Amor Pacífico; de Mãe para Filha

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Quando eu tinha de ir `a Sephora, lembrava-me de Camille Paglia, dizendo que o mundo ocidental é pagão, na sua adoração pelo objeto. Os últimos lançamentos da indústria, que, neste país, parece se superar, ou se auto-devorar, diariamente, competem lado a lado nas prateleiras, se auto-afirmando em embalagens do arco da velha, `a frente de cada qual, um produto “nu” serve de amostra, oferecendo-se descaradamente, sob o rótulo “Try me!”, e as promessas mais loucas do seu poder “mágico”. Mas, quando finalmente me dei conta de que odeio a Sephora, percebi que esta corrompe ate a adoração pagã do capitalismo, promovendo apenas o seu materialismo sem alma. Isso porque Sephora- não passando de um supermercado de cosméticos, assim como Toys R Us era supermercado de brinquedos- não dá, no amontoado de suas prateleiras, o espaço necessário `a sofisticação que cada marca requer, para seduzir o/a cliente. Nem o espaço, e nem o tempo, pois, de amostra em amostra, da leitura de um rótulo promissor para o outro, fica-se sem saber no que acreditar, quando ainda nem bem se viu, leu ou testou,   os produtos de um terço da loja. Nas lojas de departamento,  cada marca tem o seu mundo a parte, no seu balcão individual, e na devoção de vendedoras particulares que se portam como sacristãs da sua  “mensagem”. Mas a mentalidade pragmática de concentrar tudo que se pode de um gênero de produto (comida, ou brinquedos, ou cosméticos) em prateleiras comuns de uma mesma loja, quer dizer, a mentalidade supermercado, transforma a adoração ao objeto em banalização: ao passar de um hidratante que diz ter o ingrediente tal (e la vem nome científico) cujo poder faz as células epidérmicas “lembrarem” se renovar, a outro bem ao lado, cuja formula inovadora se garante “ ativador de juventude”, por conter ingredientes derivados da biotecnologia, seguido ainda de outro, que se promove como caviar epidérmico, etc etc, a pessoa vai se sentindo absurda, cansada, e, finalmente, cética. Tudo aquilo fala da pele como uma entidade práticamente pensante e até transcendente, que pode “se lembrar”, agradecer, reverter o tempo, buscar, artificialmente, sua origem genética; se re inventar.   Se um décimo do que afirmam fosse verdade, não existiria mais rugas, na classe média que sustenta as lojas Sephora. A mistura de tecnologia, ficção literária e fantasia, nas promessas que se lê de cada produto, acabam soando mais como afirmaçōes de um novo gênero de ficção cientifica, do que algo a se conseguir na realidade. `As vezes por ceticismo, e `as vezes por querer mesmo embarcar na fantasia, venho mudando de marca pra marca há mais de dez anos,

Olivia

Olivia

 

mas aprendi a não gastar mais tempo na Sephora, e só ir lá se souber exatamente o que comprar. Passei de marcas francesas tradicionais, para a fase dos ácidos, para a das farmácias manipulativas, para os produtos de consultórios médicos, etc etc, e tchau Sephora. Mas, depois de um papo com a Paola Bonelli, em que ela resgatou esse direito feminino da união da vaidade, com o sonho e a fantasia lúdica, aderi `a marca Amore Pacific, que ela me recomendou, e consegui voltar `a Sephora. Paola contou que boa herança de sua mãe  pra ela foi a vaidade, e isso me fez lembrar como passei também essa herança, ou a “acordei”, na minha filha.

Quando Olivia tinha uns tres meses, e eu queria me maquiar, diante do espelho no banheiro, botava ela do lado da pia, deitada numa almofada protetora de bebê, da qual ela não podia rolar. Ficava quietinha (que era coisa rara) e todas as vêzes em que eu, surprêsa com a sua paz, olhava seu rosto, tinha a impressão de que ela estava completamente interessada no que eu fazia, registrando todos os meus gestos. Seria só impressão ? Ela era tão jovem… mas tratava-se de um bebezinho menina, afinal, e eu lembrava que meu filho Chris, mais velho do que ela, desde bem pequeno, só se interessava por coisas de meninos, e não estava nem aí quando me via diante do espelho.

Eu estava certa, a respeito de Olívia. Com não mais que dois anos, ela mostrou sua vaidade, da maneira mais linda. Naquela época, me via frequentemente  diante daquele mesmo espelho, colocando um arco ou outro, no cabelo. Claro que, então, ela ja não mais precisava ficar deitada do lado da pia, e, pequenina, não chegava nem a alcançar a altura desta, ainda menos a do espelho acima. Mas um belo dia, deu um jeito de pegar um daqueles arcos, e com toda convicção, colocá-lo em torno do seu pescoço, numa expressão radiante e vitoriosa. Tentando copiar o que me via fazer, ela estava se achando linda, parecendo não ter ideia de que o arco não estava no devido lugar, em seu corpinho, e dispensando, na sua plenitude, a confirmação do espelho. Mas seu espelho era o seu coração; sua satisfação consigo mesma. Com três anos, começou a brincar com maquiagem, como se fosse a coisa mais seria. Sempre lhe dei liberdade, mesmo diante das suas combinaçōes estapafúrdias com sombra de olhos, batons, etc. Afinal, uma das compensações da mulher é o poder lúdico da beleza;  “viajar” na fantasia feérica da união das cores, texturas, perfumes e promessas, dessa indústria.

Quando Paola me sugeriu Amore Pacific, lembrei nunca ter checado a marca por achar que, com nome tāo bonito e romântico, as promessas que faria deviam ser pra la de irreais. A evocação de amor, de oceano Pacífico, e de pacifismo, ofereceria, no mínimo, a beleza do romance, os milagres azuis da maior extensão de água do planeta, e a suavidade da paz… Isso seria muita coisa!

Mas a recomendação de Paola, como o espelho interno de Olivia, teve sua própria verdade, pois, conselho de amiga vem do coração. Estou adorando Amore Pacific!

Papai, Lucio Costa, e o Sentido do Sagrado

Aside

 

   Sempre vou lembrar o Cristo mais belo que ja vi, pregado `a sua cruz, expressando em seu rosto tombado, a união de majestade e dor. Era uma escultura gigantesca, bem maior que tamanho natural, que ficava na parede da sala de jantar, cujo pe direito era bem elevado, de nossa casa nas montanhas, ao lado da qual, meu pai, escultor, tinha um grande atelier. Almoçávamos e jantávamos, sob a grandeza do Cristo. Com não mais que cinco anos, me lembro de como era bom deixar os olhos seguir qualquer das linhas daquele corpo branco de gesso, percorrer os braços abertos, o pescoço, o belo rosto, os espinhos que, em torno de sua cabeça, irradiavam dele mais grandeza do que a coroa de um rei.

Verdade que papai, cujas sobrancelhas caídas, acima de olhos azuis sofridos, numa eterna expressão de mártir, dera seus próprios traços ao rosto santo, e talvez na minha cabeça infantil, os dois se misturassem um pouco, mesmo que papai, na vista de todos, tivesse tudo para ser considerado “mimado” pela vida. Invisível, a cruz que carregava era sua própria familiaridade com o caráter cego da dor.

Papai fez tantas esculturas religiosas, quanto fez corpos femininos sensuais, cuja beleza, como que religião, ele cultuava. Declarava-se ateu com veemência, e durante minha adolescência, fase em que geralmente procuramos o porque de tudo, tive, com ele, varias discussōes sobre a existência do Criador. No começo, me frustrava. Ele parecia onipotente, na sua certeza da negação do Espírito. Pouco a pouco, percebi, no orgulho daquele ceticismo, mais uma das ramificaçōes de machismo exacerbado. A aridez dos argumentos biológicos que ele usava , a exatidão estéril da realidade vista pela ciência, a insistência no “ver para crer” , na maneira como ele falava, pareciam expressar, mais que qualquer coisa, o fato de um verdadeiro homem não precisar “muletas” no “outro mundo”, ou proteção de um pai celeste. Desisti, então, de argumentar com ele. Mas estivesse papai esculpindo nus, fazendo bustos de pessoas conhecidas, esculturas abstratas, ou arte sacra, era o Cristo, quem ele fazia com mais amor; era com o Cristo que, repartindo o mesmo rosto, ele realmente comungava. Havia um padre, amigo da familia, que lhe encomendava arte sacra, e um dia pediu uma estátua da Virgem, em tamanho pouco maior que o natural. Eu e meu irmão, ainda bem pequenos, nos quedávamos ao lado dela, ainda em gesso, tao alva, simples, e contida na sua própria doçura; para nós, estávamos diante de uma santa verdadeira.

Eventualmente, soube, que logo que o padre viu a escultura pronta, exclamou, (sem por isso, deixar de aceita-la)   “ Que o Sr. faça Jesus com o seu rosto, Dr. Edgar, se pode entender, mas a Virgem, pelo amor de Deus!”

O fato é que, a partir de seus próprios traços, papai conseguia dar, fosse à Mãe, ou ao Filho, intensidade religiosa.

Isso me faz pensar no que disse uma vez Lucio Costa, citando Le Corbusier, para explicar a sua própria posição religiosa, “Sou ateu, mas tenho o sentido do Sagrado” “…j’ai le sens du Sacré”. Numa humildade que, infinita, era também convicção, Lucio libertava a fé verdadeira da limitação das afirmaçōes verbais, quer dizer, do reino do ego. Entre pensar que se tem fé, e tê-la, realmente, ha um abismo comum com o que existe entre respeito e um mero obedecer de regras; amor e mêdo. Enquanto afirmações de fé, muitas vezes resultantes do medo, podem não expressar mais que a necessidade de ter fé, o sentido do sagrado vivencia a omnipresença divina, a generosidade que não discrimina pequeno e grande, simples e complexo, poderoso e humilde.

A maneira como papai nos transmitiu importância moral, em tudo que nos ensinou, revelava claramente o respeito que ele mesmo tinha por princípios abstratos e invisíveis, quer dizer, por uma autoridade maior. Não esqueço o dia em que, passeando com ele `a beira do mar, eu e meu irmão chutamos um castelo de areia no meio do caminho. Papai parou, para dar devida importância ao que veio a nos dizer, com tanta calma, quanto convicção: “Só destruam alguma coisa, se puderem fazer outra melhor…”

Bastou aquela vez. Nunca mais chutamos ou quebramos nada, nem que fosse um brinquedo velho. A lição foi pra sempre obedecida,   não porque papai “mandou”, mas porque, no seu respeito pela criação, ele transmitiu o sentido do sagrado. Não só entendemos a sua mensagem, como nos sentimos absurdos, agindo como vândalos.

Não é qualquer um que tem o sentido do sagrado. Muitas pessoas que se pensam religiosas, não o tem. Tenho certeza de que, se o mundo inteiro fosse ateu, mas todos que nele habitassem soubessem o que respeitar, o planeta estaria, hoje, em muito melhores condiçōes…

Ayahuasca, a Reconciliação

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https://www.nytimes.com/2017/05/29/opinion/the-genocide-of-brazils-indians.html?smid=fb-share&_r=0

Sem ir tão longe quanto Oscar Wilde, ao afirmar, “Patriotism is the virtue of the vicious”, eu diria que este é a virtude dos convencionais. Naturalmente, sempre considerei não só eu mesma, como cada indivíduo, um cidadão da humanidade.   Claro que esse ponto de vista é extremamente individualista, ao considerar rótulos, tudo que não seja a própria pessoa. Ser francês e falar francês, por exemplo, são rótulos que podem ser trocados, se a pessoa quiser mudar para o Canadá, para, virar “canadense” e falar “inglês”, e por aí afora.

Mas alem dessa indiferença a limites geográficos e culturais, eu ressentia o Brasil, na maioria das lembranças do que vivi la, como a adolescência alcoólatra, a anorexia quase fatal, segundo um medico, a neurose doméstica, enfim, tudo que começou com a juventude. Esse ressentimento obviamente me ajudou a vir morar aqui e continuar a viver como árvore transplantada. Mesmo assim,  lembrava meu lugar de origem com um espinho no coração, entre saudade e revolta. Até que pouco a pouco, em instantes de plenitude, Ayahuasca resgatou, pra mim, o tempo da relação primordial que se tem com o mundo antes da palavra; da “tradução” de outrem; do conhecimento do dever, e de toda essa mediação que enfraquece, distancia e finalmente quebra a comunhão original que temos com o que nos rodeia, na pureza da sensação e no imediatismo do sentimento , antes do imperdoável surgir da  racionalidade.

Ayahuasca retornou o tempo em que eu e o que me rodeava vivíamos num mesmo ser, como a praia de Copacabana, na época em que, diante dela, tive minha primeira morada neste mundo, quando   o mar, em frente a nosso apartamento, estava também dentro de nos. Numa cozinha que era imensa, pra mim, eu tinha meu lugar a uma pequena mesa, junto a meu irmão, na sua cadeirinha de bebê. Tudo era muito alto, numa constante mutação de branco, para azul, para a cor do vento, porque o vento soprou o mar pra nos, inundando tudo com o seu sussurro, misturado `a musica das ondas e ao o azul omnipresente do oceano. Texturas se interpenetravam, num movimento de cores que era ar marinho e elemento liquido ao mesmo tempo, frescura que vinha pra cozinha e exultar em nosso coração… Objetos e emoções, além de superfícies fixas e  rótulos de palavras, criavam a mesma intensidade alegre, que anulava os limites de cada coisa, transformando tudo na manifestação de algo maior. A cozinha era o mar dentro da cozinha, o mar la fora era nossa cozinha misturando-se nele, a brisa do mar era respiração do corpo e do céu, o azul das ondas e o branco da parede eram diálogos entre fora e dentro, dentro e fora.   Nosso lanche estava em cima da mesa, e a voz grossa do mar nos dizia pra comer, através da nossa mãe, que virava o rosto em outra direção pra poder fingir ser ele, voltando então a nos encarar e dizer, na sua própria voz, que o mar queria que ficássemos fortes, devíamos comer, o mar mandou…

Saber que era mamãe falando como o mar, não me impedia acreditar que era o mar que falava com a gente. Tudo podia ser tudo, na unidade que as criancinhas sentem em  sua ignorância da rigidez dos conceitos e seus limites. Cada vez que mamãe repetia o pedido do mar, era ele que eu ouvia, e era ela que eu amava tornando-se ele,   de novo e de novo. Esse entrelaçar de cores, seres, brisa e voz, na cozinha do meu primeiro lar, retornando a unicidade daquele momento, na experiência de uma essência comum ao som,  tato,  vista, ao fora e ao dentro, `a  mãe e o mar, ao coração e a vida.

Naquelas manhãs douradas, mamãe nos levava `a praia, nos banhava no mar, Edgar pequenino gritando e esperneando, e nos levava de volta `a nossa toalha naquela areia infinita, para voltar e mergulhar sozinha. Afastava-se, na direção de uma onda maior que tudo, e que distante parecia tão perto, no seu verde que não parava de crescer, aumentando dentro do nosso coração, espelhando o sol como  estrela liquida e viva, atraindo e assustando, esticando e encolhendo com o pique e curva da massa fluida no seio da qual brilhava,  coração pulsante e aniquilador; divindade pronta `a explodir e abençoar. Determinada, mamãe se aproximava do luminoso e imperativo coração de sal e luz, ficando mais e mais longe de nos, tão pequeninos na toalha rectangular, cuja precariedade, sob o comando materno que ali  esperássemos , se transformava, como uma bandeira, na afirmação de nosso território, sob o sol quente de Copacabana. O mar, o céu, a areia, a onda e seu coração, os passos de mamãe na sua direção… Tudo era imenso. Não em tamanho, algo relativo, que não podia fazer parte de um universo em que as coisas só são vistas com o coração, mas em significado. Aquela imensidão era o calor gostoso que arrepiava a minha pele, os pingos de agua salgada escorrendo do meu rosto e desaparecendo na toalha em que meu irmão ainda bebe estava deitado, em submissão e maravilhamento, tão redondo e macio perto de mim… Nos dois, um amontoado quase amorfo de curvas e formas molhadas no tecido quente que, naquele gigantesco espaço, continuava a ser nossa ancora na autoridade de nossa mãe; na entrega da inocência. A onda podia engolir ou retorna-la pra nós, mas ainda assim nossa confiança tudo abrangia. Agua salgada tinha gosto de ameaça e beleza, em minha boca. Aquele momento reproduziu-se em outra onda, invisível porém gigante, de alivio e felicidade.

Ayahuasca permitiu que minhas raizes se revelassem dentro de mim, na imensidão de praias atemporais de um mar sem fim, reconciliando-me, paradoxalmente  com o solo mais orgânico e particular de onde nasci. Embora sem patriotismo, senti orgulho de vir de um chão nacionalmente comum com a floresta do chá, e com as culturas nativas que o descobriram.   E também, do Brazil ainda ter índios, e dessa floresta conter cerca de 50% da biodiversidade mundial, tendo sido mostrado, em pesquisas recentes, que ela retira mais gás carbônico da atmosfera do que emite.

Contrastando com todos os escândalos de corrupção nacional, o país é literalmente fonte da maior pureza, no ar e no verde da sua floresta, e metaforicamente, na sabedoria shamanica dos índios.   Ayahuasca é reconciliação na esfera da vida pessoal, universal e cósmica, trazendo a consciência da conexão de cada um com a criação. A rede que tudo liga e irmana, muitas vezes me apareceu como sentido prateado e transparente entre todos os coraçōes. Enquanto reconciliação, Ayahuasca é Perdão.

Pensei que um dia esse Perdão se ramificaria através do mundo, remendando a cisão feia e pretenciosa entre os homens e o planeta; a divisão que dá, aos primeiros, a posição de exploradores, transformando o segundo em campo de depredação. Mas, enquanto nossos índios corajosamente levam a mensagem do sacramento da floresta a outros países, na paciência infinitamente humilde de mostrar a luz aos civilizados, quer dizer, ensinar aqueles que se consideram seus superiores, ha quem os mate por interesse material, em seu próprio território.

Com muita tristeza e revolta, venho vendo, mais e mais frequentes, noticias da “vista grossa” ao genocídio de índios, e do desmatamento  da floresta, com a sanção do governo brasileiro. O aumento da concentração de gás carbônico, contribuindo para o efeito estufa, resulta também da substituição de áreas florestais por pastos de agropecuária e construção de barragens, dando ao Brasil quarto lugar entre os maiores emissores de gases que causam esse problema.

Parece que não contentes em ser noticia internacional pelos roubos e escândalos políticos, brasileiros ainda correm para dar, em seu próprio país, o golpe de misericórdia: a destruição da própria inocência. Pois o Brasil tem, nas culturas indígenas, a inocência em estado “puro”: a vida, independente de direitos burocráticos de posse, a vida “sem lenço e sem documento”, pois que nascida da espontânea interação dos nativos com a terra e a agua, ao invés da conquista e  opressão, sempre presentes na origem das naçōes formadas pela civilização. Mas despreza-se, entretanto, os nativos, a sua sabedoria  shamanica imemorial, e o potencial poder de cura da própria floresta, tripudiando suas mais genuínas raizes, para igualar-se, no pretexto de busca pelo progresso, ao lado negro da civilização: `a ganância pelo dinheiro.

Acorda, Brasil! Será que mesmo diante das calamidades ecológicas resultantes do reverenciado “progresso”, não da pra tentar rumos diferentes? Quando se poderá ver que, mesmo sem dinheiro, é mais rico o território que contem metade da biodiversidade do mundo, e a possibilidade mágica , para não dizer, transcendente, de salvação?

Pois, Ayahuasca transcende. Já ouvi céticos dizer, depois de experimentar o chá, `a maneira da expressão, “Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay”, “Não acredito no sobre natural, mas que ele existe, existe!”

O Brasil será campeão se, ao invés de participar da corrida apocalíptica, construindo represas, ou de se afirmar com  futibol e  carnaval, promover e proteger a unicidade milagrosa do seu próprio solo.

Ayahuasca; o Chamado

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bane1Sempre quis experimentar um halucinógeno, ao mesmo tempo que tinha mêdo de “não voltar” da viagem. Mas não podia deixar essa página passar em branco, principalmente sabendo que Aldous Huxley mencionou, como efeito da mescalina, o alcance de uma visão “sacramental da realidade”. Busca de Deus, e busca de me conhecer melhor se identificavam, numa urgência em comum.

Depois que li o livro de Sting relatando sua experiência no Daime, e o quanto sofreu vomitando, antes de poder receber qualquer revelação do chá, pensei que nunca chegaria perto do Ayahuasca. Como a maioria das pessoas, odeio vomitar. Talvez pudesse então tentar o peyote… Queria um contexto estruturado, na companhia de pessoas experientes, que saberiam como ajudar quem por acaso passasse mal, ou de algum modo, afundasse na loucura. Entretanto, uma vez em que estava no Rio e ouvi, de alguém vinculado ao centro de estudos shamânicos, que haveria um ritual Huni Khuin de Ayahuasca naquele sábado, dali a sòmente dois dias, surpreendi-me com a certeza instantânea e imediata de que eu seria um dos participantes. Sem nem tentar justificar, ou compreender porque e como mudei, eu só sabia que nada e ninguém no mundo iria me impedir faze-lo.

Me disseram que os Huni-Khuin são indios que moram na Amazonia, onde se originou o Ayahuasca, e alguns deles vinham para a cidade conduzir os rituais que são frequentes na sua tradição, e que chamam de Nixi Pa. Na época, eu so me interessava pela substancia que iria alterar a minha mente, imaginando, na tipica postura mental da civilização, que esta era o que era, independente de qualquer contexto, ou de quem interagia com ela. Por isso, eu não tinha ideia da minha sorte em chegar ao Ayahuasca através dos índios, como tampouco podia imaginar a importância do pajé conduzir a cerimonia, ou a influencia individual de cada um deles, no modo como vem o poder do chá: a força, como eles dizem.

Assim, naquela linda noite de verão, me encontrei numa sala grande e envidraçada, diante da floresta da Tijuca, entre umas trinta pessoas sentadas em círculo, `a volta de um índio bem moço, de bata, e um enorme cocar na cabeça. Fui informada, por um dos guardiões (pessoas treinadas para ajudar aqueles que precisassem) que aquele índio pajé cantaria para chamar a força, logo depois da primeira servida do chá. Mesmo com a convicção que me levara até ali, eu estava morrendo de medo, e  não conseguia parar de fazer perguntas. Soube que podia se vomitar em qualquer dos baldes, espalhados pela sala,  usar o banheiro do lado, se preciso, e qualquer coisa, os guardiōes estavam ali para ajudar. (Em relação a esse “qualquer coisa”, que se refere a casos de pessoas que se tornam presas  de pesadelos e do seu proprio medo, pude ver, atraves das cerimonias de que participei, o poder do pajé  traze-las  “de volta”,  com suas rezas e sopros, `as vezes tão instantaneamente, quanto uma exorcizão).  Disseram que o Ayahuasca nos mostra quem somos, e esse encontro com o nosso eu profundo é também -como tantas formas de pensamento psicologico e filosofico indicam –  um encontro  com o mais além, dentro de nós, tratando-se de  um “trabalho”, uma busca, ao invés de uma fuga,  ou diversão. Por isso, era bom nos focar nas questões que quizessemos responder sobre a nossa vida, ou sobre nós mesmos…

Tentei apaziguar em mim tanto o medo da rebordosa física, quanto o do mistério da mente, lembrando que a instantânea certeza que senti, querendo experimentar o chá,  só podia ser mesmo um chamado. De fato. Foi  crucial. Só vou especificar, dos espíritos, das cores infinitas, e das dimensōes eternas, que vi, a aparição do rosto de Cristo, luminoso, com uma gota de sangue de um vermelho vivo e pulsante, escorrendo do lado direito, assim como a que eu em criança pintei no rosto sagrado que desenhei. Na época daquele primeiro ritual, eu estava justamente escrevendo sobre o período sofrido em que fui catequizada numa escola católica, em criança,  e também  voltando a desenhar, depois de muitos anos, em que pensei ter parado pra sempre. Mesmo que não se possa esgotar definitivamente mensagens do Ayahuasca, a aparição de Cristo,  evocando, naquela vívida gota de sangue, o desenho que eu criei, parecia,  entre varias coisas que vim a descobrir mais tarde, validar a minha busca.

De modo geral, a melhora que senti em resultado  daquela primeira vez foi uma significante diminuição do medo da morte, ao mesmo tempo que um ressurgir de fé. Ayahuasca elimina a oposição entre  o visível e o invisível, a matéria e o espírito, tornando natural o entrelaçamento de  diferentes dimensões de realidade.  O tranco inicial que nos dá corresponde `a destruição do próprio julgamento racional, quer dizer, daquilo que nos permite compreender a realidade através da divisão, comparação e  oposição; da relativização, para não dizer, banalização, de tudo. Muito ao contrário, a sua dimensão cósmica nos liberta dos padrões de medida através dos quais compreendemos o nosso mundo. Por isso, mostra o que é imenso sem ter tamanho, e torna imenso o que aparece distante e pequenino, como na visão que me deu do Julgamento Final , uma vez. Do mesmo modo, traz o grotesco e o sublime  frequentemente juntos, ou misturando-se, como na redenção do diabo, voando ao encontro de Deus, que vi em outro ritual.

Livre de quaisquer limites, a beleza se revela incomensurável, assim como a expansão da nossa consciência na compaixão, na consideração da  dor do próximo, do planeta, e de tudo que não é somente a gente. Na esfera do sagrado em que vive o Ayahuasca, cada coisa, cada entidade, é um ser em si, um absoluto não comparável, um “todo”, vivendo  o todo. Um sendo espelho do outro.

Quem sabe, Deus não é o espelhar de si mesmo?

Depois daquela primeira vez, há mais de sete anos, participei de muitos rituais, e vim observando a naturalidade com que os índios convivem com o sagrado e o profano igualmente, numa atitude de respeito comum a tudo. Nunca vi um indio falando muito alto, sendo deselegante, ou querendo chamar atenção de qualquer jeito. A sua atitude de respeito indiscriminado deve resultar do fato de que, na sua cultura, o sobreviver e o estado de oração se identificam: os animais que eles adoram, simbolizando, além deles mesmos,  entidades de poder, são também, comidos por eles. Sem conhecer a opulência, o desperdício, e o armazenamento de bens para o futuro, seja em comida ou dinheiro, os índios naturalmente respeitam o que teem no presente:  Vêem no seu pão, o “pão nosso de cada dia.”

Vivendo assim, a dimensão mítica e espiritual enraizada na sua vida física, os índios tem estrutura, sem precisar regras. Ao contrário da regimentação das cerimonias de Ayahuasca conduzidas por civilizados, o ritual indígena tem liberdade e ao mesmo tempo disciplina. Voce pode ser voce, sentar do jeito que quiser, tomar o quanto quiser do chá, e ficar na sua, chorando ou rindo, contanto que não atrapalhe os outros, pois a dimensao individualista do Ayahuasca é respeitada, sem por isso ameaçar a consciencia de grupo.   O civilizado, por outro lado, sabe agrupar `a custa de regras que igualem o comportamento de todos,  engolindo o indivíduo, ou então, separar e individualizar, `a custa de reconhecer conflitos. Talvez so a sabedoria indigena possa vivenciar naturalmente  a infinitude do individualismo no Ayahuasca , e o poder cosmico dessa medicina tornar consciente (`as vezes até de forma visual) a conexão de todos entre todos,  de tudo  entre tudo. Em outras palavras,  a ambivalência de nos sentir infinitos e, ainda assim, menores que um grão de areia .

Ayahuasca me ensinou que o indivíduo não é parte do todo, ele é, com o todo. Me ensinou que nada é parte de nada, pois cada coisa é, em si, e  esse “em si”,   alma de cada qual, é o seu refletir de Deus.

A passagem da percepção trivial para a esfera do sagrado, ou do refletir de Deus, não é “café pequeno”: a planta tem que nos “destruir” e recriar, e cada pessoa apanha a surra que merece. Por isso, a palavra “Ayahuasca”, da língua quechua,  significa “planta da alma”, como também “pequena morte”, ou “planta da morte”.

Ayahuasca, o sacramento da floresta e das estrelas, a voz da terra,  ao mesmo tempo que do céu, dá a cada um a lição que precisa, para se tornar digno de ver, no pequeno pão que tira da cesta cheia, o “pão nosso de cada dia”.

 

 

 

A Iminencia da Vida

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Um dia, sonhei com uma estrela boiando no azul aguado do anoitecer. Única, aquela deslumbrante esfera de luz transformava toda a extensão celeste que lhe rodeava, em sua exclusiva moldura. Primeira a marcar o ceu, ela era conclusão do nascimento, o mistério puro entre fim e começo. Sob um sentimento de respeito quase petrificante, refugiei-me no mundo do conhecido e pensei que aquele corpo celeste era a estrela Dalva. Venus, eu conheço voce, sei o teu nome, nao tenho mêdo. Sem piscar, a luz radiante do círculo prateado, na sua continuidade ininterrupta, era definitiva.

Venus… estrela Dalva, so pode ser. Mesmo que o seu brilho me assuste, voce é familiar; nao vai me levar para dimensoes desconhecidas, ou me trazer pensamentos estranhos, pensei. Mas a estrela começou a crescer, até atingir o tamanho de uma bola de bilhar , logo ficando azulada, como a terra vista pelos austronautas  a grande distancia. Em admiração hipnotizada, consegui pouco a pouco discernir, na superficie deserta daquele corpo celeste, rios, florestas, continentes e mares nomeados individualmente, como se Deus lhes houvesse batizado, antes de se tornarem solo de qualquer civilização. Um novo planeta era anunciado, pronto a ser povoado. Pessoas poderiam pisar naquele corpo celeste, e começar um mundo novo. A disponibilidade daquele ser perfeito do ceu me confrontava com a iminencia da vida, causando-me uma indescritivel vontade de chorar. Aquela esfera perfeita e azulada, imaculada e nova flutuando no ceu trazia a tristeza de ser so e a alegria de ser única.

“Estrelinha, por que voce quer abandonar a sua completude? Pra que voce quer virar solo cultivado e terra trabalhada, ao inves de continuar sendo uma joia intocavel? Por que tornar a sua pureza acessivel, abandonando a majestade que vc tem no ceu?

Minha estrela, ainda sem mácula, estava pronta para virar chão. A iminencia da vida, medo do misterio e alegria do milagre, é reverencia diante da inocencia e do imprevisto. É a ambivalencia da liberdade, no abandono da perfeição, pela posse de um destino.

Aquela esfera sagrada estava pronta para repartir o seu ser: a iminencia da vida é promessa de integridade e sofrimento de separação. É a concepçao e expulsão de um bebê.

Estrelas nascem, iluminam, tornam-se unidades isoladas em toda sua plenitude, ao mesmo tempo que  generosidade na luz que repartem. Nao é isso, a beleza de um ceu estrelado? A novidade sem fim de cada uma, ao mesmo tempo que a ligação de todas, no ceu?

A iminencia da vida. Tremenda fé da criatura, enorme generosidade, do criador. Na entrega de ambos, um se separa do outro, fazendo, da distancia que os distingue, promessa de comunhão.

A iminencia da vida é o gesto de Deus antes da vida, o desapego e amor da mão divina que Michelangelo pintou criando o homem, ao deixa-lo livre de si, na permissão de um adeus que é também reencontro. A mão que trazemos no fundo do coração, do momento em que aceitamos ser a estrela do meu sonho, a oferta de solidez para nossos semelhantes, a semente no ventre de nossa mãe. Um novo brilho no ceu.