Primeiro Mundo?

 

Um dos três anos em que morei na Inglaterra foi passado em Cambridge, cidade linda, pequena, poética , cheia de igrejas góticas que, no desvario da sua delicadeza vertical, nos tornam parte da sua ascensão. Com suas faculdades maravilhosas, ruas calmas, verde, e silencio, nada parecia faltar em Cambridge, para quem gosta de livros, reflexão, e cultura.  Por causa de Cambridge,  quando me mudei para uma cidade pequena nos Estados Unidos, que tinha também, universidades, eu estava longe de imaginar a mentalidade retrógrada que lá prevalecia. `As vezes me perguntava como podia existir tamanha caretice, no “primeiro mundo”.

Pouco a pouco, fui percebendo que, talvez por influência européia, para mim, primeiro mundo significava antes de tudo cultura, arte, e tudo que promove o desenvolvimento da mente, tanto no sentido psicológico e emocional, quanto intellectual. “Que droga de primeiro mundo é este?” minha mãe perguntava no telefone, quando eu lhe falava do puritanismo do lugar. Mas, puritano ou não, acidade, que era em Iowa, dispunha da “maravilhosa” tecnologia americana, desde computadores, todo tipo de maquinária doméstica, automóveis massudos e auto importantes, até a imensa gama de objetos utilitários, prosaicos e triviais, que a proposta da sua servidão é responder necessidades que eles mesmos criam, passando de “servos”, a patrões.

Quantas vezes se vai ao Target so pensando em comprar, por exemplo, algum shampoo, e se sai de lá com uma parafernália nova de banheiro, que a gente nem sabia que “precisava”. Prateleiras que cabem em volta da privada, para dar mais lugar (um lugar até então desperdiçado) `a toalhas, ou cosméticos, tapetes de banheiro  contendo uma camada tempurpedic (melhor para os pés) lixeiras mais fáceis de abrir, enfim, tudo que, se não comprarmos, nos faz sentir “roubados”.  Vai-se ao Target como patrão, e rapidinho se vira escravo. Indústria e tecnologia se desenvolvem de mãos dadas, para servir o imediatismo mecânico do tipo de mente que elas próprios criam, uma mente que não precisa saber nada de arte, ou tampouco refletir sobre os valores humanos pois, enquanto ciência aplicada, a tecnologia tem  objetivos que só visam resultados  materiais. Cultura, por outro lado, nutre o espirito e por causa disso, passa, no domínio da matéria,  de necessidade a luxo. Puritanos, ignorantes, caretas e racistas,  sabendo apertar os botōes certos, ou tocar nos devidos ícones , se irmanam no pragmatismo que, cada vez mais, abafa a espiritualidade. Quem tem tempo de se ocupar com ela, se o computador organiza nosso pensamento, e se os diferentes controles remotos que se proliferam ad infinitum  nos deixam permanecer sentados, enquanto um abre a cortina do quarto, o outro faz aparecer filmes na televisão, o terceiro  muda a temperatura da casa, e por aí afora?

`As vezes, acho que o símbolo dos Estados Unidos devia ser um controle remoto!

Quando contei `a mamãe que as amigas de minha filha não podiam entrar em nossa casa, por causa da escultura em mármore feita por papai, de um casal nu, que coloco sempre em lugar de honra, e ela me perguntou, pela milésima vez, “que droga de primeiro mundo é esse?”, eu respondi , “ Não é primeiro mundo, e sim idade media… So que uma idade média sem espiritualidade, uma idade média materialista.”

Aguentei o paradoxo de uma idade media materialista por muitos anos, e quando achava que ia enlouquecer, botava algum youtube do Elvis a todo volume, na sua fúria transcendental, e na absoluta liberdade dos seus movimentos imprevisíveis: “You are nothing but a hound dog!…”, imaginando que ele estava gritando contra toda aquela gente, e assim, Elvis me vingava um pouco. Embora eu tenha me ligado muito mais ao Rock n Roll ingles, concordo que Elvis é o rei. Ao invés de simplesmente dançar, ele é “possuído” quando se movimenta. Quando passa por exemplo, de uma flexibilidade “liquida”, parecendo não ter juntas, ao  vigor  do seu sentimento extremo, na motilidade única do seu rosto, e nas suas palavras, cuja convicção forma decretos, ele incorpora uma liberdade que não é deste mundo. Thank you Elvis!

Depois de muito me revoltar com o fato da cultura, enquanto caracteristica do primeiro mundo, ter dado lugar `a tecnologia; depois de constatar que todo mundo, antes de pensar comprar uma obra de arte, faz questão de adquirir o ultimo lançamento da Apple, depois, enfim, de  lamentar a constante diminuição do lado subjetivo da mente, pelo domínio eletrônico dos processos exatos, constatando  a verdade Junguiana que o homem moderno esta perdendo sua alma, eu, em Boulder, descobri o que pra mim, caracteriza o primeiro mundo.

Boulder, com a melhor maconha que existe, transformou o que era crime, em cura. Liberou o consumo da planta, nao so com objetivos médicos ( é impressionante os beneficios curadores que nos oferece) como para fins recreacionais. Com isso, resgatou a necessidade de contemplação, diminuiu a agressividade (ao contrário do alcool) e, Eureka, preparou o terreno para a devolução da alma do homem “moderno”. A devolução da capacidade de ver a beleza, e não só a utilidade. O respeito pelo que “é”, e não só a ganancia  pelo que nos serve: o poder da humildade, ao invés da vontade de poder.  Pois é nessa capacidade de ver cada ser em si, independente dele poder ser “usado”, que reencontramos o respeito geral pela criação, da qual somos um, e na qual somos todos. Sim, falo da conexão entre tudo e todos, que o Ayahuasca finalmente vem resgatar.

Embora legalizado aqui para o Daime e União do Vegetal, os artistas e os livres preferem buscar o  genuíno ritual de sua origem, e encontram seus Indios e Shamans para conduzi-lo. Quando o Ayahuasca, resgatando o sentido do sagrado, salvar o planeta,  o Brasil, com seus índios conhecedores da floresta e das plantas, terá passado de país do futuro a país do presente!

Voltando a Boulder, se a liberação da maconha, com as inúmeras formas de ser consumida,  não significa evolução , considerando-se principalmente o impasse ecológico que o capitalismo, encalhado na fase egoista e desconectada do individualismo, nos colocou, nada mais é evolução.

Então descubro que para mim, o que caracteriza o primeiro mundo são as condiçoes que nos permitem ultrapassar essa fase, e atingir o nosso verdadeiro indivíduo. Por isso, muitos aqui  ja consideram as plantas  espíritos, enviados de Deus.

Papai, mamãe…

 

Os dois pensavam demais, questionavam sem parar, produziam um trilhão de teorias, tão opostas, quanto as  realidades em que viviam.   Enquanto pra ele, tudo vinha de causas físicas, pra mamãe, tudo respondia motivos transcendentais.

Quando papai soube que eu ja tinha tido tido sessenta aulas diárias de motorista, e estava longe de poder fazer o exame, enquanto a maioria das pessoas precisava somente de duas semanas para aprender, me disse para procurar um medico, e examinar a cabeça. Por causa do meu ritmo lento, excessivamente introspectivo, mamãe, por outro lado, achava que eu vivia na dimensão contemplativa do antigo Egito, chegando mesmo a ver, em mim, uma reincarnação de algum egípcio/a.

Muitas vezes, com a sua firme convicção de que qualquer um, tendo oportunidade, pode fazer as coisas direito, ela ajudou gregos e troianos, com bons resultados.  Naquela vez em que a encontrei, no meio da pequena rua em que morávamos, ouvindo as queixas de um cara pobremente vestido, que enxugava as lagrimas, e dizia que, mesmo estando ele perto de ser pai, ninguém queria lhe dar emprego, só porque tinha ficha na policia – devido claro, a um mal-entendido, tinha ele explicado- mamãe acabava então de contrata-lo para completar o meu treino no volante.

Assim, tanto eu, quando ele, ganhávamos nova chance de nos revelar. Ele ia ser pai e precisava daquele emprego, assim como eu precisava aprender a dirigir. Mas quando me lembrava da vez em que, depois  das minhas primeiras trinta lições diárias, através de uma escola de direção bem recomendada, no Rio, o instrutor que me fora designado, delicadamente me mandou desistir, cheguei a ter sonhos repetidos, em que dirigia sozinha, tão libertadores quanto esses em que a gente se vê voando, como se fosse a coisa mais natural no mundo.

Naquela manhã de calor e mormaço, enquanto o instrutor catava pela milésima vez as balizas que derrubei, naquele terreno de cimento, baldio, e estéril, eu olhava para o céu acinzentado,  pensando em tudo que não fosse os minutos que ainda teria pela frente, até poder voltar pra casa. Foi então, que o rapaz, ainda do lado de fora, chegou perto da minha janela no carro, e, com as balizas na mão, falou, “Estrelinha…” “…Como?”, perguntei, sem entender nada. “Voce é uma estrelinha, não é deste mundo… Melhor desistir de dirigir…”

Se  ele estava certo com seu conselho, pelo menos me comparou a um corpo celeste,  como que entre a posição crítica de papai, e a espiritual, de mamãe . A escola para que trabalhava também me aconselhou desistir, acho que ja estavam sem graça de me manter na sua lista, sem eu nunca conseguir marcar data pro exame.

Devo aqui informar, que desde que papai, tendo uma vez que tomar conta de mim, quando eu era pouco mais que um bebe, chegou `a  inabalável conclusão de que eu era diferente.  Eu tinha pouco mais de dois anos. Mamãe havia saído por alguns momentos, e pedido a ele que ficasse de olho em mim. Sem tirar o foco do bebe que eu era, na louca e repetida aventura de subir os degraus de uma escada de pedreiro, que, com meu peso, levemente se desprendia da parede em que estava encostada, a caminho de cair comigo no chão, ele prontamente me tirou do degrau medio, que eu conseguira atingir, avisando, ” Não faz isso, que a escada está caindo em cima de voce”. Mas sendo a mania de repetir, uma das características da primeira infância, la fui eu subir novamente, fazer a escada se despregar da parede junto comigo, e levar meu pai a me tirar novamente do meu degrau, “Não disse? a escada ia  cair no chão, bem em cima de voce, será que vc não vê?!”

Na terceira vez em que insisti, papai somente olhou, na esperança de que eu tivesse aprendido.  Não parou de observar, quando viu a escada começar a cair, achando no mínimo  que so daquele jeito eu iria aprender…Entre  as minhas lágrimas, e as manchas rochas no meu corpo, depois que caí no chão, com a escada em cima de mim, ele explicou à mamãe, que chegava, ja nervosa, “… Essa menina não tem instinto de sobrevivência!…” “Como? que houve?  como pode voce, concluir isso de uma criancinha?

Ao ouvir a estoria, ela disse  que o “anormal” era ele, em me me fazer de cobaia dos seus testes “epistemológicos”. Mas ele nunca esquecia os diagnosticos que fazia, e diante de muitas coisas em minha vida, como estudar filosofia, por exemplo, repetiu que eu não tinha instinto de sobrevivencia.

De volta ao suspeito que mamãe contratou, que usava uma camisa verde luminoso, acentuando o vermelho do inchaço  das várias espinhas  prestes a explodir no seu rosto, eu, no entanto, o vi como superior a mim, por saber dirigir, aquela coisa do arco da velha, mesmo quando ele mostrava não ter educação, nem consideração por ninguém: Dentro daquele fusca caindo aos pedaços, cuja porta do lado esquerdo se abria em todas as curvas que o carro fazia pra direita, e a qual eu conseguia segurar, enquanto o cara dava socos irritados na sua, pra compensar    a falta de buzina do veículo, gritando, para as pessoas idosas, que atravessavam  alguma rua, calmamente, ” Será que isso aqui é a passarela da velhice???” E de novo batia, “Bang, bang, bang”, continuando a gritar, “Saiam do caminho!”

Depois de mais dois anos, em que fui  diariamente `a faculdade que cursava, com aquele cara do lado, me dizendo quando acelerar, quando virar aqui ou ali,  quais os espaços em que o carro devia entrar, e que eu nunca pensaria caber, mamãe percebeu que ele, com a desculpa de levar o veículo pra concertar toda hora, desviava dinheiro dela. E eu, ainda longe de poder dirigir. Assim, eu e ele falhamos nossa nova chance, e pra mim, um outro tipo suspeito, foi contratado por mamãe. Este, depois de seis meses, repetiu o parecer dos outros, e disse que eu nunca conseguiria dirigir. Afora minha nulidade em me orientar, o carro, comigo dentro, me parecia muito maior do que na realidade era. Cheio com meus pensamentos, horizontes, e divagaçōes, qualquer carro me parece até hoje, depois que já dirijo ha trinta anos, maior do que a maioria dos espaços exteriores que lhe cabem,  e que me aparecem encolhidos, pela simples objetivação de estar do lado de fora, quer dizer, de não fazer parte de mim.

Se consegui, finalmente, dirigir, foi porque quis morar na frente do mar, num lugar que, na época, era mais inacessível. Como sempre, dei um pulo maior que a perna, e depois, botei as coisas no lugar: Um belo dia, me senti no controle do veículo. Me achei o máximo.. Consegui até me enganar que no tráfego eu via tudo que todos viam, ao mesmo tempo que eles, e que eu até entendia direções. Que exame de cabeça que nada, mamãe que estava certa….

Nem tanto, porém. Eis o motivo:

Quando eu quis aprender a dirigir, só pensava em ir do mar da Barra, onde fui morar, `a zona Sul, e ja achava isso ótimo. Sem saber que iria me mudar  pros Estados Unidos, nunca pensei que viria a ser tão absolutamente dependente do automóvel, a partir da primeira cidade em que moramos, que nem táxi, praticamente, tinha.  Onibus era raro, e poucos eram os que esperavam por algum, no frio de  20C, abaixo de zero. A cidade era pequena, e, praticamente sem calçadas, parecia um simples ponto, no entrelaçado de pistas e  mais auto-pistas . Como varias outras cidades americanas, em que nem se caminha, o meio de se movimentar é dirigir seu próprio automóvel. Moramos em vários desses lugares, quando eu então, fui motorista de meus filhos, e os levei pra todo lado. Areas rurais, antes do iPhone existir, pistas nas quais me perdia, estradas de neve em que somente uma vez, desviei da rua, tudo! Passei a me achar, se não mais, o máximo, pelo menos, normal. Até que as crianças foram crescendo, e, quem diria, se envergonhando, do meu dirigir. De repente, Chris se abaixava no banco do carro, por causa de alguma “barbeiragem”, que ele afirmava que cometi.  Quando minha filha Olivia tinha dois anos, soube apontar, lá do banco de trás, na maior nevasca, a direção certa, de nossa casa. Eu, que seguia a oposta, pensei que ela era fofa, achando , tão pequenina, que podia me guiar. E ela podia! Depois de continuar no caminho errado por algum tempo, tive que dar meia-volta!

Fui motorista de meus filhos, por uns vinte anos. Não fosse por mamãe, sua fé, e seus métodos improvisados, certamente eu não teria sobrevivido como mãe de familia, nos Estados Unidos, reino do automóvel. Entretanto, tornei-me, através das crianças e dos anos, totalmente consciente de como é maior o esforço que faço pra dirigir, e nem sempre com bons resultados, em comparação ao das pessoas que papai chamaria “normais”.

Aqui, onde tudo vira síndrome, ja descobriram qual é a minha. A explicação física da minha dificuldade me tornou mais auto-tolerante, consciente dos meus limites, e até me deu o direito, de vez em quando, de tomar algum remédio. Claro que o iPhone, ditando direçōes, assim como reajustando o caminho com um saco de ouro, quando ainda assim, encontro jeito de errar, também ajudou a me salvar.

A fé intuitiva de mamãe fez milagres, mas o julgamento racional de papai também passou a contar.

Um pouco de transcendentalismo, outro pouco de ciência médica, e ainda dirijo!

 

 

 

 

 

Futuro Poder do Iphone

Image

Esperando, dentro do nosso carro estacionado, a hora de entrar numa igreja  que descobri, finalmente, oferecer a cerimonia da missa em Latin, eu e meu marido aproveitávamos para acabar um baseado que tínhamos conosco. Devo aqui dizer, que embora eu não assine em baixo de todo o dogma católico, o fato de ter frequentado uma escola de freiras, quando tinha seis anos de idade, e frequentemente ouvido a celebração da missa em Latin, me sinto, quando dela participo, recuperando a essência daquele passado, no nirvana Proustiano da atemporalidade da memória; a própria dimensão de eternidade do que vivi.

Tínhamos alguns minutos, e maravilhosamente liberta  da cronologia do tempo, por aqueles tragos, que me desacorrentavam do compromisso de submeter minhas açōes e pensamentos a objetivos práticos, sempre adiante do momento presente,  desprendi-me, por alguns momentos, da finalidade de sair do carro dali a pouco, e deixei meu pensamento inteiramente livre.

Lembrei-me então, de Mateus, o menino cuja mãe, la da Amazonia, humildemente me perguntou se eu poderia pagar pra ele um telephone cellular, de Natal.     Quando fomos `a floresta, Mateus, que so tem dez anos, se esmerou subindo nas `arvores mais altas e colhendo para nós frutas deliciosas, que nunca havíamos visto. Estava prestes a começar suas aulas na escola, e inteligente do jeito que é, ja se preparava, com afinco. Não pensei duas vezes, em lhe comprar um cellular que fosse razoável, para um menino. Não me ocorreu que Mateus, com aquele desejo, ja tinha “queimado”, la dos confins da floresta, todas as etapas que, até pouco tempo, foram degraus nos sonhos de qualquer menino : desejar trenzinho elétrico, por exemplo, ou carrinhos de brinquedo, ou boa bola de futibol, ou até mesmo bons cadernos para desenhar, com variada seleção de lápis de cor. Sem nunca ter tido nada disso, Mateus, tão ágil e instintivo, tão “cobra”, na floresta, só queria saber do cellular. Alertei sua mãe, sobre as perguntas de meu marido: “ e se o menino parar de subir em árvores? E se parar de se esforçar na escola,  por passar tão drasticamente do isolamento na natureza, ao acesso a “the world wide web”, o w.w.w.  que nos é tão familiar e imediato, quanto, na sua exigência de um pensamento exato, mecânico e objetivo, mesmo na diversão que oferece através de jogos e apps, é tão facilmente inimigo da contemplação, da imaginação, e até mesmo da reflexão?

A mãe de Mateus me compreendeu e  agradeceu, pelo conselho que dei a ela, de so deixa-lo usar o “device” como recompensa, depois de fazer seus deveres escolares.

Voltando aos minutos que meu marido e eu ainda tínhamos dentro do carro, antes da missa começar, refleti sobre as etapas que Mateus estava “queimando”, e me dei conta, mais uma vez, de como esses smart phones vieram a se tornar cordōes umbilicais, que a tudo e a todos nos conectam, e sem os quais não mais vivemos. Minha imaginação bateu asas, e, considerando a capacidade desses telefones nos localizar, seguir, alcançar, seja lá onde estivermos, reduzindo  nossa privacidade e anonimidade quase a zero, assim como mapeando o mundo, decifrando e ditando os caminhos pelos quais devemos dirigir, mais o fato de nos permitir pagar nossas compras, sem precisar usar diretamente cartōes de crédito, cheque ou dinheiro, pensei que o dia em que a Apple, `a maneira da avançada medicina em Star Wars, decidir implantar o iPhone em nosso próprio corpo- estando este ja capaz de controlar coisas como nosso ritmo respiratório, e resolver mais um milhão de outras- não devia estar longe.

Levando esse controle do telephone mais adiante, imaginei tornar-se este capaz de vir a decifrar pensamentos, decodificando, em palavras, as ondas “energéticas” que os processos mentais devem emitir. Hoje, afinal, tudo que é mistério, como o espirito,  o pensamento abstrato, os entes de nossas fantasias, seja lá,  é chamado de “energia”…

Ninguém, nesse caso, teria nem mais a privacidade do seu próprio pensamento, coisa que, alias, ja vem se acabando, com a uniformização da mente e desejos de todos nós, pelo constante bombardeio de propaganda digital, maneiras de pensar, o que aprovar, e o que desejar. Mas, uma vez por todas extinta essa privacidade, ninguém teria absolutamente mais nada a esconder, e a sinceridade não conquistada entre uns e outros seria imposta, e definitiva. Haveria ainda, nos recessos de cada ser, algo sobre o que ser sincero, ou o pensamento de todos, `aquela altura, ja seria exatamente o mesmo, em qualquer cabeça? Terīamos, com isso, a devolução do pedaço mordido da maçã, que nos fez cair do paraíso? A utopia da conexão de todos os seres, ou um mundo sem guerras, competição (desde que todos saberiam os planos do “inimigo”) mas também sem alma?

Despertando tantas questōes, acho que o desenvolvimento da minha ideia sobre o absoluto reino do iPhone daria um filme de ficção cientifica, sobre um mundo que tanto poderia engendrar os seres vazios do Admirável Mundo Novo, quanto, num ponto de vista bem mais optimista, a utopia de uma absoluta transparência, em que ninguém poderia fazer planos obscuros, em relação a seus semelhantes?

Ouvindo tudo isso, meu marido ainda sugeriu, como parte do script, que Mateus viesse a se tornar o inventor desse “software”, lá da remota e ameaçada Amazonia….

Isso e outros assuntos ficam pra quem quiser desenvolver a ideia, pois embora as questōes que desperta sejam válidas, nenhum de nós aqui escreve scripts…

Feliz Ano Novo!

Image

Piramyde of Kulkutan, Photo by Chris Dodds

Quando me mudei para os Estados Unidos, estava longe de imaginar que na vista de muitos, “virei a casaca”.  Embora goste do país, so me tornei  cidadã americana para facilitar minha situação legal, de mãe de familia americana, pois não me considero pertencente a nenhum país, assim como vejo em qualquer pessoa um cidadão da humanidade, quer dizer, alguém livre para, havendo ocasião, mudar-se pra essa ou aquela cultura. Como Oscar Wilde, acho que “Patriotism is the virtue of the vicious”. Me dei conta que o motivo que me faz ver em cada pessoa um individuo acima de condicionamento e circunstancias, é o fato de que nunca fui capaz de contextualizar.  Voltando `a minha mudança radical, quando fui primeiramente morar numa cidade rural em Iowa, que tinha somente 60 mil habitantes, muitos achavam que não iria dar certo. Afinal, sair do permissivo Rio de Janeiro, para um lugar pequeno, provinciano, super católico, considerado pelos próprios americanos como a cidade mais racista do país, pra estar com um cara de formação completamente diferente , não poderia dar certo. Como é natural, todos contextualizavam. Eu, entretanto, so via o caso individual, de gostar do homem que encontrei, confiar nele, e perceber que ele apreciava o filho que eu ja tinha, e que trouxe comigo. Pra mim, so isso contava. O que se passaria entre as quatro paredes, era o que determinaria como se “comportaria” o mundo la fora.  Morei 14 anos naquela cidade, e posso dizer que não foi fácil mas, ate um certo ponto, deu certo. O frio, que `as vezes chega a a 30 C abaixo de zero, não era problema, mas a mentalidade paroquial das pessoas, o fato de praticamente não haver estrangeiros, e o clima “incestuoso” de um lugar em que não ha anonimidade, e todos viram, por causa, o juiz do proximo, era de sufocante. Eu ali me destacava como uma carnavalesca, dentro de um escritório de executivos de terno e gravata. Meu sotaque envergonhava meu filho, que estava naquela idade em que as crianças esperam que seus pais sejam como todos os outros. Uma vez, telefonei para a casa de um amigo dele, pra saber quando deveria busca-lo, e foram lhe dizer que alguém que “não falava ingles” queria falar com ele. Pronto! Aquilo foi suficiente para ele me dizer furioso, que não telefonasse mais pra casa dos seus amigos. Não sei se tive mais pena dele do que de mim mesma, quando, chorando, contei o caso ao meu marido. “Mas voce fala muito bem!” disse este, Mas eu sabia que um simples sotaque, para quem nunca ouviu estrangeiros, é suficiente pra ser considerado ignorância. Enfim, ouve ocasiōes em que quase fiz minhas malas, pra voltar pro Brasil, e se isso não aconteceu, foi porque “as quarto paredes”, quer dizer, nosso caso individual, estava dando certo, mesmo que aos trancos e barrancos, sobrepondo-se ao contexto. Também porque, minha diferença foi sempre bem acolhida pelos Americanos, que pareciam ver charme em tudo que a expressava. Mas afora idas ao único e resumido shopping da cidade, ou ao único cinema, que so mostrava blockbusters Americanos, não tinha nada pra fazer ali. Alias, sendo a pequena cidade agraciada com uma pequena estação de sky, podia-se, através desse esporte, ficar em contacto com a gelada natureza. Assim, me lancei no snowboard ja na meia idade, quando Olivia, a filha que tive la, era ainda bebê. Insisti naquela atividade, durante cinco invernos, parando na emergencia medica, em cada um deles. No primeiro, quebrei o pulso, e passei três meses com o braço engessado. Para trocar a fralda de  Olivia tinha que complementar com a boca, como um cachorro. Mas continuei, ate finalmente ver, que sem empregadas, amigos, ou alguém que pudesse ajudar, eu não tinha condição de continuar me machucando.

Depois de morar naquela cidade durante catorze anos, percebi que Olivia estava sendo discriminada pelas amigas, pelo honrável fato de eu ter, exposta  em minha sala, uma escultura de mármore feita por papai, figurando um casal nu, e que eu mostrava `as pessoas com orgulho, sem saber estar chocando todas, decidi me mudar. A mulher do casal vizinho a nós, cuja filha era, também, amiga de Olivia, se chocava com o fato de me ver de mãos dadas, ou simplesmente abraçada com meu marido, na varanda. Vim a saber, que ela declarou não sermos bons exemplos, para crianças.E esta era uma mulher metida a alternative, que pregava Palatis, Yoga e meditação, e alias, gostava de encher a cara. Acho que eu fiquei dez vezes mais chocada com ela, do que ela comigo. Mas o que interessa é que percebi que se não saíssemos de la, Olivia eventualmente começaria a me discriminar em favor dos amigos, ou discriminar os amigos, a meu favor. Assim se iniciou, para nossa familia, uma serie de mudanças pelo país, e viemos, finalmente, parar em Boulder, essa maravilhosa bolha de espiritualidade, e pseudo iluminados, praticamente isolada, por um halo de contemplação, da realidade do resto do mundo, desfrutando da melhor maconha que deve existir, em mil meios diferentes de ingestão, e da constante busca de expansão da consciência. Em Boulder, senti-me mais perto da dimensão espiritual,  parecendo-me, portanto mais fácil passar pro lado de la, quando meus dias no planeta chegarem ao fim, pensei, logo que nos mudamos.

A individualidade no caso de minha familia continuou a “dar certo”, se não acima do contexto, lutando com este, e conseguindo se sobrepor. Desta feita, mesmo continuando a acreditar no poder existencialista de auto- criação do individuo, quer dizer, na dimensão que, única e absoluta, deste ultimo, esta acima dos fatos temporais, admito que vim, lenta e dolorosamente, reconhecer a fôrça do contexto em que este se encontra. A força das diferenças culturais, e de tudo que não é nem eterno e nem inato. Aquilo que torna os Estados Unidos um país odiado, ao mesmo tempo que admirado, copiado,  forjado, e aqueles que nele vem morar, “suspeitos”, para muitos. Aquilo que me fez ter pena dos mexicanos do resort que acabamos de deixar, no seu desespero de replicar uma realidade americana, que de México, não tinha nada.

Assim como a intensidade atemporal que as ruínas Maya transmitem, sobrepondo-se `a profanidade do nosso  mundo,  continuo acreditando no poder de cada um daqueles empregados do resort, se quiser, se ousar,  se sobrepor ao seu descaracterizado contexto. E com esta fé, em cada um, cada qual, desejo a todos Feliz Ano Novo!

 

Quem é Voce?

Image

Yesho, por Eleonora Duvivier

Quem  é voce, que mostrou com sangue,

O que fingimos entender,

Para só precisar obedecer,

Que pensamos reverenciar,

Na distancia, de falar?

Quem é voce, que ousou se deixar matar,

Encontrando o todo, dentro de voce,

Amando, para morrer,

Sofrendo, para renascer?

Quem é voce, que honrando a terra,

Conheceu o céu,

Que sem nada ganhar,

Tudo realizou,

Que foi só você,

Para em Deus, poder ser?

Quem é  voce,  constante revelação,

que pensamos adorar,

Transformando em repetição,

Que, na mão dos homens,

A nenhum pertence,

Que,  perdão na agonia;

Amor sob tortura,

É plenitude, no mistério?

Quem é voce, que disponível a todos,

É infinita ascensão,

Que na  cegueira de nosso pensamento,

Pode morar, em nosso coração?

Quem  é voce, que não içou  mente, sobre matéria,

Sobrevivência, sobre  sentença,

Mas coração, acima da carne;

Alma, além do medo?

Quem é voce, que pôde no grande, lembrar do pequeno,

No pequeno, enxergar o grande,

Voce, que lembramos, por dever,

Pensamos buscar, sem nenhuma dor,

Amando, sem verdadeiro amor?