Sua Majestade, o Avião

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Sua Majestade, O Avião

 

Depois de muito bate boca no aeroporto, onde o pessoal da United não queria honrar o que nos informaram no telephone, ao vender as passagens do Colorado ao Brasil, achei que ia desistir da viagem. O último “não pode” da United não tinha sido informado no check in on line, nem na compra da passagem no telephone e, ao contrário do que nos haviam assegurado, eu não poderia checar minha bagagem de lá até o Brasil. Queriam que eu a retirasse em Houston, e fizesse novo check in. Mas eu só teria uma hora e meia em Houston, o lugar de conexão, e ficaria apertado, afora o fato de que se haviam garantido o contrário, deviam ver que nós, passageiros, ainda não somos totalmente aquela “boiada”, sem direito e sem pensamento próprio, e que eles ora dirigem pra cá, ora pra lá, a seu bel prazer. Falei que não pegaria a mala em Houston, e se não houvesse outro jeito, que nos devolvessem as milhas, e veríamos isso em juízo. Eu estava mandando qualquer coisa; só sabia que não faria novo check in em Houston, com aquela mala enorme, e pouco tempo. Parecia birra, pois tanto a funcionária da UA, quanto o meu marido, me asseguravam que eu teria tempo o suficiente. Enquanto eu insistia, batendo o pé no chão, que NÃO iria mais viajar se tivesse que fazer aquilo, perguntei-me se estava sendo por demais intransigente, mas mesmo assim, não mudei de ideia. A despeito de todo auto-questionamento, havia em mim uma proibição de fazer o que eles sugeriam. Depois que 4 funcionárias vieram assistir o nosso problema, insistindo que não tinha jeito, a quinta delas resolveu refazer as passagens, a meu pedido. Cumprindo assim, uma das exigencias burocráticas da companhia, que até então nunca fora preciso, ela informou que a bagagem, afinal, seguiria dali, diretamente para o Brasil.

Aquele conflito levou bastante tempo, de modo que tive que ir às carreiras para o portão do meu avião pra Houston, onde faria a tal conexão de curto tempo para o Rio, durante a qual eles ainda esperavam que eu me esbaforisse pra pegar e novamente despachar a minha mala, tendo que passar novamente com todo o resto das minhas coisas pela segurança, que todos sabemos o quanto é desagradável . Liberada pela quinta funcionária, corri para o portão de embarque, e fui informada que o aviao não estava podendo pousar talvez por toda a hora seguinte, por causa dos ventos nas Montanhas Rochosas! Claro que eu nunca teria tempo de checar mala nenhuma em Houston- como eles haviam a princípio insistido- pois talvez nem conseguisse chegar lá a tempo de pagar o vôo para o o Brasil. Dormir em Houston, pra pegar o do dia seguinte, nem pensar. Talvez voltar pra minha casa em Boulder, dali mesmo. Mas pra isso, eu teria que ir num customer service, pra tentar recuperar a tal mala que fôra despachada com tanto custo, para que não seguisse sem mim, para o Brasil. Sem saber o que fazer, fiquei me queixando no telephone para gregos e troianos, e todos me aconselhavam ter paciência. Mas como, se diziam que o avião estaria atrasado por uma hora, ou mais? Não tinham realmente previsão… Se fosse só uma hora, eu poderia ainda ter tempo, de me lançar `as carreiras de um portão ao outro, no aeroporto de Houston, mas se fosse mais do que isso, eu iria a Houston pra passar a noite la, e preencher formas, para que minha mala, o primeiro problema naquele aeroporto, fosse retornada.  Ja estavam avisando que um dos aviōes que não pudera pousar fôra desviado para Fort Collins… Melhor mesmo começar a bater em retirada, e adiar a viagem para o mes seguinte, ou, do jeito como eu estava estressada, sabe se la pra quando. Descarregando a minha irritação naquele pensamento, quando eu menos esperava, começo a ver, daquele mesmo portão onde embarcaríamos, um monte de gente saindo. Que avião havia chegado sem ser anunciado? Ali naquele portão, so podia ser o nosso, o de Houston… E era! Havia alguma chance, pra mim… Afinal, melhor prosseguir. Só devia estar preparada para, tão logo chegasse em Houston, voar fora daquele veículo celeste o quão rápido possível, para seja lá onde fosse o portão do que iria pro Brasil, esperando ter chance de alcançá-lo.

Ouvi musica durante o vôo, e aquela parte inicial da viagem passou rápido. Eu estava na primeira fila no interior do avião, e mesmo sabendo que ainda havia pessoas dentro dele, com conexōes mais breves do que a minha, na hora em que paramos no portão de chegada, me lancei porta afora, corredor acima, puxando minha bagagem de mão, sobre as rodinhas que nessas horas fazem milagres, e logo me vejo entre outros vários passageiros desabalados, por corredores que pareciam infinitos. Digamos que se meu portão fosse, por exemplo, na letra C41, eu havia saído no A1, tendo então os super longos corredores da letra A, B, e mesmo C para transpor, até o local de embarque do meu segundo avião. Não só consegui como, fazendo parte do grupo 1, fui uma das primeiras a entrar.

O oco interior da elipse esterilizada do frio veículo alado, exato, e preciso, foi a recompensa depois de tantos conflitos, tumulto e correria, o espaço incolume além da burocracia e passaportes, como que alem do bem e do mal, quando as identidades, ja provadas, discutidas, examinadas, já não significam mais nada. Quando se entra num avião, cada pessoa nao é mais do que o voto de fé incondicional no artificio. A terra, ou o chão, que sob qualquer outro veículo representa salvação, quer dizer, possibilidade de parar e andar com nossas proprias pernas, caso haja problema com o motor que nos transporta, passa a significar, no avião, o que deve ser evitado a qualquer custo, até o momento de chegada. O que é normalmente solidez e firmeza sob nossos pés, o próprio palco do desenrolar de nossa vida, passa então a representar a morte. Dentro do veículo voador que opera, durante seu percurso, essa total inversão de horizontes, transformando o ar em chão, e o chão em “fim”, nos entregamos por inteiro, conscientes ou não, sem questionamento.

Por isso, a sensação de me jogar no meu determinado assento é sempre de imenso alivio, e absoluta liberdade. Dali pra frente, não mais responsáveis por nós mesmos, temos que ficar em nossos assentos, e, sem nada poder fazer, fora e acima do mundo, somos obrigados a “deixar rolar”, e ficar consigo próprio. A transição entre um lugar e outro, nas asas artificiais da velocidade, permitindo-nos esse momento de meditação, leitura, ou reflexão, na entrega aos desígnios de Deus e do artifício, reune novamente todas as partes do nosso eu que foram fragmentadas pelo caminho, e pela vida. Ninguém vai nos chamar ali, ninguém vai nos pedir alguma coisa, ou esperar que façamos isso ou aquilo; durante as horas que ali passamos, nada mais nos é cobrado.

O avião, alcançado depois de esforço, planejamento, gasto de dinheiro, confrontos com burocracia, tecnocracia, polícia de segurança e, como nessa vez, lutas no aeroporto, é a majestade que tem, dentro de si, nosso reencontro com nós mesmos, içando-nos sobre o mundo. Na exatidão do seu interior, podemos revisitar nossos vagos sonhos e negligenciados pensamentos. Aviōes são escravos reis, que violam distancias com submissão imperativa e precisão categorical. Acima das curvas das nuvens de cores madrepérola, onde anjos devem se esconder, o pássaro artificial perfura, imperdoável, o azul do ceu, unindo obediencia e servidão, assim como o confinamento de nosso corpo e a libertação de nossa alma. Veículo da velocidade e da contemplação. Reis, que podem dispor de nossa vida, e servos, que anulam as distancias que queremos transpor. Seres da transição, promovendo a contemplação. Confinamento obrigatorio, no vôo do coração. E assim ele começa a se mover, vagaroso, a princípio, mas determinado, até que ascendendo, fura a atmosfera com a certeza da geometria e a determinação do amor, como que num aéreo ato sexual entre a natureza e a máquina. Dentro desta, participamos, com nossas visceras e nossa mente, na comunhão da ascensão com a velocidade, no rugir do motor vibrando em nosso âmago, e na infinitude do azul.

Acho que posso me considerar feliz,  só por amar ascender com sua majestade, o avião.

 

 

Ayahuasca e a Maçã

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Mystic Steve Jobs

Nature, Cosmos, and the burst of Creation

A maçã, enquanto símbolo, representa a queda do paraíso, a consciência do mal e do bem, o fruto da árvore do conhecimento, a tentação, e no mínimo, muito mais.  Coitada, da maçã, mas finalmente, ela é a fruta que melhor se pode dividir ao meio, e  transforma-la em metades opostas.  A maçã representou os Beatles, e nos tempos atuais, a marca do Steve Jobs. Os lançamentos Apple não deixam de fazer jus a simbologia religiosa, abrindo acesso ao reino do conhecimento, da exatidão, e das regras,  que é o reino do ego, da parte de nos que, intelectual ou não, cientista ou não, separou-se de Deus. O  ego representa a gente, sem ser, exatamente, a gente. No seu reino, o que verdadeiramente somos, vive por "procuração", através dessa ferramenta de sobrevivência, que na verdade não  chega `a nossa essência.

Por outro lado, Ayahuasca  não é símbolo; Ayahuasca é a voz da floresta, o resgate do sagrado, a reconciliação das divisōes. Ayahuasca é. O reino do Ayahuasca é o nosso coração, o nosso ser direto, ao invés de representado.

Tudo isso pra dizer, que nessa recente cerimonia, que meu filho organizou aqui nos Estados Unidos, com um maravilhoso Shaman de passagem com sua “entourage” (a cantora oficial, o rapaz americano  que o vem acompanhando fora do Brasil, e a tradutora)- numa casa, no alto das montanhas-  o reino do ego estava presente, tão aguçado e feroz, a ponto de só ver, no mais leve afeto entre os participantes, a possível tentação para o sexo, ou o “desrespeito” de manifestaçōes individuais, mesmo que em discretas e curtas trocas de impressōes,  e, na espontânea contribuição criativa de qualquer um deles, um desrespeito ao espaço do Shaman. O ambiente, mais do que repressivo, era castrador, e, abafando a espontaneidade criativa de cada um,  me fez lembrar o que um de meus tios dizia, “não há ninguém que não possa acrescentar `a gente alguma coisa; seja pobre,  ignorante, ou discriminado da sociedade. Aquele tio, socialite e snob, nem por isso se tornava incapaz de ver a inesgotável riqueza do indivíduo, o indivíduo “nu”, quer dizer, além de todas as atribuiçōes sociais e valores culturais. .

A maçã como símbolo , agudamente presente, era a censura que justificou aquele cara ficar patrulhando todo mundo.   “Ego adora regra,  autoridade, divisōes entre o que pode e o que não pode, e consequente destruição de toda e qualquer espontaneidade”, ja me disse o meu analista junguiano, experiente, e sábio. Hat off, to him.  O rapaz americano se imbuiu de uma autoridade de policial, e no seu volumoso tamanho, patrulhando a pequena sala, mais do que cheia, com vinte e três pessoas,  dava a impressão de alguém encarnando a inquisição espanhola. Vigiava tudo que se fazia,  que se dizia, sem ajudar ninguém em nada, quer dizer, sem ser um daqueles maravilhosos guardiōes, formados por nosso querido Txana Bane. Estes, não só davam o maior apoio,  como geralmente cantavam bem melhor do que os que tivemos, nesta mais recente vez.

Claro que cada pajé tem o seu estilo, e se  o que tivemos dessa vez ditou regras para aqueles que o acompanhavam transmitissem aos que participavam, então que a tradutora, e esse patrulhador, tivessem avisado no começo da cerimonia, ao invés do cara ficar rudemente reprovando  as pessoas, dando bronca num que tocou, num intervalo, sem pedir licença (ele não sabia) mostrando mesmo autoridade, pra todo mundo.  Ja participei de muitos rituais, com Shamans diferentes, e de tribos diferentes, mas isso nunca aconteceu. O índio, o Shaman, reflete a espontaneidade, a disciplina, e a  incessante abertura do Ayahuasca pra criatividade. Os índios transmitem a maior convicção, naturalmente, e essa é a sua autoridade. O civilizado, por outro lado, encarcerado no domínio do ego, tem que seguir regras, justamente por não ter convicção, e zero, de espontaneidade.

A tradutora oficial, por outro lado, reportava tudo que o Shaman falava com todo o seu ser, num tom de cansaço condescendente, como se estivesse fazendo algum dever de casa. Esses sim, são desrespeitosos. Afora isso, ela, mais que brasileira, me chocou com a sua incapacidade de confessar ser originaria do Brasil. “sou de muitos lugares, porque vivo em muitas partes…” foi a sua resposta, evocando um dos personagens mais pedantes, de Proust.

Tenho uma prima que conheceu esse Shaman em Londres, e participou de Ayahuascas com ele, organizadas pelos amigos dela, e me disse que jamais houve esse tipo de clima. Me pergunto: se Ayahuasca não ensina humildade, um pouco que seja desta, para esses ocidentais que se agarram com a autoridade que imaginam merecer, o que, então, pode ajuda-los?

Isso reverte ao que sempre pensei, e ao que psicólogos também dizem: querer chegar ao transcendente, sem cuidar antes dos seus problemas humanos, da sua carencia, dor, e o que leva a essa imensa e inadequada auto-importância que se reflete na   vaidade pessoal, é como querer atingir o último degrau de uma grande escada, pulando todos os outros que levam até ele. E isso é muito mais comum do que se pensa. Ninguém quer encarar a confusão da sua  dimensão humana, pensando que pode ser um eleito de Deus. Mas Ayahuasca, na sua extrema generosidade, vai chegando `as pessoas certas, e “desculpando”, quem sabe, as erradas. So espero que estas compreendam que os índios não precisam da sua censura, e devem trocar a autoridade de um policiamento inadequado, pela humildade de um coração aberto.

Mais uma coisa sobre a maçã, que, no que vem a seguir, se refere `a marca Apple: Tivesse Steve Jobs, que era um místico, e vivia citando a abertura que lhe deu o LSD, conhecido o Ayahuasca, ele mudaria o mundo pela segunda vez: a conexão eletrônica que, na internet, liga gregos e troianos, aqueles cheios de raiva aos que por eles são detestados,  seria substituída por uma muito maior: a ligação inclusiva do amor, na rede entre todos os seres da criação, que os liga `a terra e ao cosmos, pelo mão de Deus.

Quem conseguiu dar a forma do iPhone, ao cordão umbilical de tantos, conseguiria isso também!

Nala; o Silencio do Amor

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Nala e sua Jóia

Nala veio parar comigo, quando nos mudamos pra Boulder, e meu filho, com quem ela morava, foi em busca do mar, na Califórnia. Ja tínhamos um shitzu e um passarinho conure, que nem um papagainho miniatura, e super inteligente. Os veterinários nos alertaram que mudança é um grande stress, e o shitzu poderia aguentar, mas já o passarinho… era complicado. Mas eu ja tinha salvo o passarinho de poucas e boas, ele tinha que conseguir. Quanto ao cachorro, a felicidade dele não é estar com os donos?

Enquanto lá em Madison, onde morávamos, homens da companhia de mudança empacotavam tudo da nossa casa num enorme caminhão, perguntei a um deles se não poderia, ganhando  extra,  fazer uma segunda viagem, com o passarinho e o shitzu. Meu marido ficou  chocado, como se aquilo fosse uma ofensa pro homem, porque neste país todas as funçōes são rigidamente determinadas, e quem muda objetos de uma casa, não vai mudar animais; quem limpa o chão, não limpa os tapetes do chão, quem faz faxina não pode ajudar com a roupa, etc.  Quantas vezes ouvi dele, “voce não esta no Brasil…” como no Magico de Oz, se dizia, “You are not in Kansas, anymore…” O fato é, que tanto em Kansas, como no Brasil, ou nos Estados Unidos, não é vergonha nenhuma fazer algum trabalho extra, para ganhar dinheiro. De fato, o cara ficou todo animado. Como a viagem leva muitas horas, paguei suficiente para que ele passasse a noite num hotel de estrada, mas ele realmente estava tão animado que preferiu tomar um estimulante e fazer a viagem toda de uma vez. O cara chegou com os olhos pulando do rosto, mas o passarinho e shitzu chegaram intactos, e enquanto o primeiro se deu super bem, o segundo, que ja era meio esquisito (era um cachorro que nem gostava de comer) pirou de vez. Passava horas lambendo as paredes da casa alugada, com reverencia, como que se desempenhando de uma tarefa religiosa.  Fazia pipi e coco em todos os lugares, não respondia pelo nome, e frequentemente tentava escapar, até que conseguiu mesmo fugir de vez. Nala, por incrível que pareça, ja nasceu de uma concepção heróica; ela é mistura de shitzu (não o mesmo que  tínhamos) com rottweiler. Parece que a mãe, que era a  rottweiler, estava dormindo, quando o pai, shitzu, resolveu botar pra quebrar, gerando essa cadela de olhos doces, pernas curtas, corpo volumoso, e inteligência transcendental. Nala é o canino ideal. Nunca sujou a casa, nunca reclama, quando, por um motivo ou outro, temos que fecha-la por algum tempo no quarto,  e sempre soube esperar  que acordássemos, fosse a hora que fosse, para lhe dar comida.  Aliás, mesmo que ela adore comer, como qualquer cachorro saudável, ela espera, antes de sair da cama que reparte com a gente,   que eu lhe de o carinho matinal de todo dia, para so então, ir atrás do meu marido, que lhe da sua primeira refeição, la na cozinha. A excitação que mostra,  `a volta de sua comida, não se compara `a felicidade que fica, ao perceber que vou leva-la para passear.  Pega sua coleira nos dentes, e vai desfilando até a porta, numa  altivez  que mistura orgulho e dignidade.   So isso ja mostra, que, pra ela, antes do mandatório chamado dos instintos, está a  liberdade opcional do  espirito.  Além da cegueira de um estômago vazio, ela enxerga o amor.  Me permite  contrariar radicalmente, aqueles que dizem que ela “vive pra comer”.  O incrível, o realmente incrível, é que Nala tem capacidade de maravilhamento. Já peguei ela me olhando de um jeito, que o dizer “seja quem seu cachorro pensa que voce é”, fez um sentido pungente, quase doloroso.  Aquele olhar dela era tão comovente e tão revelador, que eu ficava quase aflita. Dei pra ela uma bola de plástico transparente, iluminada por dentro, de luzes que piscam, coloridas, sempre que bate no chão. Nossa, dizem que cachorro não vê cor… E quanto a se apaixonar? Diante daquele objeto pisca- pisca iluminado, ela vê uma joia, e fica toda possessiva, e morde a bola com expressão de êxtase, e outra vez incrível, ainda consegue fazer uma pausa no meio de tanta avidez, pra olhar pra mim, com gratidão ! A bola colorida, pra Nala, da uma sensação parecida com a da primeira boneca, pra uma menina, ou um diamante perfeito, pra uma mulher. Ela fica demais, na sua mistura de orgulho de ter o lance e fascínio, ao mesmo tempo. Trata-se um brinquedo pra criança, mas eu adivinhei como ela ia gostar dele, e como ela não pode comer a bateria das luzes, eu so deixo ela brincar o tempo suficiente de não romper a superfície de plástico. Fica em transe, é muito intenso!

Meu primeiro vínculo com ela é inesquecível. Meu filho ainda morava em Boulder, e, como ia ficar uma semana no “Burning Man” , deixou-a conosco. Recentemente chegados de Madison, meu marido ja se encontrava fora, por dez ou doze dias numa viagem de negócios, enquanto eu, minha filha Olívia, então adolescente, e os animais, estávamos meio que acampados numa casa alugada, grande, decadente, e assombrada. Olivia,  no orgulho,  intolerância, e suposta auto-suficiência, dos seus difíceis quinze anos,  escolheu morar no basement da casa e fazer , daquela grande extensão húmida, escura, e, segundo ela própria, preferida dos fantasmas, a sua área. De noite, levava  Nala pra dormir com ela. Naquela vez, eu tinha descido cautelosa, para desejar boa-noite `aquela que até então fôra minha  filha-amiga- de -copo- e de cruz, e que agora me rejeitava como uma criatura estranha. Mas eu ia  só dizer boa-noite.  Deitada numa almofada, dava pra ver que Nala, de quem meu filho recentemente tinha se despedido, se sentia abandonada num limbo, e eu, sem conhecer ninguém, numa cidade nova, e numa casa decrépita, ignorada do mundo.

A TV na parede, acabava de mostrar a cena do filme Life of Py, em que o menino, dentro do barquinho quase náufrago, grita para o tigre ja esquálido, que vinha tentando salvar, contra todas as circunstâncias,  no meio de um oceano infinito, esquecidos pelo mundo,”We are dying, Py!”, num tom apologético, de quem fez tudo mas não conseguiu- e ao mesmo tempo desesperado. Eu disse boa-noite pra Olivia, que estava no seu computador, e ela revirou os olhos. Contendo os soluços, antes de sair do quarto, vi Nala, tao jogada ali  na almofada, quanto o tigre, no banco do barco, eu e ela, deixadas pra trás e tendo deixado tudo, pra trás.  Num abraço impulsivo,  me joguei sobre ela, ” good-night, girl, I love you”, e ela me olhou, “dizendo” que entendia…

 

Guerreiros da paz: Premio Equatorial 2017

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Benki e Moisés Pyiako

O título pode soar um tanto paradoxal, mas a paz  precisa de luta. Não na base da porrada, tiroteio, ou bombas, mas na tenacidade, grandeza, e generosidade do espirito. Pois, enquanto a  condição daquilo que é material é a constante divisão e eventual extinção, seja através de guerras, ou até mesmo doaçōes voluntárias, o espirito se multiplica, sempre que compartilhado.

A causa da paz  é a causa da salvação do planeta, que ja não pode mais suportar a destruição de suas fontes naturais, consequente da competição pelo progresso, poder, e da ganância entre os próprios homens, que também se destroem, entre si. Como disse Xiuhzcat Martinez, o jovem ativista e apresentador na entrega dos prêmios da UNDP, a missão dessa luta, essa de quem, como ele, em suas próprias palavras, se apaixonou pelo mundo,  não so é muito maior do que cada um de nós, como vai muito além de qualquer interesse político. Trata-se da  herança  do planeta em que moramos, e nossa  responsabilidade de poder passar esse “lar” para as geraçōes futuras.

Os guerreiros da paz, que foram vencedores do prêmio equatorial,  são aqueles que, de diversas partes do mundo, ( Brasil- com a associação Ashaninka Apewtxa, e a associação terra indígena Xingu-  Indonésia, Guatemala, Kenia, Equador, Tailandia, Kazakhstan, Mali, Honduras, India, Pakistão e Belize) apresentam soluçōes locais para proteger, restaurar e lidar com a natureza de maneira que se possa atingir um desenvolvimento sustentável.   O mundo tornou-se pequeno, e, para salva-lo temos que nos juntar, pois o separativismo de interesses, naçōes e credos já não encontra lugar, metafòrica e literalmente. Juntos numa mesma missão, poderemos,  contra todas as possibilidades e previsōes apocalípticas,  celebrar, então, o espírito humano.

Entre esses vencedores, estavam: Benki Pyiako e seu irmão Moisés Pyiako, líderes do povo Ashaninka, correspondentemente vice- presidente e presidente da aldeia Apewtxa, que obteve o prêmio pelo seu exemplo de sustentabilidade. Benki, que falou pela categoria dos povos indigenas, disse coisas que a presunção “civilizada” pensa  entender, sem, porém, sentir, como ele,  no coração: “Riqueza é poder beber água limpa e respirar ar fresco. Existe riqueza  na fauna e flora da floresta; no equilíbrio entre os humanos e a natureza.”

Benki sente essas verdades no  coraçāo,  pois que, autentico guerreiro da paz, sabe oferecer o lado esquerdo do rosto, se o direito for agredido; desarmar, por acreditar.  Encara a escuridão sem ver nela ameaça, e sim o  principio da luz.

Lutam também pela paz, todos os  nossos índios que,  heróis, tudo enfrentam para espalhar sua mensagem, trazer a voz da floresta, e dar ao mundo o seu exemplo de fé e coragem, com extrema humildade  .  Aprenderam português como segunda língua, e conseguem enfrentar a constante estranheza de novas palavras em países continuamente estrangeiros, o frio físico e, pior, o gelo do confinamento das linhas retas, e o próprio desconhecido. O que deve ser pra eles tão “outro mundo”, quanto esse que nós, “civilizados”, chamamos de “outro mundo”, e que tão inexplicável,  situamos depois da morte.  Em sua extrema coragem e disciplina, os nativos encaram o que pra eles é “outro mundo”, com a grandeza de adota-lo, como parte do mesmo planeta. Pois, podem acreditar: quando se está na floresta, identificado ao respeito do modo de vida que eles levam, se sente na verdade, e o mundo civilizado é o que aparece absurdamente fictício, do “outro lado”, na sua mentalidade profana, e nas camadas do artifício que, ao invés de defesas de conforto e sobrevivência, são, antes de tudo,   máscaras atrás das quais podemos nos esconder do nosso mêdo existencial.

Benki, como so aqueles que sentem a verdade com todo o seu ser, sabe falar com a mesma eloquência sobre conceitos ecológicos exatos, assim como sobre a esfera espiritual,   em que as revelaçōes do Ayahuasca, sacramento da floresta, se entrelaçam com a realidade trivial, e revelam o caminho de identificação com a consciência cósmica: o caminho desinteressado, altruísta, e realmente salvador .

 

 

 

 

 

 

 

“Pai Nosso” em Aramaico: Poema de Amor entre Criatura e Criador

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Através de um estudo da original oração do Senhor nas suas palavras em aramaico, se descobre  uma grande afinidade entre sua mensagem  e a das posturas religiosas orientais, em que o corpo, a dimensão organica, tem tanta importancia quanto a mente, e a introspecção aponta para  diversos tipos de meditação que nos ensinam a buscar nossa essencia olhando para dentro de nós mesmos. Nossa essencia; nosso eu profundo e verdadeiro: nossa alma. Do mesmo modo, redescobrimos Jesus, numa liberdade poética que, não dogmática ou tampouco discriminante, tudo reconcilia na divindade, expressando sua pureza imaculada, através do primitivismo versátil de sua língua original.

A tradução ocidental que temos   dessa oração reafirma a divisão entre matéria e espírito, paraíso e terra, coisas do ceu e coisas do mundo, como geralmente faz o pensamento  puramente racional e julgador, que só consegue entender o “sim”, através da sua oposição ao “não”, isto é, só consegue “ver” a realidade enquanto constante polaridade de extremos. Desta feita, nos coloca de um lado, como  pecadores carentes , e estabelece do outro lado, a divindade como fonte de ajuda. Claro que ao nos infantilizar dessa maneira, a ocidentalização da prece de Cristo  nos transforma em pobres pedintes, empurrando para o Pai, a responsabilidade da nossa transformação espiritual.

Mas a prece original de Jesus, ao invés de simples pedido a uma divindade externa, que existe muito acima de todos os humanos, nos entrelaça com a fonte de criação, ambos agindo juntos,   criaturas e  criador identificados na reciprocidade do mesmo amor. Claro que a experiencia desse amor  corresponde a um estado de Nirvana, `a lembrança de que moramos em Deus, assim como Ele mora em nós. Ja dizia o poeta Kabir, “Todos sabemos que o pingo de água se mistura no oceano, mas poucos sabem que o oceano se mistura no pingo de água.”

Antes de mencionar exemplos que ilustram o que disse acima, acho necessario informar que, de acordo com o livro Living the Prayer of Jesus, de Stephanie Rutt, o Cristianismo, diferente de outras religiões, que nascem da transformação de mitos em dogma,  nasceu da propria experiencia mística, através de Jesus. No seu maravilhamento, plenitude e temor, essa experiencia mudou a vida dos primeiros cristãos,  que se tornaram apóstolos de Cristo. Sem forma verbal, ela só podia ser expressa na exclamação do seu proprio êxtase, “Ahhh…”.  Considera-se que o desejo de registrar, ou dar forma `a tal revelação levou um dos discipulos a pedir que Jesus lhes ensinasse a rezar, “Senhor, ensinai-nos como rezar” (Mateus 6:9-13 e Lucas 11:1)

As palavras com que Jesus respondeu ao pedido compōem o poema  que mantém viva, a exclamação de êxtase original, a qual,  na tradução para o grego, e depois para outras línguas, foi perdida.

No original aramaico, Jesus começa com ela, na primeira palavra da primeira frase de sua oração: Abwoon d’bwashmaia ( Our Father, who art in heaven).

Abwoon, que se pronuncia, Ahh bwoon. Ahhh  nos lembra o absoluto, o único. Bwoon evoca o processo continuo do nascimento pelo som e vibração  através da respiração, num processo em que a vida é recriada a cada momento. Enquanto Abwoon se refere `a fonte original de criação,  Shmaya, parte da segunda palavra d’bwashmaya, indica a manifestação do absoluto através da respiração, vibração, luz e som.

Pode-se dizer que estamos mais intimamente conectados com nosso criador pelo proprio respirar, que é a função mais elementar. A consciencia desse respirar nos leva ao laço mais intimo e recíproco com Ele. Só se pode exclamar Ahhh no exalar de um inspirar. Jesus queria que seus discipulos tivessem uma experiencia visceral da divindade a que pertenciam.  Queria que eles se sentissem, também, respirados por Deus. Essa interação no processo contínuo de fazer nascer pela respiração lembra o miístico cristão do século Xlll, Meister Ekhart, ao dizer, “Somos todos mães de Deus.”

Com dimensão tanto organica, quanto espiritual,  acho que não pode haver entrega tão completa, quanto sentir-se respirado, por Deus.

A oração continua, Nethquadash shmakh, que, traduzido para “Santificado seja o vosso nome”, tem tambem o significado de criar espaço, no caso, para Deus dentro de nós, pois Nethqadash  é tambem interpretado como  o reservar de espaço a ser preparado no chão, para uma planta especial. Nesse caso se relaciona `a preparação, na nossa propria vida, para nos tornar capazes de ouvir a voz, ainda pequena, dentro de nos.  A raiz shm in shmakh se refere ao nome divino.  Jesus esta lembrando aos discipulos manter o nome de Deus fora de qualquer comportamento inadequado, e “… como a divindade que os chamou, sejam distintos na sua maneira de viver. Pois está escrito, “Santifiquem-se e se consagrem, porque eu sou sagrado” Pedro 1, 15-16.

Desde que a conexão com nosso criador ja existe, dentro de nós,  precisamos cultivar e nutri-la, quer dizer, manter nosso foco em sua única direção. Significa desapegar-se de muita coisa que pode impedir o seu crescimento, envolvendo muito do que, até então, podia até ser habitual.

Como sempre pensei, da minha propria interpretação de Jesus, ele extendeu a todos nós, que queremos receber, o seu proprio “parentesco” com o pai, assim como o papel de cada um, em relação a Ele.

Desenvolvendo o poema de interação amorosa entre criatura e criador, o que conhecemos como “Venha a nós o vosso reino”, correspondendo a Teytey malkuthakh, sugere, de Teytey, além da tradução para “venha”,  imagens de desejo mútuo relacionados `a camara nupcial em que serão satisfeitos, dando começo ao nascimento. Malkuthakh, por sua vez, pode ser traduzido como reino, mas também involve, na raiz malkh, o significado aconselhar,  expressando o reino de Deus como o estado em que a direção do criador é realizada. Teytey Malkuthat pode então ser  também interpretado como, “Alinhe-se com o Criador”.

Trate-se de se alinhar com Deus, ou de se identificar com a sua presença no amor recíproco da camara nupcial, acho que Jesus  está falando de uma comunhão, o ato de amor mais imediato e completo, com o criador. Sòmente na comunhão, todos os limites entre os seres que comungam são abolidos, seja literalmente, no atavismo da comunhão canibalista- a qual, aliás, Jesus se remete na última ceia, ao dizer aos discipulos  que bebam o seu sangue e comam o seu corpo, em memória de si-  seja na vivencia de um amor espiritual.

A frase seguinte da oração, traduzida para “Seja Feita a Vossa Vontade”, do original, Nehway tzevyanach aykanna, significa ” Manifeste a visão,”  desde que tzevyanach significa vontade não apenas como uma afirmação do que se quer, mas como um tipo de desejo, cooperação harmoniosa que inclue disciplina.  Concerne o desejo do coração, além do estado ideal ou mental, enquanto Aikanna representa a vontade de consistencia e estabilidade que o desejo do coração de Deus seja feito, na nossa vida.

“Assim na terra como no céu”, do original d’bwashmaya, aph bharha, ( b’arh’are ahhhh) quando d’bwashmaya se refere `a luz, vibração e som fazendo o cosmos nascer, enquanto que aph bharha aponta para o suspiro dos humanos, ao sentirem o apoio da terra sob eles, a frase original pode ser interpretada como, “torne-se o paraíso na terra”.

” O reino dos ceus é aqui… agora “, disse Cristo no Sermão da Montanha,  evocando a plenitude do momento presente,  que é também buscada no Zen Budismo. Continuando, isto é, a desconhecer cisōes, neste caso, entre este mundo, e o do espírito. Tornar-se paraíso na terra significa receber o que ja está em nós, a vontade divina para cada um, e dela agir com alegre paixão.

“O pão nosso de cada dia, nos dai hoje”, traduzido de Hawvlan lachma d’sunqanan yaomana,  também se interpreta, “Lembre-se da plenitude”, desde que Hawlan significa “dar”, e lachma  traduz-se para “pão”, e tambem “entendimento”, enquanto d’sunqanan aponta para recebermos o que precisamos, sem acumulação, e yanomana se refere a “momentos iluminados e diários”. Vejo nisso a identificação entre a dádiva de pão e a de entendimento, comida e espírito, na plenitude de quando estamos iluminados.

“Perdoai as nossas dívidas”, from Washboqlan khaubayn (wakhtahayn), washboclan significando o “retorno a um estado original”, enquanto Khaubayin significa “dividas”, na versão de Matteus, e “pecados”, na de Lucas. Mas, do Aramaico, pode tambem ser “falhas”, “erros”, “ofensas acidentais”, “esperanças frustradas”.

“Assim como perdoamos os nossos devedores”, de,  aykana, daph sknan shbwoqan l’khayyabayn.

Perdoar é se libertar. Aykana novamente nos indica que esse libertar-se deve ser consistente e regular. Perdoando, e daí, tornando-se livre, reconhecemos que o que ocorre internamente acontece, de imediato, externamente.

“E não nos deixe cair em tentação”, do original, Wela tahlan l’nesyuna,  considerando-se que Wela tahlan, significa não nos deixe entrar, enquanto Nesyuna tanto pode ser traduzido para “tentação”, quanto para “esquecimento”, ou ainda, “perder-se em aparencias”, a frase original tambem pode ser interpretada como, “Resista ao esquecimento”, no caso, o da nossa propria verdade, ou nossa união com Deus.

“Tentação”, ou, l’nesyuna, sugere a possibilidade de nos perdermos nas aparencias ligadas ao materialismo. Portanto, se deriva da prece Aramaica a não existencia de qualquer entidade externa para nos “tentar”. Os estados de “tentação” são causados pelo nosso proprio esquecimento, que leva nossa atenção ao exterior mundano, desviando-nos de nossa plenitude interior.

” Mas livrai-nos do mal”, provem de  ela patzan min bisha,  em que min bisha, traduzido por”mal”, se extende, também, a significar “imaturidade”. Enquanto estamos sincronizados com a presença interna da divindade, nossas palavras e açōes são certas para cada momento. Nessas circumstancias, há abundancia de sincronicidade, e experimentamos estar sendo levados pela divindade interna que nos respira para a vida a cada momento. Nossa “música”  é então cantada por nosso criador, através de nós.

“Pois vosso é o reino, o poder, e a glória,  para sempre, amén”, do original Metol dilakhie malkutha, wahayla, wateshbukhta, l’ahlam almin, Ameyn, (ahhh meyn) em que Dilakhie, significando “vosso é o reino”, mostra tambem a imagem de um campo fértil e abundante, enquanto Malkutha se refere `a divindade que permeia a criação,  Hayla, à força encarnada da vida, em harmonia com essa criação, e Tesbukhta, traduzido por “Gloria”, evoca  mais exatamente a imagem de uma música,  gloriosa harmonia que retorna a divina luz e som à matéria em equilibrio. As raízes da palavra tambem apresentam a imagem de um fogo generativo, que leva à admiração.

Assim seja. “O reino de Deus é aqui, agora”, pois, como amor entre criador e criatura, ele está dentro de nós.