Os ganhadores da Corrida

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Papai; esquecendo-se de si?

Cresci numa família de uma sensibilidade crítica aguçada, e sempre rica em humor.  Além disso, a crítica constante não era só dirigida a outros que não nós mesmos, bem ao contrário. A auto- sátira de todos nós era talvez ainda mais prevalente do que o ridicularizar dos outros.

Eu era uma garota considerada bonita, mas nas sequencias cômicas que Edgar desenhava em torno da minha adolescência alcoólatra, eu aparecia como um “ser” anguloso, sem formas femininas ou qualquer suavidade,  sem nada, na verdade, atraente, ainda por cima com jeito frenético, ao se encontrar sem nem mais uma garrafa de uísque, enquanto as que eu já tinha esvaziado, (e nisso Edgar exagerava a quantidade)  apareciam escondidas debaixo de minha cama. Sobre esta, eu, recostada e displicente, expressava uma alienação abusada, chamando aos gritos algum dos empregados que nos serviam, para que fosse comprar o alívio líquido cuja reserva, sabe Deus como, tinham ousado negligenciar.  Quando Edgar me mostrou os quadrinhos que desenhou, tive que rir muito, mesmo me achando feia, absurda, e patética.

Em relação aos caras de quem eu gostava então, a família, que como qualquer família esperava que o “principe encantado” viesse quebrar feitiços, era impiedosa mas sempre com humor ímpar, ainda por cima quando percebia que os rapazes desejados se vendiam caro.   Conseguiam transformar em comicidade, a rejeição que eu sentia da parte dos caras,  principalmente através das séries  que Edgar inventava em torno deles como personagens principais, e nos apelidos espirituosos que papai lhes dava.

O humor,  mais que um simples caçoar, mistura percepção pessoal e validez objetiva, imersão e distanciamento, assim como acontece com a arte, tendo, como esta,  uma validez que transcende e, assim, exorciza a polaridade do julgamento, do “ou isso”, ou aquilo”, quer dizer,  de ter que achar as pessoas ou definitivamente ruins, ou boas. Por isso, ao mesmo tempo em que eu me enturmava com a crítica feita pela família, por um lado, continuava a gostar dos tais caras, por outro,  e, como se eu fosse duas pessoas igualmente válidas, quando não ria deles, sofria pelos mesmos, do mesmo modo como também podia rir de mim mesma,  e ao mesmo tempo, me levar a sério. Devo confessar que a isso, sou grata!

Mamãe e Edgar eram mais prolíficos no “tiroteio” crítico do que papai, pois ilustravam seus “achados” com caricaturas de primeira ordem. Mas quando o “velho”, mais conciso e reservado, decidia se manifestar, em geral fazendo de si próprio, e de nós,  alvos  frequentes, a hilaridade que causava o absolvia, e ele de chato, ficava até fofo.

Na verdade, tudo que escrevi é introdução para uma das críticas mais  histericamente hilárias que fez a nós. Achando-nos “sonhadores”,  incapazes de ganhar dinheiro, e adquirindo  o hábito de se queixar de nós pra mamãe (pra quem  empurrava não só a influencia sobre nossa educação, como muitas características genéticas que desaprovava) mesmo na nossa frente, ele um dia, retirando-se, exasperado, da mesa em que acabávamos de almoçar,  jurado como era `a biologia, e suficientemente educado para jogar, ou fingir jogar, toda a causa física do nosso “problema” sobre si próprio,  se sai com essa:

” Os meus espermatozóides devem ser mesmo muito ruins! Se os que ganharam a corrida resultaram nesses filhos, imagina só o resto….”

S.O.S. por Benki!

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Eu e Benki, em Marechal Thaumaturgo

“Floresta” interna, da Sagrada Família

Deus, na luz acima do Crucifixo, Sagrada Família

Neste texto, aproveito para relatar a difícil situação em que o líder Ashaninka Benki Pyiako se encontra, para vir ao conhecimento de outros, e chamar atenção para a corrupção que assola o país.

Apos transcrever o artigo referente a esse triste fato, e a conclusão do advogado de Benki, mencionarei o link em que se pede assinaturas contra a sentence de prisão que querem dar ao líder Ashaninka.

“Após conflitos na cidade de Marechal Thaumaturgo A/C, em abril 2015, Benki Pyiako, liderança Ashaninka da comunidade indigena do Alto Juruá, Acre, fez denúncia `a polícia para relatar os riscos de violencia que estava sofrendo, em razão de sua atuação como ativista ambiental, internacionalmente premiado e reconhecido, e liderança da comunidade Ashaninka do rio Amônia.

Os responsáveis pela investigação do caso foram até a sede do município e, após considerar apenas as alegaçōes dos acusados, decidiram arquivar a denúncia e indiciar Benki, pedindo a abertura de ação penal contra o próprio indígena, pelo crime de denunciação caluniosa.

O ministério Público estadual do Acre aceitou o indiciamento e propos ação penal contra Benki Piyako e, agora, a liderança Ashaninka pode ser condenada `a pena de até oito anos de prisão. O processo tramita na primeira vara criminal da comarca de Cruzeiro do Sul/AC, está em fase de alegaçōes finais para defesa e acusação e será julgado em breve. O advogado responsável pela defesa de Benki é Antonio Rodrigo Machado, também atuante na defesa do Povo Ashaninka e em outras causas contra madeireiros.

Nas palavras do advogado, “Benki Piyako procurou o Estado brasileiro para receber proteção das forças policiais e, em sentido oposto, está sentado no banco dos réus, acusado de um crime que não cometeu. Ao ser escolhido pela seletividade do sistema criminal brasileiro, não é apenas a liberdade de Benki que está em risco, mas sim o proprio respeito desse país aos povos da floresta e toda sua cultura”.

https://secure.avaaz.org/po/petition/Ministério _Publico_do_ Estado_ do_ Acre_ e_ 1a_ Vara_ Criminal_ de_ Cruzeiro_ do_ Sul_ Benki_ Piako_ pode ser condenado_criminalmente/? cPQRRmb

Eu aqui  adiciono estar em risco, além de Benki, e do respeito que o Brasil deve aos povos da floresta e toda a sua cultura, como disse o advogado Antonio Rodrigo, o respeito mais geral a algo que se chama ética, da qual o Brasil cada vez mais mostra carecer, mesmo que sem ela não se possa sobreviver, pois, em terra de corruptos, todos, eventualmente, se destruirão.

Adiciono, também, que o atentado a Benki mais certamente vem “de cima”, uma vez que ele é pessoa influente no cenário ecológico mundial, tendo ganho o premio de sustentabilidade “Equatorial Prize” em Nova York em 2017, e tendo estado recentemente com o papa, no Perú. Em outras palavras, Benki tem influencia na causa de preservação da floresta, causa esta que nada interessa aos poderosos do apocalypse, como estes que formam a bancada ruralista e que têm o país, ou a maioria deste, sob o seu suborno. Claro que é mais fácil atribuir o conflito a problemas locais com madeireiros, mas será que simples madeireiros poderiam, na verdade, subornar a polícia e as autoridades para que promovam o que é clara e obviamente mentira? Pelo amor de Deus! Seria o mesmo dizer que Marielle Franco foi “acidentalmente” assassinada…

Será que um dia o Brasil se libertará da corja de corruptos no poder; do cinismo, pouco caso, e pouca vergonha, que o domina?

Estou agora em Barcelona, onde me familiarizei melhor que da outra vez, com a religiosidade de Gaudí, sua veneração `a natureza e sua inspiração com a criação primeira, na qual ele claramente via a mão de Deus. Humilde, declarava somente “copiar” a obra divina, mas sua criatividade arquitetônica e plástica é de tal beleza, misticismo, e liberdade, que não admira a Sagrada Familia (sua obra prima) ser um lugar de pelegrinação mundial, onde fieis e agnósticos podem apreciar a comunhão das formas traduzidas da natureza, com a devoção ao Criador, e com o cristianismo.

Se o mundo fizesse jus aos feitos arquitetônicos de Gaudí, as pessoas reverenciariam a criação natural, não somente por motivos ecológicos derivados do interesse em sua própria sobrevivência, mas pelo que a transcende: o sentido de respeito pela sagrada obra de Deus, e por tudo que é vida. Fiquei pensando que, pudesse o Arquiteto de Deus, como intitularam Gaudí, ver a profanação atual dessa mesma obra divina, por motivos sempre mesquinhamente utilitários ou financeiros, ele se transformaria num ativista, e se tornaria alvo do imediatismo ganancioso daqueles que, burros, cegos, ou desgraçadamente egoístas, pouco se importam com o que existe além do ganho próprio, num mundo que tornam apocalíptico.

Espero que os leitores deste texto, admiradores ou não da genialidade, misticismo, e devoção de Gaudí, percebam que Benki se encontra ameaçado injustamente, por defender o que o Arquiteto de Deus claramente percebeu ser sagrado, e que todos nós, com um mínimo de bom senso, devemos respeitar. Vamos aprender com aqueles que nos são superiores, ao invés de se nivelar por baixo, como até então se tem feito.

Sagrado Feminino?

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Outro dia, eu estava conversando com meu irmão sobre a diferença entre a bela atuação de Ingrid Bergman, em Gaslight, e a exagerada, obsoleta e ridícula, de Charles Boyer. Alias, é comum, em filmes “antigos” ( feitos até as primeiras décadas do século passado) as heroínas , como Greta Garbo, Marlene Dietrich, Joan Crawford, Ingrid Bergman, Bette Davis, as mais recentes Grace Kelly, Kim Novak, Audrey Hepburn, continuarem, aos olhos de hoje, convincentes no seu papel, enquanto os atores que com elas contracenam nos aparecem, com frequência, canastrōes. Cheias de glamour, sedução, doçura e beleza, elas são insuperáveis, a ponto de qualquer atriz moderna se sentir orgulhosa, quando comparada a alguma .  Dos atores, por outro lado, pouco se fala. Seriam seus parceiros  piores que elas, na arte dramática, para explicar o fato de não passarem , como elas, o teste do tempo? Acho isso muita coincidência. Minha impressão é que a diferença de qualidade entre a maioria dos atores e atrizes da época que falo tem bastante a ver com a credibilidade do papel que representavam. Enquanto os homens eram os machōes, devendo transmitir a superioridade do seu sexo, elas, por outro lado, eram simplesmente femininas. Em outras palavras, os atores tinham que personificar atitudes de uma mentalidade ultrapassada hoje, e as atrizes  representar, por outro lado, atributos que, embora  não mais, ou raramente, encontrados, hoje em dia, fazem parte da essência feminina, e ressoam, então, com a audiência. Ingrid Bergman, melhor do que ninguém, representa o confiar da inocência , a entrega, e a doçura. Greta Garbo é mistério e languidez. Audrey Hepburn e Grace Kelly personificam a altivez e elegância naturais de princesas. E facil imaginar tais qualidades essenciais `a mulher, sendo ela a que vai esperar  filhos, e nutri-los; a que vai ter comunicação orgânica e direta com a inocência primeira do começo da vida;  ter paciência, amor incondicional, e a humildade de ceder seu corpo, na gravidez e amamentação, `a formação da sua criança. Claro que nessa sublime missão, encontrando-se mãe e bebê numa bolha de amor e vulnerabilidade,  a mulher deve se beneficiar da proteção do homem, assim como deve também esperar dele uma atitude deferente, em situaçōes que são mais suportáveis para ele do que para ela, devido `a diferença da condição física entre ambos. Homens não menstruam, não engravidam, não tem TPM, ou quaisquer dos sintomas de um ciclo que, hormonalmente dinâmico,  é cheio de altos e baixos, influenciando definitivamente o  bem estar, humor, em certos casos até mesmo o intelecto, da mulher. Ao contrário, o nível de hormônio no homem é estável durante o mês, e portanto confiável. Homens, por natureza maiores e mais fortes, não fazem o mesmo esforço que as mulheres, para se equilibrar de pé num ônibus em movimento, ou simplesmente carregar pacotes. Na relação sexual, o homem sai ileso com a satisfação do prazer, enquanto a mulher retém a semente, e lida com as “consequências”, se ja não se preveniu contra elas `a custa de pílulas , ou seja lá a guerra que tiveram que declarar contra os desígnios do seu próprio corpo, “guerras” que em geral deixam  resíduos desagradáveis. Em vista de tudo isso, é mais do que justificável a mulher, mesmo sendo esta capaz de fazer, profissionalmente, o que os homens fazem, merecer a deferência e proteção do homem. Mas tem este, por causa disso, que ser “o machão” caricata dos filmes antigos? Muito ao contrário. Não devemos confundir gentlemen, com machōes. Enquanto os primeiros respeitam a mulher como mulher, e assim se respeitam, como homens, os segundos mandam na companheira, a oprimem e, considerando-se superiores, colocam ascendência na quantidade maior de volume físico, quer dizer, definem-se covardes.

É preciso que a mulher e a sociedade não confundam necessidade de respeito entre os sexos, com a vontade de os igualar, justamente nessa época em que a natureza e o natural merecem reconquistar seu valor e autenticidade, pois as mulheres, por natureza, têm concavidades, enquanto homens tem saliências. Testosterona tem grande influencia  na agressividade, enquanto estrógeno na capacidade de entrega. A mulher se abre; o homem entra. Enquanto armas são saliências (revólver, espingardas, mísseis), aquilo que acolhe, como o lar, os lagos, os ambientes calorosos, são reentrâncias. A criação, a própria vida, depende do equilíbrio dessa oposição, ao invés de sua anulação. Por isso considero gentleman, o homem que  eleva e reverencia a diferença, ao contrário do machão, que se aproveita dela. Reverenciando -a, um gentleman, que cede seu lugar no ônibus a uma mulher, ou se oferece para carregar seus pacotes, ou lhe abre a porta do carro, igualmente respeita a essência feminina, e a masculina. Entretanto, muita gente hoje considera isso sexismo, como se o respeito tão longamente negado `a mulher, na sociedade machista, só pudesse existir no igualar dos sexos! Esquecem que a capacidade de criação física, de fazer nascer do seu  corpo- principio feminino que caracteriza a própria terra “mãe natureza”-  é o que tornando a mulher , fundamentalmente diferente do homem, pode fazer com que os dois se completem, e se equilibrem.

O sagrado feminino é por definição o reconhecimento de que Deus não é homem ou mulher, mas essência divina que, alem de forma e dualidade, equilibra e unifica o principio masculino e o feminino, numa imanência interdependente que tudo permea. Obviamente, o que está na essência divina é também essência, e portanto atemporal.

As qualidades personificadas nas atrizes que citei sao atemporais, e honram muito melhor a necessidade de entrega e acolhimento uterino, da parte da mulher,    assim como solicitam, do homem, o respeito e cuidado devido, que um gentleman sabe ter.  A vontade da mulher reivindicar esse respeito igualando-se ao homem, por outro lado, transmite competição. Sendo essa atitude tão abrangente,  não sei como os homossexuais, entre os quais se encontra grande parte das pessoas criativas de nossa especie, ainda não reclamaram tambêm a sua parte, na essência divina.

A ortografia, ao abandonar a possibilidade do artigo masculino abranger os dois sexos, quando o feminino esta incluído, sofreu visual e sonoramente, resolvendo especifica-los. Ficaria ainda mais esquisita, pois ao invés de se dizer, por exemplo, falando do reino de Deus, “…o reino dele/dela…” como ja muitas vezes li, se diria, “…o reino dele/dela/de ele+ ela”, ou quem sabe, “…o reino dele/dela/delea , inventando-se a palavra elea como mistura de ele e ela, ja que os gays, mesmo sem poder dar a luz, tem neles o masculino e feminino ao mesmo tempo. Diga-se de passagem, pra mim é mais fácil imaginar Marcel Proust parte da essência divina, do que Donald Trump, ou Hillary Clinton.

Se nossa busca é ser politicamente correto,  a inclusão da homossexualidade na essência divina faria sentido.( Embora não seja a mesma coisa,  Camille Paglia, cita várias divindades hermafroditas, pela história). Mas se buscamos  essências, na tentativa de se aparentar  com o divino, quanto mais se especifica, mais absurdo se torna.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi muito legal conhecer Marieta!

Não é que eles cheguem “vazios”, pois, embora incólumes, ainda falam a linguagem do mundo das estrelas. Então, a gente sente a generosidade da criação encarnar, e nos dar a missão gigantesca de, na nossa “ignorância”, ensinar um serzinho já tão sábio- a ponto de ter imensa força na sua própria delicadeza- sobre o nosso mundo da relativização. Sentir alguém que, como uma hóstia, dispensa palavras, entendimento racional, e tudo que não seja comunhão.

 

Preciso ainda uns bons anos pra resgatar todas as partes de mim mesma, espalhadas pelo tempo e por todos os lugares em que fui exclusivamente mãe, isolada de familia e de ajuda de babás, nos Estados Unidos. Foi tudo lindo, mas quero esses anos pra extravazar o que vivi, e me reencontrar.

A intensidade do corpinho de Marieta contra o meu, o seu calorzinho móvel, desingonçado em relação aos nossos rótulos, medidas, e movimentos comprometidos com o tempo, orientados por objetivos que estao sempre adiante; a liberdade que ela transmite, mesmo nos limites materiais do seu pequeno tamanho, é a liberdade do absoluto, daquilo que a gente vai “domar”, encaixar, e “orientar”.

Por enquanto, acho que não sei mais fazer isso. Acho que ficaria entre chorar de emoção e cair de joelhos aos pezinhos dela, como eu fazia com meus filhos, tendo o primeiro vindo ao mundo porque eu o trouxe, independente da vontade, e companhia de seu pai. Trouxe um primeiro homem, aquele que não era herdeiro de outro homem, aquele que foi, desde o comecinho, principio de renovação, na responsabilidade absoluta, uma intensidade avassaladora que me fazia rezar, para “resistir”, poder acompanha-lo, e zelar por ele.

Vivi meses entre rezar e amamentar, pois ele pouco dormia, ou melhor, só adormecia no peito, e só continuava a dormir, também, no peito.Nunca pensei que chegaria a ter outro bebe, uma menina, quando nos mudamos para os Estados Unidos.

Nunca pensei nem que eu fosse viver tanto, pois fui alcoólatra e anoréxica na adolescencia, e abusei da minha resistencia e saúde, durante toda a juventude. Sempre quis ter filhos, mas por isso, não tinha certeza nem que viria a ter um, quanto mais dois, já vivendo numa cultura estrangeira, na tal cidadezinha campeã de caretice nos Estados Unidos. Mas, “I did it my way”, como canta o Frank Sinatra, e como Deus generosamente permitiu.

Marieta me fez reviver uma itensidade diante da qual muitas vezes pensei que iria sucumbir. Foi lindo. Mais que lindo. E também foi mais que lindo, conhece-la individualmente. numa noite em que fui encontrar meu irmão, o novo avô, que estava tomando conta dela, enquanto o filho Gregorio e sua mulher Giovana haviam saído. Conheci a precocidade e poder de exclusividade da garotinha, uma bebezinha que adora se comunicar, adora que se dirija a ela, e não tem nem dois meses!

A inocencia junto com a força, ou a força da inocencia, doe, por nao sermos mais inocentes, ou por termos que vir a “domestica-la”, bota-la dentro de contextos. E como é dificil… A gente se comove, chora, e quando menos se dá conta, e se pensa estar cansado, tudo que se quer novamente é o contacto com aquele pequeno ser, tão indefeso quanto sagrado.

Nossa! Que “banho”!

Obrigada, Gregorio, por mostrar tanto empenho que eu viesse. Obrigada Giovana, por fazer a Marieta com Gregório. Aliás, a propósito de Gregorio, quando eu disse a ele que tive que adiar minha vinda pra depois do carnaval, ele falou, “… Marieta ainda vai estar bem pequenininha, que bom!”

A maioria dos pais diria, “ ela ja vai estar maiorzinha, que bom…”

Mas Gregorio entende!

Primeiro Mundo?

 

Um dos três anos em que morei na Inglaterra foi passado em Cambridge, cidade linda, pequena, poética , cheia de igrejas góticas que, no desvario da sua delicadeza vertical, nos tornam parte da sua ascensão. Com suas faculdades maravilhosas, ruas calmas, verde, e silencio, nada parecia faltar em Cambridge, para quem gosta de livros, reflexão, e cultura.  Por causa de Cambridge,  quando me mudei para uma cidade pequena nos Estados Unidos, que tinha também, universidades, eu estava longe de imaginar a mentalidade retrógrada que lá prevalecia. `As vezes me perguntava como podia existir tamanha caretice, no “primeiro mundo”.

Pouco a pouco, fui percebendo que, talvez por influência européia, para mim, primeiro mundo significava antes de tudo cultura, arte, e tudo que promove o desenvolvimento da mente, tanto no sentido psicológico e emocional, quanto intellectual. “Que droga de primeiro mundo é este?” minha mãe perguntava no telefone, quando eu lhe falava do puritanismo do lugar. Mas, puritano ou não, acidade, que era em Iowa, dispunha da “maravilhosa” tecnologia americana, desde computadores, todo tipo de maquinária doméstica, automóveis massudos e auto importantes, até a imensa gama de objetos utilitários, prosaicos e triviais, que a proposta da sua servidão é responder necessidades que eles mesmos criam, passando de “servos”, a patrões.

Quantas vezes se vai ao Target so pensando em comprar, por exemplo, algum shampoo, e se sai de lá com uma parafernália nova de banheiro, que a gente nem sabia que “precisava”. Prateleiras que cabem em volta da privada, para dar mais lugar (um lugar até então desperdiçado) `a toalhas, ou cosméticos, tapetes de banheiro  contendo uma camada tempurpedic (melhor para os pés) lixeiras mais fáceis de abrir, enfim, tudo que, se não comprarmos, nos faz sentir “roubados”.  Vai-se ao Target como patrão, e rapidinho se vira escravo. Indústria e tecnologia se desenvolvem de mãos dadas, para servir o imediatismo mecânico do tipo de mente que elas próprios criam, uma mente que não precisa saber nada de arte, ou tampouco refletir sobre os valores humanos pois, enquanto ciência aplicada, a tecnologia tem  objetivos que só visam resultados  materiais. Cultura, por outro lado, nutre o espirito e por causa disso, passa, no domínio da matéria,  de necessidade a luxo. Puritanos, ignorantes, caretas e racistas,  sabendo apertar os botōes certos, ou tocar nos devidos ícones , se irmanam no pragmatismo que, cada vez mais, abafa a espiritualidade. Quem tem tempo de se ocupar com ela, se o computador organiza nosso pensamento, e se os diferentes controles remotos que se proliferam ad infinitum  nos deixam permanecer sentados, enquanto um abre a cortina do quarto, o outro faz aparecer filmes na televisão, o terceiro  muda a temperatura da casa, e por aí afora?

`As vezes, acho que o símbolo dos Estados Unidos devia ser um controle remoto!

Quando contei `a mamãe que as amigas de minha filha não podiam entrar em nossa casa, por causa da escultura em mármore feita por papai, de um casal nu, que coloco sempre em lugar de honra, e ela me perguntou, pela milésima vez, “que droga de primeiro mundo é esse?”, eu respondi , “ Não é primeiro mundo, e sim idade media… So que uma idade média sem espiritualidade, uma idade média materialista.”

Aguentei o paradoxo de uma idade media materialista por muitos anos, e quando achava que ia enlouquecer, botava algum youtube do Elvis a todo volume, na sua fúria transcendental, e na absoluta liberdade dos seus movimentos imprevisíveis: “You are nothing but a hound dog!…”, imaginando que ele estava gritando contra toda aquela gente, e assim, Elvis me vingava um pouco. Embora eu tenha me ligado muito mais ao Rock n Roll ingles, concordo que Elvis é o rei. Ao invés de simplesmente dançar, ele é “possuído” quando se movimenta. Quando passa por exemplo, de uma flexibilidade “liquida”, parecendo não ter juntas, ao  vigor  do seu sentimento extremo, na motilidade única do seu rosto, e nas suas palavras, cuja convicção forma decretos, ele incorpora uma liberdade que não é deste mundo. Thank you Elvis!

Depois de muito me revoltar com o fato da cultura, enquanto caracteristica do primeiro mundo, ter dado lugar `a tecnologia; depois de constatar que todo mundo, antes de pensar comprar uma obra de arte, faz questão de adquirir o ultimo lançamento da Apple, depois, enfim, de  lamentar a constante diminuição do lado subjetivo da mente, pelo domínio eletrônico dos processos exatos, constatando  a verdade Junguiana que o homem moderno esta perdendo sua alma, eu, em Boulder, descobri o que pra mim, caracteriza o primeiro mundo.

Boulder, com a melhor maconha que existe, transformou o que era crime, em cura. Liberou o consumo da planta, nao so com objetivos médicos ( é impressionante os beneficios curadores que nos oferece) como para fins recreacionais. Com isso, resgatou a necessidade de contemplação, diminuiu a agressividade (ao contrário do alcool) e, Eureka, preparou o terreno para a devolução da alma do homem “moderno”. A devolução da capacidade de ver a beleza, e não só a utilidade. O respeito pelo que “é”, e não só a ganancia  pelo que nos serve: o poder da humildade, ao invés da vontade de poder.  Pois é nessa capacidade de ver cada ser em si, independente dele poder ser “usado”, que reencontramos o respeito geral pela criação, da qual somos um, e na qual somos todos. Sim, falo da conexão entre tudo e todos, que o Ayahuasca finalmente vem resgatar.

Embora legalizado aqui para o Daime e União do Vegetal, os artistas e os livres preferem buscar o  genuíno ritual de sua origem, e encontram seus Indios e Shamans para conduzi-lo. Quando o Ayahuasca, resgatando o sentido do sagrado, salvar o planeta,  o Brasil, com seus índios conhecedores da floresta e das plantas, terá passado de país do futuro a país do presente!

Voltando a Boulder, se a liberação da maconha, com as inúmeras formas de ser consumida,  não significa evolução , considerando-se principalmente o impasse ecológico que o capitalismo, encalhado na fase egoista e desconectada do individualismo, nos colocou, nada mais é evolução.

Então descubro que para mim, o que caracteriza o primeiro mundo são as condiçoes que nos permitem ultrapassar essa fase, e atingir o nosso verdadeiro indivíduo. Por isso, muitos aqui  ja consideram as plantas  espíritos, enviados de Deus.