A arte "Em Carne Viva" de Osvaldo Carvalho no Estúdio Dezenove

Osvaldo Carvalho expõe sua série "Em Carne Viva", no Estúdio Dezenove, em Santa Teresa, até o próximo dia 30. A coordenação da mostra é de Julio Castro.

Obra de série "Holocausto", de Osvaldo Carvalho.

Em Carne Viva


Ainda como legado de questões que ecoam de sua última exposição individual, Terra Prometida*, esse novo projeto, "Em Carne Viva", expõe relações/fluxos imagéticos que, menos que entender ou procurar explicar suas relações, dialogam simbolicamente com a (precária?) percepção do outro em que os absurdos (materiais e carnais) se acumulam e que são negligenciados na vida real, mas valorizados e manipulados no mundo virtual.

"(P)ódio", obra de Osvaldo Carvalho.

Por conseguinte, a pergunta: basta a arte apresentar essas imagens? (e um diálogo se constituirá?) Ou basta à arte apresentar essas imagens?

Sim, os pesadelos ainda estão lá, à espreita. Como um filme que se desenrola, uma segunda pele é exposta.

Peça da série "Holocausto", de Osvaldo Carvalho.

A exposição desses trabalhos é resultado de camadas mais e mais profundas que têm suas origens em repertórios sutis angariados em navegações noturnas, sob céus encobertos, nas nuvens. O mergulho exploratório encontra pseudotesouros, especiarias perturbadoras, carcaças ideológicas naufragadas que insistem em permanecer em riste na mais obscura memória.


E as águas passam turvas diante dos olhos semiabertos do artista, que deixa à mostra horrores que nos espreitam, que queremos ignorar, para os quais encontramos desculpas intelectualmente elaboradas e vamos nos recolher na utopia de nossas boas intenções. O inferno é o pêndulo que diz “não” sem cessar.

Obra de série "Holocausto".

Osvaldo Carvalho é um desses provocadores do conforto visual, em que o belo é embaçado pela arguição direta de uma camada sem espessura, fina e cortante, de tinta especular, que reluz e é ouro para olhos tolos que ainda não aprenderam a enxergar.


Suas linhas cruas em desenhos vívidos reiteram sua vocação pelo essencial e são correspondidas pelos recortes em tecido que revelam corpos abstratos, inidentificáveis senão pelo gesto, o mesmo que nos corrompe a moral, a ética, o bom senso, retratos de um país em fuga de seu futuro que se pretendeu grandioso, mas que restou obscuro.


*Terra Prometida, nome da exposição realizada pelo artista de março a maio de 2018 no Paço Imperial, Rio de Janeiro, com curadoria de Marisa Flórido Cesar.


O Estúdio Dezenove fica na Travessa do Oriente 16A.


Fotos: divulgação