a que se contorce para pegar o drops ou similar, já que drops não existem mais.

E se desespera moderadamente para se virar em trocos. A moça, moderninha desde o corte de cabelo até as tatuagens que exibe, pede calma à fila pequena que toma forma, como qualquer bilheteira pediria, se tivesse que vender ingressos e passar trocos, escolher as guloseimas pedidas e dar informações pelo pela fresta do vidro.

O Joia só exibe filmes ditos de arte. Um a cada sessão. Portanto, não adianta olhar para a cara dos que estão saindo da sala à procura de impressões. Finda a fila,  a bilheteira pergunta se mais alguém vai assistir àquela sessão e fecha seu balcão para sumir atrás da cortina que, rap, rap, ela fecha com intimidade. Não há sala de espera e do lado de fora da galeria, os quase 20 espectadores  não disputam um dos 87 lugares.

A bilheteira surge e, rap, rap, abre a cortina. A tela é pequena, quase do tamanho de uma  super TV de led que a gente vê nos shoppings. Penso que vai ser uma experiência nostálgica, como  era curtir um cineminha na casa de alguém. À meia luz, percebo que dois pequenos banheiros, masculino e feminino, estão no fundo do espaço retangular.

A bilheitera entra e, rap, rap, rap, fechas as cortinas. Rapidamente faz uma checagem nos banheiros. E a moça tatuada, de saia longa e coturnos, some atrás da tela para reaparecer. Aciona um interruptor e a luz se apaga. O espetáculo vai começar. Sem gongos. Não sei ao certo qual filme verei, porque acabei no Joia atendendo a uma amiga que queria companhia e que na última hora acabou atropelada por um cliente extra.

Mas com a certeza de que o filme era bom, se não não estaria no Joia, parei  de bisbilhotar o trabalho da multitarefeira. não sem antes pensar na mais-valia ou na praticidade atual de fazer um cinema funcionar com  mão de obra única. Com a firmeza de que não colocou o filme errado no cinematógrafo, a bilheteira,  rap, rap, fecha a cortina e volta ao seu posto.

Não lembro o título do filme e será difícil resgatar-lhe o nome. Mas lembro da boa história e do bom desempenho dos atores alemães embrenhados em Nova York atrás de uma cantora de ópera. No final da sessão, a bilheteira irrompe a sala, rap, rap, abrindo as cortinas, acendendo a luz e voltando para o pequeno balcão dando tratos à fila da sessão seguinte. Depois, ela vai inspecionar os banheiros, trocar o filme do projetor, apagar a luz e rap, rap na cortina.

Da memória recente, de quem foi ao cinema e acidentalmente assistiu a um bom filme, sobe um cheiro irresistível de pipoca e reverbera o barulho de celofane amassado, talvez um papel de bala.

Foto: tela de Edward Hopper