Yawa, Trovão, Verdade

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Yawa Bane, by Chris Dodds

Não é atoa, que o apelidaram Trovão.Vim a saber disso, depois da nossa primeira experiencia com ele, naquela noite de verão fora do Rio, sob céu infinitamente estrelado.

Recostado  ao meu lado, Steve, de repente, me diz estar vendo uma  exorcizão.  Abri os olhos imediatamente, e bem ali, diante de nós, vi  aquela  mulher paralisada, trancada dentro de si mesma, gemendo de mêdo, e como uma múmia,  sem parecer respirar.  Os guardiōes- um time de ajuda formado e treinadopor Txana- ja haviam tentado traze-la de volta, entoando cantos, sacudindo penas sobre sua cabeça, exaurindo, enfim,  toda a pajelança que haviam aprendido, sem conseguir libertar aquela criatura, da prisão do seu próprio terror que,  contagiante, ja se refletia no rosto da  maioria dos participantes. A luz da fogueira próxima dourava todas as formas visíveis, ao mesmo tempo que projetava,  atrás delas, sombras gigantescas, por toda a tenda cerimonial.  Os tambores soavam alto, as flamas cresciam, auto-consumindo-se, e delineando a figura de Yawa dizendo palavras indígenas, sobre a vítima, enquanto agitava vigorosamente, grandes penas de águia, ao seu redor. Rezava, rezava, e nada parecia mudar. Algum desavisado que pudesse entrar ali, pensaria que tudo aquilo, no mínimo, fazia parte de algum cenário fictício, cinematográfico. Fumaça, palavras desconhecidas, penas coloridas, cocares sobre figuras que a luz do fogo tornava imensas, tudo pulsava, com energia de outra dimensão. Txana  passara a conduzir a cerimonia, para que Yawa, seu irmão, pudesse se ocupar da mulher. Ela e alguns outros, haviam tomado Ayahuasca pela primeira vez. Eu, sob a graça de ter visto o espírito que mais queria ver, estava incrivelmente tranquila, como que sabendo que tudo acabaria bem.

Tratava-se do segundo encontro Shamanico  internacional, no sitio S. José, e da nossa primeira experiencia com Yawa. Antes de começar o ritual, ele havia aconselhado a todos que não tivessem mêdo, pois Ayahuasca, sacramento da floresta, é a sabedoria mestra, e maior remédio. Mostra a cada um o que cada um precisa ver, e, sendo suas revelaçōes belas e boas, ou, ao contrário, aterrorizantes, poderia se aprender, com tudo que se viu,  e tudo passaria, dentro de quatro horas. “Confia na medicina”, ele me disse uma vez sabiamente, referindo-se ao chá, que me oferecia.

Yawa é confiança, assim como é confiante. É o único pajé que conheço, que viaja para qualquer lugar no estrangeiro, totalmente sozinho. Sem o apoio de acompanhantes, sem o conhecimento das línguas de outros países, (aliás, ja está começando a falar inglês) ele realmente se expōe, de peito aberto. Essa coragem é o que lhe permite aceitar, quando no estrangeiro, a participação dos hábitos, música, e criatividade do povo onde se encontra, honrando a verdade de que todo ser humano, pobre ou rico, velho ou moço, dessa ou daquela nacionalidade, tem algo a acrescentar. A verdade da própria criatividade, que,   além de regras, costumes, e tradiçōes, é tão imprevisível quanto a individualidade;  aquilo que, em cada ser, é a constante novidade da diferença.   A diferença, fruto da espontaneidade, algo que deveria ser fonte de renovação, assusta a maioria das pessoas, que prefere viver na falsa segurança da repetição, e assim o mundo vira uma competição entre diferenças, cada qual querendo se impor, e destruir o que não é seu reflexo.

Mathew de Grado, artista local, inteligentemente  observou, no começo de um ritual, aqui em Boulder, que o futuro, num planeta que se torna cada vez menor, está na fusão de culturas,  na conexão entre todos os homens, como indicava aquele círculo, formado por brasileiros e americanos, conduzido por um pajé da Amazonia. A  abertura de Yawa, o seu ser confiante, dando-lhe a coragem de dispensar a rigidez de regras de comportamento, (muletas que os civilizados que acompanham os índios tanto precisam, e tanto gostam de impingir, apossando-se da sua pretensa autoridade, e tornando-se, eles mesmos, autoritários por procuração) e permitir que o imprevisível -que é, por sinal, uma característica fundamental do próprio sacramento vegetal- se revele naturalmente, em cada um, e da parte de cada um.

Voltando `a exorcizão do encontro Shamanico, Yawa em dado momento, passa a falar em portugues, dizendo à mulher paralisada, “jogue tudo isso fora, irmã…”, enquanto continua a sacudir as penas. Ainda sem ter conseguido a liberação da vitima, ele finalmente a incorpora e vomita por ela, dentro de um balde que alcança. Logo em seguida, ela se meche um pouco, e finalmente bota “tudo pra fora”, vomitando, também. Devo aqui dizer, que esse “tudo” nao se refere ao chá ingerido, mas sim aos problemas e mêdo, que este trouxe `a consciência, ao “lixo”, que deve ser limpo. Limpo foi. A recuperação da mulher permitiu que Yawa, exausto, deixasse o circulo por um momento, e se abandonasse, por alguns momentos, de bruços, na terra la fora.

“Tem padres…”, sussurou Steve, que desmaiam quando exorcizam, tem uns que até morrem…, mas ele conseguiu, e deve mesmo, descansar”.

Para quem não acredita em exorcizao, por não acreditar em diabo, considere que este  é o mêdo, o que nos distancia de nós mesmos, e de Deus. Por isso, ja foi dito, que o contrario do amor não é o ódio, e sim o mêdo.   De peito aberto, Yawa o enfrenta, e o expulsa. E assim, permite que se renasça.

Amén.

 

 

 

Txana e o Vento

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Numa última noite de visita ao Rio, eu e minha filha  nos encontramos sozinhas.Eu que nasci la, ja não era mais parte da rotina dos habitantes, e tampouco era turista. Gostaria de encontrar alguma coisa pra fazer que distraísse Olívia, que lhe desse a sensação de participar um pouco mais daquela cidade que ela tanto adorava. Mas o que? Foi então que   Txana telefonou, e disse que viria jantar conosco, ali no hotel onde estàvamos, cujo restaurante é em frente a praia do Arpoador. Eu e Olivia escolhemos  uma mesa ao ar livre, na calçada, e ficamos esperando. Mas como o restaurante pode ser acessado pela praia e pelo hotel, que dá pra rua, ficamos olhando para duas direçōes opostas. Dali a um tempo distinguimos a silhueta de Txana  caminhando na calçada do  mar, ao nosso encontro.  O vento soprava, e, a despeito das luzes dos postes que iluminam a praia, a imagem de Txana, andando livremente, não era nítida, como que misturada ao movimento dos próprios elementos; do mar, da brisa, e das gradaçōes da luz. So então percebi que ele caminha de um modo totalmente diferente dos outros. Percebi que não era a pouca luz, ou o caos que o vento causava  nas formas visíveis, como as folhas dos coqueiros que pareciam se mexer em todas as direçōes, o que nos impedia ver Txana com clareza, mas  a sua própria maneira de andar. Enquanto na maioria das pessoas, a parte inferior do corpo se mexe praticamente independente da superior, todo o ser de Txana participava do seu caminhar,   como uma alga nadando no mar. Se a perna direita era a que vinha na frente, todo o lado direito de seu corpo parecia prolongar o movimento dela em linhas invisíveis, e reciprocamente, com a esquerda.  A principio, lembrei-me de  Mogli, no filme Disney  “The Jungle Book”. Pensei que seria o andar adequado `a floresta,   mas lembrei-me de outros índios que conheço, e  que não caminham daquele jeito.  Txana é único  nos menores movimentos, que são absolutamente livres, mas expressam, ao mesmo tempo, a unidade do seu ser. Uma vez Olivia observou que ele é tao “na dele”, como  uma criancinha que não está nem aí pras convençōes, e pra uniformização do que se faz.   Olivia esta certa. O caminhar de Txana reflete  a absoluta espontaneidade, em que  físico e emoçōes se expressam reciprocamente. Na verdade, Txana caminha com o coração, e com os elementos ao seu redor.

Sentou-se a nossa mesa, e pedimos o prato que ja sabemos ser  preferido por nós tres, a muqueca de peixe, com caipirinhas de maracujá.
Agradeci a Txana vir se despedir de nós, de um momento pro outro. Ele parecia um pouco cansado, tendo, na verdade, vindo de trabalhos diferentes.  Lembrando-me da estoria que nos contou da sua vida na cidade, para onde veio com doze anos, sem dinheiro e sem saber falar a  lingua portuguesa, e lhe perguntei se durante aqueles anos, se sentira discriminado, por ser índio. Embora sempre se diga que no Brasil não há racismo, este acontece de maneira bem mais velada do que exclusão, ou agressividade física. Se revela o tempo todo, na atitude condescendente dos civilizados em relação aos nativos, como se entre eles estivesse constantemente expresso o acordo de cada macaco ficar no seu galho.  Canso de ver pessoas civilizadas se comunicando superficialmente com os indios,  sem que os primeiros façam qualquer esforço para “compreender” o mistério de raizes profundas que todos deviam repartir.  Quando “civilizados” falam em cuidar da natureza, por causa da ecologia, estão se preocupando com a sua própria sobrevivência. Os índios, por outro lado, a respeitam, independentemente de interesse próprio, por que são humildes diante da criação, porque pra eles, a natureza é espírito, e não somente o que lhes enche a barriga.   Mesmo que as fontes naturais do planeta fossem ilimitadas,  e ninguém precisasse se preocupar com qualquer escassez, eles não se dariam ao luxo do desperdício, ou do acúmulo de bens. Nunca estariam querendo se poupar com mais conforto, ou se amofinando na  busca de objetos industriais cada vez mais idealizados para “amaciar” a vida,  como que acenando a bandeira de eternidade, através da matéria. Ao invés disso, encaram a finitude do corpo como uma etapa na sua grande conexão com a criação. Não sofrem do mêdo que sempre nos faz pensar adiante; o planejar para se garantir, para se fragmentar, impelido constantemente a um futúro que ainda não existe: ao “nada”.
Txana me respondeu que pôde  se sentir estigmatizado por ser índio, e acrescentou, “… Mas aprendi muito com o vento…”
Antes de lhe perguntar como e o que, o vento lhe havia ensinado, me preparei para ouvir, da parte dele, alguma explicação mítica,  distante e inacessível a nosso modo de pensar. Algo que apresentasse o vento como alguma entidade da bela fusão que so eles sabem fazer, entre a natureza e o espírito.   Mas a resposta de Txana foi simples, como o seu caminhar, “O vento pode levar as coisas…. Eu só tinha que deixar o vento levar de mim tudo que me dissessem de ruim…”
Perplexa a princípio, me senti como o aluno de Zen Budhismo, o qual,  ousando perguntar ao mestre de que exatamente se tratava a atitude Zen,  leva um tapa na cara. Como a resposta de Txana, aquele tapa não se tratava de uma  agressão vazia de sentido, e sim um  chamado de volta, um retorno  ao ser puro e original,  que dispensa as muletas da lógica, da representação verbal, e de todos os desvios da sintonia com o o presente tangível, fisico e absoluto, aquele que pode enxergar, no vento, a limpeza da alma.

Proust e a Ressurreição da Carne

As pessoas adoram rótulos. Proust é considerado agnóstico, por não declarar, com todas as letras, ter fé em Deus. Mauriac chega a dizer que Deus está ausente da Recherche. Que absurdo!

Pra começar, Proust diz que um livro com teorias é como um objeto com a marca do seu preço. Coerente com isso, ele,  ao invés de afirmar ter fé- o que implicaria uma posição que acredita na universalidade da fé, sendo portanto uma posição teórica (que se quer válida para todos) Proust transmite a sua própria experiência dessa fé, de modo que o leitor a vivencie, dentro de si mesmo. Proust não tem fé, ele se torna fé, ao escrever. Não acredita em Deus, simplesmente vivencia, o divino.

Ao relatar a sua experiência do espírito, no “Le Temps Retrouvé” ele se descreve, enquanto que narrador da sua obra, como o homem arrancado da cronologia do tempo, o homem que só pode encontrar seu prazer e nutrição na essência das coisas; o ser que só se revela quando, através de uma identidade entre o presente e o passado, ele vem a se encontrar no único meio em que pode subsistir, e que é fora do tempo.

Mas nessa atemporalidade nirvânica, Proust inclui a dimensão física de sua experiência, pois é através desta, quer dizer, através do que lhe vem pelos sentidos do corpo, que ele alcança a  eternidade do que viveu. Tal dimensão se refere `a sensação física e portanto particular que irrompe no presente, tendo primeiramente sido vivida no passado. Como quando cheiramos um perfume, depois de muitos anos em que o perdemos de vista, e o seu odor nos traz de volta o tempo passado em que este nos era habitual, com uma intensidade muito maior do que aquilo que nos é realmente presente.

Estando assim, numa fração de segundos, nem lá, nem cá, ou, por outra, lá, e cá, (no passado e no presente), sentimos o prazer que resulta da experiência de identificação entre o que ja foi e o que ainda é, quer dizer, o prazer da libertação da própria cronologia do tempo,  deleite de uma absoluta liberdade, e, ainda assim, de uma familiaridade immemorial, como que um reencontro com a eternidade. Aliás, vale aqui dizer que, segundo Proust, o verdadeiro paraíso é o paraíso perdido.

Tal reencontro, por mais celestial que seja, não pode ser alcançado pelo pensamento puro, ou pela memória voluntária, desde que tem origem numa sensação física, causada pelo encontro inesperado com um objeto material no nosso caminho, como o perfume, do exemplo que dei acima. Desse modo, Proust dá prioridade `a concretude da dimensão física, na própria busca da essência, ou elemento atemporal: na busca do espírito.

O instante transcendente em que o passado ressuscita, sendo vivenciado no presente, é também a ressurreição da fisicalidade, desse passado. Assim, Proust mantém o elemento temporal na própria atemporalidade, dizendo “ Tantas vezes na minha vida, a realidade me decepcionou porque, no momento em que a percebi, minha imaginação, o único órgão que goza a beleza, não podia se aplicar a ela, devido à lei inevitável que só nos permite imaginar aquilo que não faz parte do presente. Mas eis que de repente, o efeito dessa dura lei se encontrou neutralizado, suspenso, por um maravilhoso expediente da natureza, que espelhou a mesma sensação no passado, o que permitiu minha imaginação apreciá-la, e no presente, quando a afetação dos meus sentidos, pelo objeto que causou essa sensação, adicionou, ao devaneio da imaginação, aquilo que geralmente não se encontra nele: a idéia de existência, permitindo, graças a esse subterfúgio, que meu ser obtivesse, isolasse, imobilizasse, o que ele nunca percebe: uma parcela de tempo em estado puro.

Segundo Proust, o ser que nele renasceu quando, com tal tremor de felicidade, ele experimentou sensaçōes passadas tornando-se presente, só se nutre da essência das coisas, e só nelas  encontra a sua subsistência.

“Que um barulho que já foi ouvido, um odor outrora respirado, sejam novamente vivenciados no passado e no presente de uma só vez, tornando-se reais sem ser atuais, ideais sem ser abstratos, a essência permanente e habitualmente escondida das coisas é liberada, e nosso verdadeiro eu acorda, se anima, ao receber o alimento celeste que lhe é trazido. Um instante tirado da ordem do tempo recriou, em nós, para senti-lo, o ser tirado da ordem do tempo.”

Para resumir, esse ser atemporal, que prova o alimento celeste a ele trazido, se encontra, por um instante, no estado em que suas sensaçōes físicas se tornam reais sem ser atuais, ideais sem ser abstratas: no paraíso.

Em outras palavras, essas sensacōes físicas são reais sem se localizarem no presente cronólogico, ideais,  portanto, ao mesmo tempo que concretas. Esse estado nirvânico, que apresenta uma realidade concreta, a qual, entretanto, não pertence `a ordem do tempo, é a ressurreição do elemento físico, e, o instante liberado da cronologia, (que Proust chamou de tempo em estado puro), é a existência concreta,  porém transcendente: a  ressurreição da carne.

O narrador atemporal de Proust, aquele que só vive da essência das coisas, (o nosso verdadeiro eu, nas suas palavras) é aquele que, através da ressurreição das suas próprias sensações, tem a experiência de um flash do paraíso: ele é a nossa alma individual!

O mais Lindo Passeio do Mundo

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On the most genuine throne in the World, photo by Chris Dodds www.papishotme.com

Passei quase uma semana em Esalen, um lugar em Big Sur, na costa da California, tipo duas horas de San Francisco. Me inscrevi num programa individual de reflexão, ao contrario da maioria dos que estavam la e participavam em grupo, de cursos concentrados, variados. O único jeito de poder se encontrar , quebrando, por um tempo, o estado de constante plantão em que a rotina nos força , mesmo sem que nos demos conta, no local onde moramos, é preciso se retirar. Por mais gregária e interdependente seja a espécie humana, cada pessoa, enquanto indivíduo, deve se tornar consciente da sua unicidade, pra poder ficar em paz consigo mesma. Esses dias de silencio , solidão, e distancia da internet, quando eu so “trocava figurinhas” com o céu, as arvores, o mar ali abaixo do despenhadeiro rochoso, e a minha própria escrita, foram maravilhosos, pra mim. A sobremesa foi o passeio de carro pela costa, com meu filho Chris, que se ofereceu me buscar.

Sempre amei o mar, `a beira do qual vivi muitos anos, no Rio. Em criança, levei muitos “caldos” das ondas; em adolescente, aderi, refrescando-me de vez em quando no seu abraço azul, `a “religiao” de se queimar, sob o sol tropical. Tornando-me mãe de Chris, o oceano me deu a sublime missão de apresentar a inocência do seu poder, ao poder da inocência de meu então pequeno filho, que se deleitava, nas águas salgadas. Mas em todos esses anos de convívio com o mar, nunca tive com ele a relação, ou melhor, a comunhão, que vivi, no passeio que mencionei.

Pra começar, a estrada que pegamos, e que tinha sido fechada por varios dias, devido ao fogo que assolou diversas áreas na California, fôra recentemente aberta, e só havia nós, sobre ela. Em toda aquela imensidão, era como se fossemos os primeiros a chegar, num planeta de pura beleza, eu e ele parando aqui e ali, para apreciar, fora do carro, os pontos mais dramáticos do encontro da fúria eufórica das ondas, espirrando em branquidão nervosa, nas pedras angulosas de seu caminho, para novamente explodir contra a rocha íngreme da costa. Quando havia extensão de areia, entre o rochedo e as camadas de espuma branca, esta era impiedosamente submersa, pela corrida da massa de água que, inexorável, vinha investir contra a encosta final. Nem se tinha acesso a algumas daquelas pequenas praias, que se ofereciam sòmente `a contemplação, consagrando o mar, deixando-o, intocável e inteiro, todo para si próprio.

Morando na California há varios anos, Chris, que tem sede de mar e de beleza, conhece bem o estado. Num dado momento, quando novamente decidiu estacionar, na estreita faixa de terra entre a pista e o despenhadeiro, avistamos, alguns passos adiante, um grande e elevado assento, feito de dois grossos troncos de árvore em estado bruto, a não ser pela superficie polida em que se podia sentar. Saindo do carro, senti vertigem só de olhar, `a beira dos meus passos, na fôrça do encontro do mar bem lá em baixo, puro e indomável, com a costa, um espetáculo cuja vista nos  aparece fatal; ponto máximo,  em que a beleza se mostra apocalíptica, tornando-se, com a morte, parte de uma mesma revelação. A vertigem que senti, vontade de aniquilação naquilo que nos ultrapassa, era temor, e busca de perdão.

Quando Chris sugeriu que eu me colocasse no elevado assento, cujo alcance dependia de uma saliencia na madeira, servindo como precário degrau num de seus lados, perguntei-me se seria capaz. Uma vez que consegui, tendo a grandeza do mar a meus pés, e dentro do meu coração, senti-me no único trono verdadeiro de todo êste mundo.

 

 

Maria Clara Gueiros; Mantras do Humor

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Clarinha

Quando conheci Clarinha,  ela e  meu irmão Edgar,  começavam a namorar. Ja tendo me mudado para os Estados Unidos havia muitos anos,  eu, que sempre admiro a arte dos bons atores e humoristas,  não estava por dentro das revelaçōes que floresceram depois que deixei o país, por causa de uma resistência congenita a assistir televisão, que, entretanto, não é parte de nenhuma posição crítica, contra essa atividade. Quando morava aí, eu ainda acabava seguindo tal novela, ou programa, na carona de outros, mas aqui, nos Estados Unidos, nunca. Ainda por cima agora, que a imagem e burrice do Trump é tão frequente, no vídeo, como já foi a do repulsivo Bush.

Sem saber, então, que Maria Clara Gueiros era uma estrêla, já fiz ideia do seu talento, mesmo antes de encontrá-la pessoalmente,  pela descrição de Edgar, cujo senso de humor é dos que mais admiro, “… tem gente que pode falar qualquer coisa, que ja sai engraçado…Clarinha é assim, parece que  basta abrir a boca, e seja lá o que diz, já sai  espirituoso…”.

De fato. Sendo tão companheiros, Edgar e Clarinha ja fizeram muitas visitas a pessoas chatas, do tipo que alugam os seus interlocutores, com uma conversa que só interessa a eles mesmos, e, sacando ou não,  continuam falando, sem parar. Contando  uma dessas visitas, Edgar me disse que,  submetida a  um desses monólogos absurdos, Clarinha diz pra si mesma, ou pro vento, ou melhor, para os deuses do bom senso,   numa voz bem suave e fina (que o chato em questão não ouve) sublinhada pela expressão de total desapego, que só ela sabe fazer tão adequada, “Foda-se!…”

Morri de rir, visualizando tantas ocasiōes, dignas desse foda-se.  Muita gente pode achar que dizer tal palavra, contra pessoas que falam, sem ouvi-la,  não deixa de ser  ridicularizar essas pessoas  pelas costas,  mas o fato é que estas não ouviriam  nada construtivamente crítico sôbre sua atitude auto-centrada, mesmo que gritado, ou, ao contrário, cuidadosamente explicado. O Foda-se, então, serve a quem o exclama, como extravasão, e ganha a força de um mantra, como invocação  do  que me referi como  deuses do bom senso, quer dizer, como chamado – lembrança, da qualidade de  auto-critica, ou melhor consciencia de si, e dos outros.  O tom e expressão com que Clarinha  o exclama, tornando-o  engraçado e querido, redime a agressividade da sua mensagem em comum, com, “…E daí?”, ou, “…Ninguém tem interêsse em ouvir o que vc esta falando!…”, frases que somente ofenderiam, sem causar melhora, ou alívio, a ninguém. Mas o Foda-se, de Clarinha, transmitindo crítica, ao mesmo tempo que sendo humoristicamente fofo, se torna um mantra, ou palavra que, aliviando quem a pronuncia, tem também a  dimensão metafísica de ser prece, nesse caso, prece contra a auto-importância, o que resulta de desmesurado apego, a si mesmo.

Foda-se é um verdadeiro mantra de desapego. As ocasiōes que, sozinha, visualizei dignas dele, foram de grande auto-ajuda, por incluir aquelas em que eu mesma, preocupada com bobagens que nada mudariam, nem no campo das ideias, nem no da prática, me dei conta de como estava sendo  auto-importante. Mais notadamente, antes, e durante, rituais de Ayahuasca. Antes, quando o mêdo do que viria pela frente, na antecipação de não me sentir bem, ou de vir a ver coisas que não gostaria, ou até de pirar de vez, se transformou em riso, na lembrança do foda-se. Durante, quando eu, na minha necessidade de contrôle dos meus objetos pessoais, mesmo sem precisar deles, temia ter perdido de vista o celular, ou a garrafa d’água, e estava muito na fôrça,  para mudar de posição, quanto mais para procurá-los, a lembrança do foda-se não so me tornava consciente do meu excesso de apego, como o dissipava, transformando-o em gargalhadas.  Também me ajuda frequentemente, na fase mais calma e reflexiva dos rituais, quando saco fraquezas do orgulho e do ego, não so minhas, como de outros,  e o foda-se, se revela pra tudo aquilo grande remédio.

Sem ser erudita no assunto, ouso dizer (ou repetir, o que no mínimo ja devem ter dito…afinal, nem li Bergson, pra começar) que o humor, em si, já é  desapego da lógica que nos acorrenta, e por conseguinte, da gente mesmo. Mas humor, quando repetido, perde a graça, enquanto que, no que Clarinha me explicou chamar-se bordão, eu vejo, ao menos nos bordōes que ela inventa, a dimensão  auto-renovadora (são engraçados, a cada repetição) curativa, e metafísica, de um mantra. O seguinte, que me vem agora `a mente, é o Sai daqui!, que ela exclama com uma voz ainda mais fina, numa irritação que, caricaturada, parece caçoar de si própria, ao mesmo tempo que da chatice de quem quer afastar.

Nesta época, em que somos constantemente solicitados, chateados, e interrompidos, com os milhōes de alertas digitais que  nos rodeiam, nessa velocidade de comunicação que consegue ser mais invasiva que nossos próprios pensamentos, dilacerando-os com frequencia, sempre há alguem pra representar novas e injustas interrupções,  merecendo ouvir um, Sai daqui!, expressado ao modo da Clarinha. A lembrança da intonação que ela faz, e que, com irritação caricaturada, consegue rir de si mesma, no próprio rejeitar de quem  está sendo insuportável, é  pedido de cada macaco ficar no seu galho, como prece de diferença, na propria igualdade : Vá pro seu lugar, e me deixe em paz, no meu! Alivia, pelo humor, satirizando o próprio explodir de quem o exclama, enquanto repele a chatice de quem o levou a exclamá-lo, sendo portanto mantra de justiça; repetitiva reza a valores invisíveis, com sua respectiva dimensão metafísica.

Se vou usar novamente, o exemplo de um ritual de Ayahuasca, para ilustrar como a lembrança do Sai daqui me ajudou,  não é por só conseguir ver mantras, nesses bordões, quando sob o efeito do chá, mas, bem ao contrário. Aquilo que nos ajuda  no confronto com a  força do Ayahuasca, quando, entre mêdo e glória, nos encontramos muito mais sensiveis e perceptivos, pode nos ajudar em milhões de outros casos, que estão longe de tal extremo. Voltando então, ao Sai daqui,   a lembrança deste também cai como uma luva,  quando penso no ritual de Ayahuasca dessa recente visita minha, ao Brasil. Uma dessas pessoas que se consideram eleitas, pelo chá, era uma mulher que se achava com o dever de inspirar todo mundo, acompanhar qualquer um ao remoto banheiro, ficar esperando como um sentinela, e encher o saco com seu ar condescendente. Num dado momento, ela decidiu sair de onde estava, no círculo, e vir me ‘ajudar” com uma série de cliches, ( o sagrado feminino em todas nós…jogue a fraqueza fora e blá blá blá) quando eu estava no pique da  força. Sob várias visōes reveladoras, tive que fazer o esforço imenso de sair de dentro de mim, e ouvir o que ela me dizia, pra  finalmente realizar que não era nada. Sai daqui!, é o que lembro na voz da Clarinha, quando penso  naquilo, e morro de rir. Assim, tenho que repetir: o que consegue ser mantra, sob Ayahuasca, mantra  sempre será.

Obrigada, Clarinha!