Últimos dias de Pedro Varela e da coletiva "Crash" na Zipper Galeria

Estes são os últimos dias para visitar a individual "Autofágico", de Pedro Varela, e a coletiva "Crash", que se encerram no próximo sábado, dia 27, na Zipper Galeria, em São Paulo.

A representação do imaginário tropical – ou daquilo que se constituiu como discurso dominante em relação aos trópicos – tem sido o principal objeto de investigação de Pedro Varela. Se, em séries anteriores, o artista tratou do tema a partir da monocromia e de uma certa frieza, nas pinturas reunidas em sua exposição na Zipper predomina uma exuberante paleta de cores, muitas vezes dissonante e contrastante. "Autofágico", com curadoria de Marcelo Campos, é a quarta individual do artista na galeria.


A diversidade cromática reforça a relação de diálogo entre figuração e abstração presentes na obra de Pedro Varela. "Os trópicos ganham estranheza por meio destas cores. Em alguns momentos, chegam a ser psicodélicos, com rosas e verdes fluorescentes. Em outros, apresenta tons que poderiam estar em pinturas de Guignard, Tarsila do Amaral, Glauco Rodrigues, Segal ou gravuras de Goeldi", comenta o artista.


Mas não só as cores marcam a diferença em relação às séries anteriores. Em "Autofágico", o artista faz releituras de gêneros clássicos da pintura – como natureza morta e paisagem –, em trabalhos em que se imbricam uma infinidade de personagens, paisagens inventadas, uma "botânica alienígena", textos, formas abstratas, misturadas às referências europeias de representação dos trópicos e os elementos da história da arte.


Outra característica que sobressai dos trabalhos é a busca do artista por um universo híbrido, de narrativa não linear, com alusões do carnaval aos artistas viajantes, do barroco mineiro ao modernismo antropofágico. "Abri espaço para uma discussão sobre a vida contemporânea. São pinturas que, de alguma maneira, tentam ser autofágicas em relação a nossa cultura, digerindo e regurgitando o que foi absorvido durante nossa modernidade", afirma Varela.

Já as interseções entre autobiografia e ficção aparecem como o eixo central da coletiva "Crash", abrigada no programa Zip’Up. A convite da curadora Fernanda Medeiros e da artista Romy Pocztaruk, os artistas emergentes Camila Svenson, Enantios Dromos, Henrique Fagundes e Pedro Ferreira ocupam o andar superior da Zipper com trabalhos que partem dos universos próprios dos artistas para criar narrativas ficcionais com elementos de seus repertórios visuais e afetivos.


No dia da abertura da exposição, 15 de junho, o artista Henrique Fagundes realizou a performance "Cinema Transcendental". O trabalho é um vídeo baseado em colagens sonoras e visuais, controladas e executadas ao vivo: uma pintura audiovisual que se constrói por meio de camadas de informação sobrepostas em uma narrativa fissurada e densa, formada por trechos retirados de vídeos apropriados da Internet, remixados e misturados com temáticas de figuras geométricas das raves, a sons de disparos de armas de fogo.


Já Camila Svenson apresenta a série "Terra que finda" (2019), em fotografia e vídeo. Trata-se de uma cidade ficcional, concebida pela artista e revisitada por ela. "Realizo expedições esporádicas a este território sem nome, inventando um espaço de espera e falsa calmaria, onde o único relógio existente habita a sala escura de uma casa amadeirada. Relógio de corda, que insistentemente toca as 12 badaladas desde que se conhece por relógio - insistindo em uma atividade obsoleta. Algo está errado, mas ninguém consegue explicar o que é", explica a artista sobre sua série.


Pedro Ferreira exibe uma série fotográfica que se articula no poder do discurso visual abstrato e subconsciente, na busca por traçar novas diretrizes para tecnologias ultrapassadas. E, por fim, Enantios Dromos mostra fotografias e vídeos, em VHS, que refletem sobre a ressignificação existencial do corpo, a partir performances.


A Zipper Galeria fica na rua Estados Unidos 1.494, no Jardim América.