"À Sombra das Palmeiras" celebra os 50 anos da Facha, em Botafogo

A exposição "À Sombra das Palmeiras" é um evento de comemoração dos 50 anos das Faculdades Hélio Alonso (FACHA) e terá seu vernissage dia 22 de outubro, às 16h. Sob a curadoria de Lígia Teixeira, a exposição é composta por obras de 72 artistas de diferentes tendências, que prestam sua homenagem a Anna Bella Geiger.

Anna Bella Geiger

Além dos cariocas Regina Vater, Victor Arruda, Alexandre Dacosta, Franklin Cassaro e André Bauduin, também participam Berna Reale, do Pará; Shirley Paes Leme, de São Paulo; Adriana Tabalipa e James Kudo, do Paraná; Almandrade, da Bahia; Edson Cardoso, do Mato Grosso do Sul; o americano John Nicholson; Otavio Avancini, carioca que reside em Londres; Abgail Nunes, outra carioca, que mora em Paris; além de tantos outros.

James Kudo

Como forma de resistência à crescente degradação e desmonte da cultura que ocorre no País e na cidade, a mostra terá o caráter de ocupação, sob a forma de uma instalação, localizada no pátio interno da faculdade, mais precisamente no espaço demarcado por quatro palmeiras que ali existem. Daí o título da mostra. Entre as palmeiras, será instalado um suporte em estilo "varal", onde os trabalhos serão suspensos, delimitando e formando uma galeria a céu aberto.

Franklin Cassaro

Esse espaço, o pátio, lugar de circulação e de acesso às dependências da faculdade, terá, com a nova ocupação, sua função e utilização alteradas, criando uma descontinuidade no trajeto e na rotina dos seus usuários. Ressignificando esse espaço, a exposição-instalação pretende ser também um ambiente de reflexão sobre a perda dos espaços públicos - as praças, por exemplo - como lugares tradicionais de encontros e convivência, tão caros à vida urbana do carioca e que, por diversos fatores - violência, degradação social e econômica - vimos gradativamente desaparecer, com reflexos na vida social e política da cidade.

Amador Perez

Assim, a mostra, além de ocupar um mero espaço expositivo, será também um espaço de vivências, em que serão promovidas conversas entre os artistas, estudantes e professores, assim como performances, ações, mostras de vídeos e outros eventos ao longo do período da exposição.

Victor Arruda

Programação:


dia 22/10 - Abertura da exposição às 16h

- Às 19h - Performance de Franklin Cassaro - "Batucada Portátil Azul " e "Levitação Cúbica Azul"

- Das 19h às 20h - Cerimônia no auditório com a diretora Marcia Alonso, o coordenador Sady Bianchin, a curadora Lígia Teixeira, e a artista homenageada Anna Bella Geiger.

- Às 20h - Performance no pátio com a artista Miriam Pech - "Sinfonia de Gelo"


dia 30/10 - Mostra de videoarte das 19h às 20h, seguida de mesa-redonda com os artistas e o público.


dia 13/11 - Performances no auditório às 19h, seguidas de conversa com os artistas e o público.

John Nicholson

"A arte não é um espelho para

refletir o mundo, mas para forjá-lo."

Wladimir Maiakovski


"No desafio de realizar uma ocupação artística em um espaço não tradicional de arte, mas sim em um pátio aberto de acesso e circulação de uma instituição educacional, impossível não pensar na questão espacial como elemento primordial e norteador da concepção da mostra. Cabe ressaltar que "À Sombra das Palmeiras", para além do poema Canção do Exílio de Gonçalves Dias, que o título sugere, é muito mais uma apropriação real e efetiva de um espaço demarcado por quatro lindas palmeiras que existem no local, do que uma alusão nostálgica a uma terra distante ou um metafórico paraíso perdido dos versos do poema romântico.

Shirley Paes Leme

Desde a instauração do locus expositivo fora do padrão cubo-branco à ambiguidade do título - propositalmente mantida para dar o tom poético à ocupação -, lidar com incongruências e polissemias foi o perfil desenhado à curadoria, sem contudo perder o foco do evento: ser a comemoração de meio século da instituição anfitriã.

André Bauduin

Nessa via, valores como educação, tradição, patrimônio, memória, vieram se somar à conceituação da exposição como forma de contextualizar e produzir um sentido para a mostra, para além de uma mera ocupação artística. Ante a degradação e deslegitimação que essas instituições têm sofrido no País, aliadas a um gradativo retrocesso cultural, "À Sombra das Palmeiras" é, antes de tudo, uma forma de resistência.

Lígia Teixeira

A intenção não é nova, mas, em tempos sombrios, resistir é a palavra de ordem na urgência de um discurso possível. Contaminados por essa ideia, um time de 72 artistas, não só cariocas, e com tendências diversas, atendeu ao desafio e aqui expõe suas obras, em que o tema é livre, mas a atitude é a mesma!

Berna Reale

Se a arte é embate e "da adversidade vivemos" (Hélio Oiticica), tal como ela, em uma democracia, é o confronto das ideias que nutre esse processo vital. Assim, tendo como referência a polis grega, ao ressignificar um espaço por meio de uma descontinuidade em sua rotina, a mostra pretende ser também um lugar de reflexão sobre a perda dos espaços públicos - a praça, por exemplo - como lugares tradicionais de encontros e convivência, tão caros a uma vida democrática e, que, por diversos fatores - violência e degradação econômica e social - vimos paulatinamente desaparecer, com reflexos na vida social e política da cidade. E nada melhor do que o ambiente acadêmico - lugar de produção de ideias - para se pensar a questão.


Retomando a incongruência como fio condutor da curadoria, a aproximação com a filosofia da diferença de Deleuze foi um caminho. Incluindo a arte no seu pensamento, além de outros saberes fora da filosofia, diz ele que a arte cria e pensa por si; que o ato da criação artística, devir de si mesmo e numa lógica interna própria, ao lidar com o diferente, o disforme, o não padronizado, é ele o ponto de partida para busca da gênese fora da identidade e da representação.


"O velho mundo está morrendo, e o novo mundo luta para nascer: agora é o tempo dos monstros" ( Antonio Gramsci). Em tempos líquidos e distópicos, face ao esgotamento das narrativas, ao rebaixamento da existência e do discurso político, e imobilizados em uma espécie de pulsão de morte do capitalismo, a naturalização do absurdo se tornou uma norma.


Na contramão dessa tendência e adotando a manobra deleuziana, a arte, como campo de "perceptos" e "afetos" e agente transformador, ao romper com modelos identitários e de representação, acena como uma possível linha de fuga para se pensar os novos devires na contemporaneidade."


Lígia Teixeira

A exposição poderá ser visitada até 15 de dezembro. A Facha fica na Rua Muniz Barreto 51, em Botafogo.